quinta-feira, 2 de abril de 2026

 depois de quase uma hora de choro ininterrupto

 sobrou o vazio.

e então o peso.

como um espírito sentado em meu peito, deitei virada pra cima esperando o que quer que quisesse me possuir vir logo

nada veio. além da própria tristeza.

a vermelhidão dos olhos ressequidos me fez buscar um alívio na escuridão

por que o escuro não me abraça e não me traz mais emoção?

estou crescendo? ou perdendo a noção?

o sono não veio. ele nunca vem.

foi substituído por um cansaço e um aturdimento quase cômicos

precisei tanto do sono e fui enganada 

como se corpo e mente entrassem em guerra sobre quem manda mais, sobre quem precisa ceder mais

outra crise de choro por antecipação

meu deus eu não quero me colocar para ouvir o sofrimento alheio

tampouco quero continuar presa aqui, no meu

eu não sei o que fazer, sequer tenho com quem conversar

correção

não tenho quem me ouça sem ter suas energias sugadas

não tenho quem me ouça sem me fazer sentir exposta e vulnerável a ponto de querer tossir os próprios órgãos no dia seguinte de arrependimento

sábado, 4 de outubro de 2025

"Ter saudade até que é bom / É melhor que caminhar vazio..."

Foi cantando essa estrofe que percebi duas coisas. Ou melhor, lembrei. Primeiro, a terribilidade do que é o vazio. O vazio é ruim. E desesperador. Você geralmente subestima, até que esteja lá. Ou melhor, até que se sinta a caminho.

Quem já se deparou com um grande buraco dentro de si mesmo, a ponto de duvidar da própria humanidade? Eu já. Eu fui me permitindo ser levada para a borda do precipício, passo a passo caminhei vazia, quase aérea, por um tempo considerável... quem olhasse confundia com leveza. Plenitude. Calmaria. Enxergava uma beleza quase que etérea. Só que era vazio. Cheguei perto do abismo, encarei-o de perto, mas então fui puxada de volta. Fui salva a bem a tempo.

Segunda realização. Eu fui salva por ele. Ele, quem? Ele, o amor? Foi o amor que me puxou de volta e me acolheu? Não. Não o amor. O amor não tinha potência para essa força-tarefa. O amor sequer percebeu que havia perigo em se jogar. Não sabia como chegar e segurar, era signo de ar flutuando ao redor, porém sem firmeza... O amor flertou com o perigo, porque, dentro de mim, nunca soube o lugar certo para se enraizar. O amor quase me empurrou, sem convicção, sem motivos, passo a passo caminhei seguindo as luzes erradas até a beira...

Até que fui tirada da beirada pelo ódio.

Se hoje não me sinto vazia, é porque estou preenchida pelo ódio. 

Sempre falam sobre o amor e a forma irreal como ele deve preencher cada poro de seu ser, como deve abraçar e transformar cada queixa, cada sentimento de contrariedade que venha a surgir. Aliado ao perdão é quase que uma característica divina que tudo transforma, é o poder de mudar a forma como você encara a realidade, trazendo novos sentimentos sobre o mundo. Não discordo completamente dessas coisas. Porém sempre questiono: por que ninguém fala sobre a importância de sentir ódio? Por que ninguém esclarece que o sentimento de injustiça não encontra combustível no amor, mas no ódio e na raiva? Por que ninguém valida que o ódio nos mantém vivos?

Me disseram que o amor ia me salvar inúmeras vezes. Quando o próprio amor me deixou sem chão, foi que pude perceber a importância da teimosia que o ódio traz. É um persistir, ainda que pela raiva, para não dar o gosto de desistir a alguém que gostaria muito de te ver fazendo isso. O ódio me salvou quando precisei sentir alguma coisa e não encontrei o amor em lugar algum. Sempre me ajudou a não me sentir vazia. Quando eu quis entregar os pontos e deixar o "amor" me levar, o ódio me puxou para a realidade e não me permitiu me perder de mim mesma. Há quem diga que o amor a si mesmo é a chave para todo o equilíbrio e toda a paz que o ser humano necessita para se relacionar com as pessoas e o mundo. Enquanto não trilho esse caminho maravilhoso, me resta o ódio e todo o movimento que ele traz aqui dentro, como que num último ato desesperado de não me perder ou me desconectar por completo desse corpo.

sexta-feira, 11 de julho de 2025

 Chegou o dia em que elas me dominaram. Mais que dois CID's, ansiedade e depressão, de mãos dadas, tomando conta de meus dias, de meus instantes,  de minha vida como se não fosse a vida que trouxesse os gatilhos necessários, especialmente da primeira. É como viver estando sob uma pele vibrante, agoniada, nada relaxada, agitada ao máximo, mesmo quando nada acontece. Um susto no sistema nervoso e tudo desmorona de vez, você precisa de um plano de backup pra recarregar e se autorregular. E se eu não souber como faz? Vai aprendendo na marra. E se eu achar que isso é o fim do mundo? Se não houverem soluções no momento? Vai ver que a vida continua mesmo assim, apenas precisa seguir. O mundo continua e você pode até conseguir uns dias, mas não terá permissão para passar a vida inteira deitada rolando e sentindo os infernos interiores. Você vai se perguntar como é que pode tanta gente estar vivendo normalmente e você paralisada nessa. Sem ninguém ter ideia. Sem uma trégua.

Estou cansada. E triste. E ansiosa. Excesso de passado e de futuro no presente dá nisso. Mas é como uma espécie de fuga para um presente não satisfatório. Que peso essa coisa que desce até o dedo do pé e começa na cabeça. Um banho gelado seria menos impacto do que essa coisa que toma conta dos membros, do tronco, da cabeça, e começa tudo por ela. Tudo. Meu sonho de vida se tornou ter saúde mental e uma cabeça boa. O resto seria o de menos. Incrível, né?

sábado, 10 de maio de 2025

Eu ainda sou bem moça pra tanta tristeza?


E na rede social de feed infinito encontro homenagens aos vivos e conversas com os mortos. Essas conversas nada mais são do que monólogos. Eu só acredito no saudosismo e na não aceitação dos vivos, dos que ficaram. Não acredito nas respostas dos mortos.

Me assusta pensar na finitude cada vez mais, e não ter esperança de continuidade. Mas a possibilidade do eterno também tem o poder de me perturbar. Como parar de ser sensível às coisas intrínsecas da vida? 

"Deixemos de coisa, cuidemos da vida..."

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Comecei num ato singelo de revisitar boas memórias relacionadas a datas comemorativas e terminei no abismo que se tornou a realidade de minha família e da minha maior saudade. É como se cada vez que eu pensasse nela, na gente, em nossas memórias, ainda que boas, percebesse de um modo diferente como ela estava em tudo. Nas motivações, nos sonhos, nos cumprimentos de tabela, nos esforços diários, nos compromissos de família, nas reuniões, nas comemorações. No passado inteiro. No presente enlutado. Só não no futuro.

Eu continuo percebendo que a minha felicidade tem pontes frágeis, e isso me incomoda tanto, a ponto de evitar escrever e pensar. O externo continua tendo papel fundamental, sua validação, sua entrega, seu carinho, tudo se sobressai a como me sinto e me perco aqui dentro, mais uma vez. Não aguento mais vagar perdida em mim, sem ter certeza de onde me encaixo e me percebo. Sem ter certeza do que seria melhor e saudável. Eu saber o que não quero já é grande coisa, eles dizem, mas pra mim não é o suficiente. Não ser o suficiente me quebra, me enfraquece, porque o pouco que sei e o muito que não sei, é a única coisa que tenho agora.

domingo, 13 de abril de 2025

Mais um domingo, mais um dia

Eu vejo gente se adequando o tempo todo, ao que o corpo pede, ao que a saúde pede, ao que precisa fazer pra continuar aqui, indo, continuando, vivendo, continuando, seguindo, continuando... Abro as redes sociais e é nutricionista, fisioterapeuta, personal trainer, coach, vários profissionais mencionados e ajudando as pessoas a continuarem. Porque continuar vale a pena, eles dizem. Todo mundo tem essa dádiva, esse presente em mãos, que é viver, e precisar cuidar de um jeito que nos permita continuar pelo máximo de tempo que conseguirmos. Precisamos continuar. Precisamos nos adaptar. Quem não se adapta, não sobrevive, eles dizem.

Mas, e se...

E se eu não estiver disposta a lutar tanto assim pela minha sobrevivência? E se a minha vida tiver virado algo do qual não consigo me orgulhar ou enxergar novos caminhos, desta vez felizes, e se eu perdi a fé de que algum dia serei feliz, satisfeita, realizada... não desprezando as coisas boas que as pessoas me proporcionam, mas, e se eu não conseguir enxergar motivos para continuar, apesar de tudo? Se o peso e a infelicidade me consumirem ao ponto de nublar os sentimentos bons, como vem acontecendo de forma cada vez mais frequente, e eu deixar esse mar me engolir? Como naquele sonho que eu tive semana passada, e se eu só me deixar afundar em direção ao fundo dessa piscina sem fim, vendo a iluminação fraca do sol desaparecer e meus membros pararem de reagir...

 Dizem que não há outra chance, que esse seria um caminho sem volta, portanto, uma opção menos inteligente, essa de desistir da única coisa que tenho, pois só tenho quando existo e só existo uma vez. Será que quando penso em desistir é pra ver se consigo uma segunda chance? Ou realmente desprezo tanto assim a existência e tudo nela envolvido?

Se tem uma coisa que não desprezo no existir são as dores, as faltas, as lágrimas, e tudo aquilo que me faz sentir viva, mas de uma maneira ruim. Viver só experimentando o bom é algo impossível, estou ciente. Mas por que experienciar o ruim é algo que tem o poder de me consumir e me tirar a vontade de viver, a ponto de eu questionar meios discretos e menos preocupantes de desaparecer dessa coisa onde estão todos tão focados em preservar para continuar?

Se eu desaparecesse sutilmente seria pior do que subitamente? E se eu já estou sumindo, mas ninguém está percebendo? Talvez eu seja realmente muito boa em manter performances. Talvez eu devesse investir numa carreira de atriz... Seria irônico descobrir que eu quero viver através desse caminho. Hoje em dia todos parecem acreditar que estou bem, e que quero continuar como todo mundo, claro que dentro de minhas possibilidades e limitações. Digo brincando que a vida presta ou não presta, quando no fundo tudo que eu mais queria nesse mundo era sentir na pele, nos ossos, no corpo, em tudo físico que eu puder, um gostinho de "quero continuar sim, até onde puder, da melhor forma que puder".

Mas em vez disso, eu já acordo com raiva... Talvez não sempre com raiva, mas... Talvez desapontada? Por ainda estar aqui. Me sinto mal quando penso em coisas como minha mãe, por exemplo. Queria que ela estivesse aqui. Desejo talvez egoísta, mas, quando penso que uma pessoa que amava a existência foi embora tão cedo, pro que esperava, pro que esperávamos... Só não parece certo. Preferia ter sido eu a combater a doença e tudo que veio depois disso. Preferia ter sido eu a perder uma batalha e me entregar. Mas talvez isso tivesse tirado ela desse eixo de gostar da existência, afinal, pais não foram feitos e programados para perderem filhos. Então, que cruel, foi mesmo melhor assim? Não, ela deveria estar aqui. Por muito mais anos, pelo menos. Ela morreu sem me ensinar a gostar de viver. Não era sua obrigação, mas eu me culpo por não ter me colocado acima de toda a agonia e afobação que nossa relação teve pra conhecê-la melhor.

Estou desapontada porque não sei viver, só existir não está funcionando. Esperança e fé são coisas que, desconfio, se já tive foi há muito tempo, quando talvez eu não sabia nem ler direito, muito menos escrever pra me expressar.

Sigo sendo há bastante tempo uma ranzinza que engana, uma ranzinza que faz com que todos gostem de suas piadas, seu senso de humor baseado em autodepreciação e amargura, podem vir que o stand-up é gratuito e sempre tem. Pensei em deixar cartas, pouco a pouco para as pessoas com quem me importo, para poder tranquiliza-las de que elas não tem culpa de nada, afinal, há desertos que realmente nós só temos como atravessar sozinhos. E eu me cansei cedo demais na minha seara particular. Tudo bem, já vi acontecer com outras pessoas, não tem nada a ver com ser ou não atento ou próximo o suficiente, as pessoas às vezes só desistem, nem todo mundo vê a famosa luz no fim do túnel, por mais que pessoas estejam dispostas a mostrar. É como tentar fazer um míope enxergar sem óculos, só pela força de vontade. Só que esse é um universo onde óculos não existem, então sua visão só vai ficando pior pior, e milagres também não existem, apesar de eles dizerem que sim, que é possível. Você não se fechou para a experiência divina, você sabe que não. Você só se acha inadequada o suficiente, como na maior parte das coisas em sua vida, o que pode soar um pouco triste e desesperador, mas a vida é o que é, não tem que focar em coisas abstratas como fuga - você já tentou, por anos, e nunca deu certo. Você odeia pessoas privilegiadas por isso, lembra? Elas herdaram os privilégios que lutam pra manter e atribuem ao divino suas bençãos. Eu queria que todos se explodissem, mas sei que não estarei aqui pra ver nada disso acontecer.

Enfim, eu comecei a escrever as cartas e ainda por pessoas improváveis, acredito. Pessoas para quem não tenho dado atenção ultimamente, ou assim eu acho. Eu gostaria de sumir do planeta deixando a certeza de que elas não tem culpa de nada - não tenho como ter essas garantias mas olha aí a beleza da não existência: não haver preocupações.

Sinto que quando o "nada" parar de me assustar eu vou tomar um grande passo em relação aos planos mencionados nem mais tão nas entrelinhas, e talvez mergulhe de vez naquela piscina que sonhei.

quinta-feira, 13 de março de 2025

20 de Agosto de 2023, sobre um show e memórias eternizadas

Passando por momentos de ressignificado emocional, talvez? Não escrevo esperando pelo milagre da convicção, quero apenas registrar as últimas coisas.

Como o sonho que tive na madrugada da data que seria o aniversário da minha mãe. Um sonho no qual ela estava viva e eu pedia colo. Como se fosse meu eu criança ansiando pela mãe, como nunca fiz antes. Ontem no show de Legião Urbana pensei nesse momento de meu subconsciente, ao cantar aqueles versos já tão batidos "quero colo, vou fugir de casa, posso dormir aqui, com vocês?" No sonho eu literalmente pedi para dormir com a minha mãe. Eu, que até os 10 anos dormia com ela e minha irmã na mesma cama.

Eu acordei para trabalhar nesse 17 de agosto me sentindo tão... Incompleta. As lacunas em mim eram o vazio da saudade. O sonho me trouxe uma mãe realista, suas feições quase palpáveis. Cheguei a me acordar antes do despertador tocar, ainda estava escuro, e fechei os olhos com medo de coisas irreais à espreita em meu quarto. As coisas das quais tinha medo, no sonho, após ver um filme de terror. E por isso pedi colo, por medo.

Meu primeiro contato com Legião Urbana foram as fitas da minha mãe. Um dia eu estava com ela no centro do Recife, ainda bem pequena, ela parou um homem que estava vendendo "tapes", provavelmente piratas. Lembro que ela comprou algumas de Legião e, posteriormente, a chegada do microsystem em casa e do CD "Mais do Mesmo" foi o passo final de meu ritual de iniciação à banda. Ontem foi um show nostálgico e incrível.

Apesar de as músicas me tocarem pela identificação pessoal com os versos, foi impossível não direcionar alguns deles para ela, a "dona do mês de agosto" em meu subconsciente.

"Tenho andado distraído, impaciente e indeciso"

"Palavras são erros, e os erros são seus

Não quero lembrar que eu erro também..."

"Sempre precisei de um pouco de atenção

Acho que não sei quem sou

Só sei do que não gosto..."

"Todos os dias antes de dormir

Lembro e esqueço como foi o dia

Sempre em frente

Não temos tempo a perder..."

"Tudo é dor

E toda dor vem do desejo de não sentir dor..."

Nessas partes eu tive quase que uma catarse, mas era tudo sobre mim. Apenas eu e minhas confusões. Mas então veio a já mencionada "Pais e Filhos", cujo título já é uma forma de forçar a barra por si só. Até que foi leve. Só lembrei do meu sonho. Antes disso eu já havia sido estraçalhada por "Vento no Litoral" e "Por Enquanto".

"Dos nossos planos é que tenho mais saudades

Quando olhávamos juntos, na mesma direção

Aonde está você agora

Além de aqui, dentro de mim?"

E quando tentei respirar, foi como levantar de um mergulho e ser atingida por uma onda:

"Agimos certo sem querer

Foi só o tempo que errou

Vai ser difícil sem você

Porque você está comigo o tempo todo

E quando vejo o mar

Existe algo que diz

Que a vida continua e se entregar é uma bobagem...

Já que você não está aqui

O que posso fazer é cuidar de mim

Quero ser feliz ao menos

Lembra que o plano era ficarmos bem?"

E depois de me afogar bem aqui e sentir a visão embaçar pelos olhos marejados, houve o misto de sentimentos em "Por Enquanto", ainda que bem mais leve que antes. Mas não deixou de ser catártico. Se fosse o arranjo da versão de Cássia Eller talvez eu tivesse me afogado em mais memórias e lembranças. Mas, ainda assim... que merda é o luto, né? Que merda é a morte, né? Nada de "novo", nada "fantástico" ou extraordinário, que... merda. Que merda viver como se tivéssemos todo o tempo do mundo. O próprio cantor da música morreu jovem. Que merda.

Queria encerrar esse texto de forma bonita, mas não vou conseguir. Ainda estou revoltada por não poder compartilhar com minha mãe a experiência do show. E não quero saber do "espiritual", foda-se, eu queria o carnal. Como não consigo deixar de lado meu azedume, vou pegar emprestadas as palavras de Renato Russo mesmo.

"Nada mudou, mas eu sei que alguma coisa aconteceu, tá tudo assim, tão diferente

Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar

Que tudo era pra sempre

Sem saber que o 'pra sempre' sempre acaba?

Mas nada vai conseguir mudar o que ficou

Quando penso em alguém

Só penso em você..."

Te amo, mãe. Obrigada por tanto, mesmo agora. Um dia vou ficar bem.

domingo, 9 de março de 2025

Que difícil viver, às vezes.
As vezes morrer parece realmente uma opção boa... Atraente

Porque o peso de viver sem paz é demais pra carregar, você só quer desligar um pouco. Pode chamar de fraca, de covarde, de ingrata, do que for. Mas ninguém está sob minha pele.  Ninguém sabe as dores que eu sinto nem o desespero que bate quando eu sinto que não estou conseguindo. 

Talvez seja só uma questão de desequilíbrio - seria o que eu diria para qualquer pessoa, para ela continuar. 

"Busque o equilíbrio, de substâncias, de prioridades, de qualquer coisa, tente buscar o equilíbrio" 

Estou muito cansada pra seguir meus próprios conselhos, eu só queria era desistir de tudo mesmo, infelizmente. E infelizmente a opção mais atrativa é a mais dramática.

Ouso dizer que só não a coloco em prática de verdade porque eu penso nos outros que seriam afetados por isso. Ainda que os outros não tenham ideia do peso que carrego, e do quão difícil é somente levantar e seguir em frente na maior parte dos dias. 

Abrir os olhos já me coloca num lugar de cobrança, eu preciso fazer algo porque estou viva. Eu preciso viver porque eu estou, eu sou, eu nasci, dizem que quem nasceu já venceu a morte, e eu gostaria muito de abraçar esse discurso da dádiva que é a vida, o presente.

Por favor se forem me julgar, me julguem sem me deixar perceber. Infelizmente minha intuição funciona muito bem pra coisas ruins. Meu sistema nervoso está sempre em alerta, se eu não estiver sob efeitos de drogas (aceitas e/ou rejeitadas socialmente) eu estou sempre em alerta. O que significa que uma tarefa simples como interagir em público me deixa à beira do precipício só pela obrigação de interagir e lidar com meus demônios envolvidos na atividade. 

Socorro...

Depois que você morre, as pessoas sairão em busca de sinais. Bem, sempre haverão modos de culpar a negligência de alguns. A falta de cuidado, de atenção. Meu ponto é sempre: há como alguém evitar um outro alguém seguir por um caminho que ele já decidiu veementemente seguir? Há? Eu duvido. Talvez haja o milagre de você dar motivos para ele seguir o caminho oposto, mas geralmente ele já considerou tudo o que você já vai colocar como argumento. E boa sorte com isso a nós.

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

hoje foi um dos dias

eu consegui me enxergar morrendo de uma forma patética e banal, com plateia, de um jeito inesperado

bem, talvez inesperado pro meu eu de hoje que acordou querendo ir para a urgência por causa de problemas aparentemente gastrointestinais e terminou tendo uma crise de ansiedade na sala de medicação da emergência

hoje eu entendi os pacientes que querem se evadir do hospital e simplesmente puxam o acesso venoso do braço, sem se importar com o depois. estando ruim o aqui e agora, é tudo o que importa. o depois é fruto de uma esperança fictícia.

eu senti que o ar me abandonou. e não só ele. uma equipe inteira. pessoas inteiras ali cada uma em sua enfermidade ou seu ofício. tirei a máscara. tirei os sapatos. reclinei a poltrona e deitei. então, em posição fetal, e com líquidos entrando na veia, lembrei de um exercício de respiração. respirei fundo. senti um pouco de sonolência, provavelmente em decorrência da medicação associada ao soro. consegui respirar de novo.

mal conseguia segurar o celular para escrever, enviei alguns áudios tentando resumir, acho que foi pior. no fim de tudo, exausta, após driblar crises invisíveis aos olhos alheios, me senti cheia de vergonha. eu não fui suficiente para mim hoje e isso me quebrou mais.

a sensação de abandono e de solidão persistiram comigo

terça-feira, 24 de setembro de 2024

Tentar escrever com sobriedade sobre sentimentos nem sempre funciona, eu sou uma emocionada não declarada, pouco assumida. Minto para mim às vezes como se pudesse me convencer a ser menos dada, menos emocional, menos apaixonada por um e outro detalhe que não fazem sentido para muita gente. Mas não posso me privar de refletir e registrar, esse processo pseudo terapêutico, sobre como venho me sentido bem, amada, apreciada e, principalmente... Provocada.

Não o tipo de provocação maldosa

O tipo que me faz sair da zona de conforto e lidar com meus próprios demônios com clareza. E então perceber que não havia conforto naquela zona, eu estava vivendo num limbo de desejos e sensações, sem saber o quão eu poderia sentir e ser.

Percebi que a minha existência não precisa ser sobre o que me falta, somente. Eu posso ser mais do que pensei, eu posso sentir mais do que achava merecer. E tudo conversa diretamente com esses diálogos internos e antigos, sobre dignidade e pertencimento. Eu sou só um ser humano. E é bom conseguir se enxergar assim às vezes. Eu sou, eu existo, eu sinto, e preciso respeitar todos esses verbos dentro de mim.

quarta-feira, 3 de julho de 2024

Se perceber vivendo por coisas que te dão vontade de morrer.

Hoje foi um dia caótico. Torci pelo fim o tempo todo.

E essa hora que não passa? Eu quero ir pra casa. 

A cada hora uma novidade desconfortável, um estresse dentro da curva, conforme esperado.

Se não é incomum, por que sigo frustrada e estressada? Por que não apenas se acostumar de forma madura à rotina fruto das minhas escolhas? 

Por que passar o dia inteiro esperando pelo passar das horas? Eu odiei perceber isso hoje. Como fiquei impaciente pelo fim... E quando ele enfim chegou, eu só... Me senti mal? Não. Me senti terrível! 

Me vi o hamster correndo dentro da rodinha dentro da gaiola. Meu Deus, como posso ter desejado o dia todo que 12 horas do meu tempo passassem que eu nem percebesse? 12h da minha vida. Que não voltarão mais.

Concordo que pensamos sempre o mesmo de momentos tristes... Vontade de fugir e acabar.

Mas devia ser normal pensar isso sempre nas 12h de trabalho? Torcer para acabar, torcer como se você não estivesse ali e quisesse apenas fugir. Mas você está ali. É parte de sua vida, parte de quem você é. Não posso encarar como se fosse uma pausa em minha existência, pois o meu ser está sim condicionado a gastar tempo fazendo religiosamente essas coisas que me tiram do sério e fazem querer desligar do mundo carnal.

Não, a sério... Que vida merda é essa em que poucos são os momentos de felicidade? Melhor dizendo, em que poucos são os momentos em que me sinto viva? Em que me quero viva, e não constantemente em fuga? Sentir coisas ruins faz parte da vida, eu sei como ninguém. O problema é a balança. O problema são os pesos desbalanceados. 

Trabalhar não devia tirar sua vontade de viver... Deveria?

Estou sendo inocente. Todo trabalho é apenas uma forma de não passarmos fome e sermos capazes de nos sustentar dentro de um sistema injusto no qual muitos vão continuar apenas tentando, mas vão morrer sem ter experimentado uma vida confortável e feliz. 

Eu não posso culpar exclusivamente meu ofício e suas agruras por tudo que sinto. Eu sei que não. Eu só queria entender por quê de repente esse click dentro de mim ao perceber como estou me arrastando pra morte nessa marcha lenta mas às vezes tão ligeira. Me sinto tão próxima de morrer como se não fosse possível retroceder do ponto em que cheguei. Como se fosse possível até saber que esse ponto chegou.

Eu tenho odiado tanto escrever sobre as mesmas coisas. Como se eu estivesse empacada no mesmo ponto há tempos. 

Mas, espera. Eu percebi uma coisa. 

Percebi os tons fatalistas de uma canção favorita que eu só considerava melancólica.

Ah, merda, a mulher parece agora que vai se matar se alguém não lhe der um bom motivo para viver. O poço dela secou, ela diz. Não há mais alegrias ou motivações, ela não sente mais nada, e essa é sua última música. A menos que alguém possa fazê-la mudar de ideia.

Nunca mais vou ouvir e cantar do mesmo jeito.



segunda-feira, 24 de junho de 2024

Escrever para tentar me entender

E então me perder, de novo.

Eu costumava me encontrar nas palavras. Achar terapêutico o ato de colocar em frases aquilo que me agonia e espreme por dentro, até vazar (geralmente pelos olhos).

Hoje escrevo esperando um milagre. 

Como se houvesse uma entidade destinada a possuir meus dedos... Com o poder de fazê-los esvaziar sentimentos diretamente no papel. Se as palavras são uma espécie de portal, eu encontraria a luz bem aqui, em meu quarto, perto da escrivaninha e do celular prestes a tocar. 

Talvez assim, diante da promessa de alívio, eu conseguisse me entregar a essa função novamente. Eu vomitaria sem medo de queimar a garganta, sabendo que todo desconforto é mínimo diante daquilo que me machuca aqui dentro e sigo precisando soltar.

Eu queria muito escrever, mas criei um medo de sentir de novo, pelas palavras. Continuo querendo escrever, apesar de ontem à noite ter ido do céu ao inferno em questão de minutos, por ter me deixado retornar a lugares ruins comuns. 

Talvez escrever fosse melhor do que ler de novo aquelas conversas, daquele dia em que estive tão sozinha em minha dor. Mas para escrever eu precisaria relembrar de como foi estar quase oca por dentro, sustentada apenas por uma agonia excruciante de nome desconhecido.

Não sou boa em lamber minhas feridas. Eu só sei puxar a casca e fazer sangrar de novo, até pingar no chão. E antes que alguém olhe, já cobri com o tapete. Já conversei de forma costumeira, dei boa noite, até amanhã, depois nos falamos, me afastei com sucesso. Eu não quero que mais ninguém tenha acesso a esse lado meu. Porque, vejamos, mais uma pauta de crise, o externo ainda continua tendo um poder absurdo sobre o interno. Sobre meus sentimentos, sobre minha conduta, sobre mim inteira. Os alicerces de minha felicidade tem sido frágeis demais, e eu consigo achar irregularidades em todos os caminhos estabelecidos.

Quase não vale a pena continuar aqui, insistindo nisso. Não sou boa assim com essa coisa de escrever, muito menos de viver. O que estou fazendo? Me pergunto quase que todo dia, tentando entender por quê eu nunca cumpro bem meus papeis. Por quê eu não me acho merecedora de nada que seja milimetricamente melhor. Eu sou muito boa em executar mal as coisas. E muito boa em me sentir ruim. 

quinta-feira, 13 de junho de 2024

 Lá fora chove de novo. Perdi as contas de quantas chuvas pausadas e extensas tivemos esses dias. Não pega ninguém de surpresa, a considerar o mês e a época do ano. Recentemente houveram tragédias ambientais em outro estado, as quais nos lembram que não estão longe de nos alcançar, bem aqui. Os sinais são inegáveis, esse planeta não tem mais estrutura - em verdade, nunca a teve - para sustentar o atual sistema econômico. Por que estou falando sobre isso agora? Eu só queria falar sobre a melancolia que me acomete nesses dias chuvosos em que preciso ficar confinada em casa. Uma raridade, ultimamente, já que há sempre o que fazer/resolver nas ruas. 

Eu estou doente. Isso por si só deveria justificar meu azedume. Uma das coisas que detesto em ficar enferma é que, não importa em qual nível, me sinto vulnerável. Todas as faltas e dores emocionais parecem querer me visitar ao mesmo tempo, apesar de eu não lembrar de ter feito esse convite! Tampouco fechei a porta. Meu mal é esse, não saber como trancar ferrolhos e jogar a chave fora. Tento me encher de coisas que possam me agraciar um futuro próximo, por exemplo, adiantar meus estudos tão morosos. Focar em algo que possa ser útil, ao invés de piorar a dor de cabeça e as dores que não posso curar. Apenas tento. E falho, como em boa parte de minhas tentativas.

As pessoas gostam de dizer que minha cidade é "bipolar". Hora faz sol, hora chove. Até mesmo em épocas "previsíveis", a chuva parece querer se mostrar, nem que seja por uns minutos, e do mesmo jeito fugaz que chega, se vai. Se Recife fosse uma pessoa, eu e ela teríamos muito o que conversar sobre explosões em água que parecem ser inesperadas (mas no fundo há razões ignoradas em detrimento de piadas ou poesia, depende do dia, no meu caso). Infelizmente a dela passa a ser um transtorno geral, a todos que nela moram e transitam. Felizmente minhas lágrimas não podem inundar ruas ou gerar deslizamentos. Todo inconveniente e toda tragédia ficam limitados a meu universo particular.

domingo, 7 de abril de 2024

Me escondo entre palavras bem no meio da agonia. Onde mais posso encontrar refúgio em meio ao caos de toques, demandas, exigências, pedidos impossíveis e uma flexibilidade forçada? Começo um texto, amasso um papel, digito, teclo, apago, tec, tec, tec, tec... Alt + F4, termino de escrever o que simplesmente deveria e sigo meus deveres até aquela hora esperada.

Os toc-toc's frequentes em minha porta tiram a concentração do desabafo. De novo. Engulo em seco mais um choro, continuo a ignorar a sensação estranha na boca do estômago que trouxe de casa comigo e não tenho ideia de quando irá embora. Tap, tap, tap... os pés apressados vindo em direção a minha sala não sabem que não sou eu quem eles querem, ao menos em 90% dos casos. Às vezes apenas passantes indecisos, mas que em sua maioria decidem vir tentar. Os trim trim's do telefone me tiram do sério até quando são esperados, o coração sobre à boca pela surpresa inesperada do toque, se juntando ao coro das borboletas gástricas.

Em meio à agonia, me resta seguir com o plano de cumprir o combinado. Comigo. Com a instituição. Com os usuários. Às 19h o toque desejado é o do dedo na máquina com o poder de me liberar.

Contudo... Já com mais do metade do horário cumprido, um questionamento me perturba, me fazendo agravar a expressão sisuda no rosto. Eu senti falta disso? Dessa sinfonia caótica e costumeira ao plantão num domingo solitário e agitado, cujos sintomas físicos do estresse perdurarão por alguns dias sob minha pele?

Seria eu uma amante das situações difíceis? Seria eu uma viciada em tensão? O que é essa satisfação ansiada após um dia caótico, essa sensação quase de orgulho por conseguir me ver/ser útil ao fim de tudo que consegui resolver? 

Começo a achar que os bichinhos da ideologia capitalista se incrustaram tão perversamente sob a minha pele que não consigo mais me ver descansando sem culpa. Tirando férias sem culpa. Adoecendo sem culpa de colocar atestado. Estou sempre tensa e ansiosa, porém meu corpo e mente absorveram a ideia de que a produtividade é um ótimo escudo para a defectividade. Ela que me faz ir do céu ao inferno em segundos, o nó na boca do estômago não me deixa mentir. Talvez eu prefira adoecer de trabalhar, morrer reclamando num emprego e numa função medíocres do que colocar minha energia em outros aspectos de minha vida. 

Se assim for... Plantões extras, por favor. Deve ser saudade das crises de ansiedade cujas causas possuem nome.

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

à espera do fim

como foi que a minha vida se tornou essa coisa claustrofóbica eu não sei dizer

às vezes acordo sem ar. e faz muito calor. 

a temperatura tem aumentado catastroficamente. a da cidade, do país, do planeta. acordo envolvida pelo vento morno de um ventilador em estado terminal.

estou cercada de fotos.

outrora um mural de lembranças sobre dias felizes, me lembrando de sonhar e sorrir, me lembrando que posso ansiar por mais

hoje um memorial fúnebre

por mais que anseie, não há caminho feliz a percorrer que me leve até o desejado, no final

todas as promessas que fiz ao sorriso convertido em lágrimas, nenhuma delas, consegui cumprir.

no fundo sempre soube que não estava ao meu alcance mas quis fingir um pouco de controle para ter a calma que só uma situação de falsa segurança trás. o meu falso sorriso mascarou nossa tristeza para ela dormir em paz

foi tudo passageiro, como previ. o sorriso trêmulo que dei, as palavras vazias de promessas impossíveis, as lágrimas que silenciaram, agora para sempre

a única eternidade que resta é a da sua ausência, da saudade, da partida precoce aos meus olhos, dos arrependimentos mil

a eternidade dessas lágrimas que nunca vão embora realmente, sendo às vezes minhas únicas companheiras no calor de meu quarto

já dentro do peito há uma aridez, um vazio, algo que foi queimado violentamente e nunca mais se recuperou. ainda não soube como habitar esse oco, pois não sou boa em ressignificar ou fazer nascer, mal sou boa em manter.

no ápice da crise, grito em meio a um eco, tentando ouvir algo de volta, um sinal de qualquer coisa que me convença de que há algo substancial por vir

mas tudo que tenho no momento é uma voz trêmula e as centelhas da tragédia ainda em meu rosto

dia após dia sangro mais um pouco, às vezes muito, às vezes estanca, às vezes o sangue corre livremente só para lembrar da vivacidade que restou. às vezes a lágrima também estanca e é nesse momento que me viro e me reviro, desisto de combater a agonia e abraço a crise.

ansiedade? não. saudade.

quando ela se foi, levou consigo parte de minhas motivações, e não pude fazer nada para substituir a tempo. ela, que só via as partes espinhosas e as vezes florescidas dos galhos, jamais iria entender o quão profundas eram essas raízes agora mortas

ela se foi e eu fiquei, mas fiquei sem direção e sem pilares fortes o bastante para querer ficar e reconstruir

sobrou a letargia, as faíscas de raiva, o conformismo, e a espera do fim

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

02/11/2023

Não quero ser obrigada a pensar em você só porque hoje é dia de finados. Se estivéssemos no universo de "Viva, a vida é uma festa", com certeza eu acenderia velas, faria um altar, tudo certinho como deveria ser. Isso tudo pra dizer que não preciso de um feriado, de um dia dos mortos, pra que você esteja em meus pensamentos.

Durante tanto tempo te imaginei como uma coisa certa, mãe, sem me atentar que todos somos passageiros, sem ideia de quando é o nosso voo de volta. E como eu costumava pensar que você sempre estaria aqui... Pelo menos até bons anos. Eu só queria mesmo era que tudo voltasse a ser como era antes, mesmo nos nossos anos mais difíceis, nada era tão ruim como a sua ausência. Você faz falta demais. 

Não consigo aceitar o fato de que foi melhor assim, de que a solução para toda a dor foi o descanso eterno. Nem sei se tomo isso como verdade, é mais como aquelas coisas que repetimos até nos convencermos, para tentar lidar com a dor. Para não perder a cabeça frente ao "nunca mais". Para tentar seguir em frente "apesar de", tentando negociar razão e emoção, em vez de simplesmente desistir e se entregar à melancolia e à depressão. 

Eu continuo achando que você merecia ainda viver e ver tantas coisas, mesmo com todas as rusgas em nossa relação e a convivência manchada pelas discussões às vezes desnecessárias, a gente sonhava juntas. Lembra? "Um dia a gente vai conhecer esse lugar..." "Eu, tu e Duda, a gente podia fazer sabe o que, um dia?" Você contava seus planos pro futuro, e era tão cheia de vida, apesar dos tantos problemas... Como conseguia? Até hoje não me conformo que tudo se apagou assim, foi pouco a pouco mas pareceu que foi de um segundo pra outro. 

Sempre me lembro do seu jeito vivo, engraçado, enérgico... A palavra "vida" lhe caía tão bem! Deve ser por isso também que me recuso a te associar à morte, a finados, a luto... Embora seja tudo que eu tenha hoje. Sua ausência. E como dói olhar pras memórias felizes e saber que elas foram as últimas. 

Eu não tenho medo de esquecer teu cheiro, tua risada, teu jeito, porque até do teu choro eu me lembro. Eu estava lá. Eu estava lutando contigo e sonhando com o dia que tudo iria passar. Querendo de volta somente a normalidade de dias caóticos, porém saudáveis.

Quando paro e penso em nós... Vejo que você foi meu relacionamento mais antigo, a primeira referência de como me relacionar com o mundo e as pessoas ao redor. Nunca foi fácil, mas sempre foi muito única essa nossa relação. Sinto que teus últimos anos foram muito intensos, e sinto que nós duas estávamos já em outro patamar, um até então desconhecido, mas bom. Muito do que alimentávamos em relação ao passado mudou o sentido e, juntas, passamos a almejar e sonhar coisas leves e bonitas pro futuro. Que pena que não deu tempo. Que pena que você se foi dessa forma.

Espero que um dia eu ainda possa te encontrar, nem que seja por alguns minutos, segundos, qualquer tempinho que seja, em qualquer plano espiritual, somente pra uma última vez, sabe? Somente pra te ver e saber que está tudo bem, sabe?

Não, você não sabe. Você não está aqui. Este é mais um monólogo sem uma conclusão satisfatória. A satisfação nesse caso viria de coisas impossíveis. 

sábado, 16 de setembro de 2023

O quão difícil é não pautar a sua vida a partir de um grande acontecimento ruim?

Eu antes de julho do ano passado era quem? Sonhava com o que? A pandemia me tirou um pouco de identidade de sonhos e objetivos também, e aí... E veio o câncer dela, certo? Aí então fui a filha de uma mulher lutando contra o câncer e contra a lógica maniqueísta de um convênio de saúde.

Antes disso, quem era eu? A assistente social tentando migrar de área, cujo curso de licenciatura foi trancado pelos problemas mencionados, não é a mesma profissional de hoje. 

Eu era feliz? Uma pessoa em busca, mais uma vez, de felicidade a dois, se arriscando em mais um contexto incerto e suas ramificações, e, mais uma vez, aprendendo que quase nada sei e que muito me falta saber sobre limites e afeto.

Quem era eu? quem sou eu hoje?

Sou uma profissional de saúde sobrevivente do período de pandemia. Não morri. O covid também não pegou os meus. Outras coisas, sim, mas o covid não. Importante ressaltar o tipo de governo genocida, estúpido e fascista à frente do país nessa época. Sobreviver foi o que nos restou. Foi o que me restou.

Agora me sinto como uma sobrevivente do luto. Isso realmente é algo? 

Sigo tentando sobreviver à perda da minha mãe. Ela sobreviveu à pandemia, ao covid, mas não sobreviveu ao câncer. E eu sigo me arrastando tentando viver apesar disso. Tentando não ruir a cada vez que a sua ausência se faz palpável, mesmo nas mínimas e até ontem insignificantes coisas. Tentando seguir em frente e achar motivos.

É estranho saber que não é todo mundo que pensa em desistir. Embora me digam que estranho mesmo seria pensar em ir, não importa a frequência, somente o pensamento da partida já seria um sinal vermelho. Achei que fosse um amarelo, se você diminui a frequência de "todo dia" para "três vezes na semana", e então passa a ser "uma vez na semana" quando as coisas começam a melhorar. Mas, ei, tudo é sobre subidas e descidas, é uma montanha russa imprevisível, por que os pensamentos não seriam também? 

Achava que o amarelo desse mês de setembro fosse referente àquele ponto em que exige nossa atenção antes do vermelho ou do verde. O sinal vermelho é a sentença final. O sinal verde significa que você conseguiu seguir "apesar de". Não é assim que funciona a pigmentação desse mês. Mas bem que poderia.

Quais meus sonhos hoje em dia? Por que eu me autossaboto diariamente? Por que eu estou presa em viver em decorrência de acontecimentos ruins? Sinto mente e corpo adoecidos como numa sentença funesta e quase que irreversível, embora a racionalidade sinalize que não é bem assim. Que eu posso ser ao menos um pouco diferente e começar a fazer algo que não seja escrever, desabafar, chorar e me sentir mal por tê-lo feito, e por não tê-lo também. Que eu posso respirar fundo sem o medo à espreita. Sem inseguranças. Somente... respirar. Sem contração no estômago ou fraqueza e formigamento nos membros. Meu corpo pede por cuidados. Minha mente implora por descanso e distração. Meu coração bombeia querendo sentir boas vibrações, sei que no fundo quer sair da apatia às coisas boas. E eu, faço o quê?

Agora, nesse exato momento, instante, segundo, eu penso que gostaria muito de alguém me dizendo o que fazer. Quem ser. Como seguir. O que me faz feliz. Como ser.

As ideações são cada vez mais frequentes em minha rotina, dentro de minha mente claustrofóbica. Carrego dentro de mim esse ambiente escuro, cujas frestas me permitem ver a luz com uma certa frequência, ou receber visitas breves, mas no fim do dia é para ele que eu me recolho. E algo me diz que é assim que vai ser por um bom tempo.


domingo, 6 de agosto de 2023

Ressignificar continua sendo difícil

É mesmo possível lembrar de cada pedaço dela e realocar para uma lembrança dolorida, mas feliz e afetiva? Sentir um calorzinho no coração maior que a agonia da perda e do "nunca mais"?

A voz. O cheiro. As piadas. A risada. O choro. O toque. A pele. O abraço. Os olhos. 

Que saudades da minha mãe. Nunca foi perfeita, estava longe de alcançar o cruel padrão imposto e idealizado, mas era tão única. No bom e no ruim, que mulher inesquecível. Comprovo diariamente em meu dia a dia, não há um sequer no qual ela não esteja em meus pensamentos.  

Queria que ela estivesse aqui. Mas bem. Qualidades, defeitos, falhas, tudo misturado e pulsando naquele coração enorme dela, que mais parecia uma bomba relógio às vezes. Saudades até dos seus exageros sem fim, no ser, no falar, no estar, no pensar.

Daqui a onze dias seria seu aniversário. A morte te roubou isso também. Tento pensar que ela na verdade levou toda dor e sofrimento embora, mas é impossível aceitar essa ruptura como solução. 

Penso em você todos os dias. Queria que você pudesse ver como o nosso sol está incrível em seus três anos e meio. Você ficaria abismada com a esperteza, com o carinho, com a aparência... Você merecia estar por perto e ser bajulada como a melhor avó do mundo. Como consequência de fazer dele o neto mais amado do mundo. Ele também perdeu. Todos nós perdemos.

Que tristeza o mundo não poder mais testemunhar esse amor e essa presença. Gostaria de crer em outros mundos, realidades, universos, somente para ter a esperança de um reencontro. Sei que minha paz não pode depender disso, tampouco minha fé, mas no momento você ainda é a ausência mais frequente de minha vida, e tenho o pressentimento que isso se perpetuará até o fim dela.

Sinto sua falta nas mínimas coisas.

terça-feira, 30 de maio de 2023

A minha vez

Um fato talvez irônico sobre mim: tenho dificuldades de concluir coisas (curso de inglês, graduação de letras, cursinho pra concurso, academia, dieta, etc, geralmente tudo que começo porque preciso ou quero muito no momento), contudo, em se tratando de relacionamentos, tenho dificuldades em deixar ir. Geralmente eu vou até o ponto de desgaste, aquele no qual eu me encontro em frangalhos, já sem forças até pra manter a civilidade. Porém, venho tentando aprender a enxergar quando o "não" parece ser mais saudável que o "sim". E, para ser justa, o ponto final de minhas últimas relações partiu de mim.

Olhando em retrospecto, percebo que em todas tinha algo em comum: a dificuldade em ser enxergada. Digo isso do ponto de vista de quem se viu tentando mudar quem era, se ajustar ao outro em vários aspectos, para no fim ouvir e perceber que o esforço foi inútil. No fundo, a aceitação total é um mito, e sempre um lado mais fraco do arranjo vai ser aquele que se ajusta, que absorve, que se anula em função de manter o equilíbrio da relação. Isso vai acontecendo de forma tão sutil, em coisas tão pequenas, até ter o poder de se tornar apocalíptico. 

Quantas queixas silenciadas... Pela "falta de sentido". O sentido que na hora deveria ter sido o tato alheio. Não teve, apenas uma pseudoaceitação. As particularidades se colidindo, sem conversa, sem encaixe. E como machuca fazer de tudo para mudar pontos até então cruciais, e ainda assim não conseguir diminuir as queixas recorrentes sobre algo que você não concorda, mas, ainda assim, está tentando. Não é tudo sobre tentar? Costumava ser. Até chegar a um ponto em que você não consegue mais ignorar os sinais de alerta apontado o início do fim. Se as peças não se encaixam, eu deveria parar de forçar, de cortar e remendar numa gambiarra.

Ando lembrando muito um comportamento patológico da minha infância, que diz respeito a ter guardado sempre todos os conflitos aqui dentro por não encontrar em meus cuidadores o apoio e a compreensão necessária. Ou estava sempre errada, ou não sabia o que estava dizendo. Eu precisava ter mais idade, mais maturidade, mais eloquência para convencê-los de que havia razão para estar machucada, eles não conseguiam ver as feridas recém abertas. Adentrei à adolescência sendo a falsa imagem da pessoa com o mínimo de problemas e conflitos, sendo que me acostumei a resolvê-los chorando sozinha e escrevendo cartas e textos para ninguém. Tudo em mim gritava e grita que preciso ser vista, amada, respeitada, cuidada... Eu não tinha nem dez por cento de minhas convicções de hoje. Tudo que eu tinha era a ciência de que eu deveria tentar conseguir a aprovação do externo para ser internamente validada. Até hoje luto contra isso.

Percebo o porquê de gostar muito de começos. Principalmente se tratando de relações. As coisas são sempre tão novas, o frio na barriga, as borboletas no estômago, as expectativas, as primeiras descobertas juntos, o construir do coletivo, a disponibilidade para mudar... O encantamento que você é capaz de causar no outro, nas mínimas coisas. E geralmente fico tão abobada que acabo esquecendo de observar sinais importantes. Via de regra, eles já estão lá. São coisas que no momento parecem pequenas, diante da grande emoção que é estar começando uma relação a dois (sim, sou emocionada), mas após os primeiros desentendimentos, as primeiras brigas, se você voltar ao início vai perceber que os sinais já estavam lá. As bandeiras vermelhas são tingidas de branco pela paixão, pela atração, pela emoção.

Por onde andava a parte encantada? Desencantou-se com a rotina. A parte apaixonada? Precisava de um quarto escuro e uma hora propícia para se revelar. Onde estavam as palavras e os toques outrora costumeiros, foram substituídos por repúdio ou mornidão? Quis voltar a ser como no começo, mas já era de conhecimento geral toda a minha atmosfera, os cheiros, toques, timbres, e nada que eu fizesse poderia trazer novamente o encanto da novidade, de como eram bons aqueles dias. Talvez eu não sirva para o costume, para o ordinário. Talvez eu seja extraordinária no começo e, como todas as novidades, perca a graça quando menos se espera.

Por que eu sempre me envolvo com pessoas de difícil acesso emocional, cuja aprovação passa a ser meu maior objetivo? Por que eu insisto mais do que deveria em busca dessa aprovação? Porque é tudo um reflexo do que sou. De minha falta de senso de proteção. De minha falta de respeito a mim mesma. Isso e outras coisas que ainda serão elaboradas com ajuda profissional, tenho ciência de.

Os momentos felizes simplesmente acabam não sendo o suficiente para sustentar uma relação na qual estou sempre buscando agradar e ser validada - um erro crasso, pois não deveria depender de ninguém para ter isso. Talvez meus problemas de autoestima me façam persistir na mesma medida em que me frustro ao perceber que aquilo que preciso nunca vai vir do outro. As queixas se repetem, voltamos sempre aos mesmos pontos de choque, de conflito. O ponto de partida e o ponto final sempre acabam aqui dentro. Meu universo particular de colisão.

E no fim das contas, seria uma repetição de cena? Seria eu a autora que usa a mesma fórmula em todas as obras, caminhando inevitavelmente para o mesmo final? 

Eu estou cansada. Exausta, na verdade. Chego a um ponto em que até escrever me cansa. Sim, esse gesto que parece simplório mas que funcionava como um cano de escape. Tenho tentado as sessões de terapia semanais, exercícios de respiração, escapismo pesado com a ficção, mas, não adianta, o sufoco sempre aparece. Só me sinto carregando tanto no momento, e olhe que já tirei algumas coisas da mochila. Eu queria me livrar mesmo era dessa sensação de que preciso me justificar. De que eu devo palavras, conversas, raciocínios, já me bastam os diálogos internos. E as tentativas fracassadas de diálogos externos.

Estou exausta de ter que desfazer as armadilhas mentais e emocionais, apontando que eu nunca, jamais terei ou serei aquilo que quero. De que eu não mereço mais, nunca conseguirei alcançar a paz que almejo, sozinha ou acompanhada, eu queria esganar essa voz. Eu queria esganar o amor. Eu queria matar com minhas próprias mãos todas as lembranças das vezes que me senti insuficiente somente porque não tive suporte ou aprovação. Eu queria poder assassinar as vontades que me cerceiam, pois estão cada vez mais distantes das condições materiais para realizá-las.

Tenho achado falar de amor algo patético, mas meio vicioso. Talvez pela banalização não se torne nada demais. A convicção de que só amor não basta sempre me parece crua e cruel. Mas essa é a realidade, longe e oposta aos ideais românticos e perigosos. Só amor não basta, é preciso que as linguagens de amor se conversem entre si. Só amor não basta, é preciso respeito e admiração ao jeito de outrem. Só amor não basta, o que sustenta é a forma de se relacionar. Se o outro te oferece amor, mas você permanece com o sentimento da solidão e da carência, ou você é uma criatura desprezivelmente inalcançável, ou talvez o que o outro chame de amor, não o seja, de fato. Talvez o trem do amor partiu da estação há um tempo e vocês entraram em um outro, cujo nome ainda não sabem, meio semelhante, mas insuficiente para continuar. Se vida é essa coisa cheia de estradas, entradas, saídas, curvas, labirintos, te guiando a respostas contraditórias, irônicas, agridoces, então o amor não pode realmente ser muito melhor que isso. 



segunda-feira, 24 de abril de 2023

Eu pulei do trem

A vontade de pular apareceu quando ele ainda estava em movimento, mas só tive coragem de fazê-lo depois de uma colisão. Mais uma colisão. Os danos? Foram poucos. Na realidade, a forma como fui jogada apenas magoou algumas feridas não tão recentes. Aquelas que não conseguiram cicatrizar, pois sempre havia uma batida, um acidente, algo no meio do caminho para reabrir. Desci meio confusa no meio dos trilhos, ainda cambaleando, pensando sobre a direção para a qual seguir. Apenas uma certeza em mente: esse trem eu não pego mais.

Andei sozinha por um tempo, me desfazendo daqueles nós e daquelas amarras que costumava usar para amaciar as quedas e os solavancos do trem. Pensando em como eu me esforcei pra ser vista, em vez de esmagada, e no quão eu mesma passei por cima de mim para tentar me adequar àqueles trechos difíceis. O que eu estava pensando? Onde eu iria parar? Definitivamente esse ritmo não é para mim. Meu mecanismo interno está cada vez mais perto de falhar, de parar, de estancar no meio do caminho. Pulei antes que fosse tarde demais. Pulei antes que alguém me empurrasse desse vagão (como aconteceu pouco tempo atrás e eu ainda me lembro).

Se alguém percebeu a minha falta no vagão, não demonstrou. Achei feliz que ninguém veio atrás de mim, isso tornaria as decisões muito mais fáceis de aceitar. 

Por muito tempo achei que eu fosse uma passageira do vagão. Mas comecei a perceber que, na realidade, eu sou uma mala. Sabe aquelas bagagens cheias de coisas dentro, muitas das quais você não pode se livrar, pesada, sem rodinhas, com necessidade de atenção e um peso desagradável? Eu estava sendo essa mala. Eu achei que estava lá para curtir a viagem, de igual para igual, mas, no fim das contas, eu deveria ter descido em outra estação. Eu tinha um prazo de validade, "você deve seguir com este bilhete até essa estação, daqui em diante, você não pode avançar" - um bilheteiro tentou me alertar, certa vez, mas eu ignorei, e somente... Fui. Afinal, eu gostava do balanço desse trem.

Agora preciso recalcular minha rota. Em certo ponto dessa viagem eu me perdi de mim. Eu repeti comportamentos que desencadearam um retorno desagradável ao passado, justamente quando eu tinha prometido a todos, e especialmente a mim, que não deixaria mais acontecer. Mas assim fui. Perdendo umas peças pelo caminho, enquanto ouvia que estava fazendo e entendendo tudo errado, o trem chacoalhava e eu ria achando que era uma espécie de aventura. Não era. Não havia aventura para mim. Havia um itinerário pré-estabelecido o qual pude seguir até certo ponto, e então depois eu quis forçar a continuar acompanhando, até quase ser tarde demais. Passada toda a adrenalina, esfriando a carne, o sangue, o suor, então consigo perceber que inevitavelmente me machuquei. Ao menos imagino que não tenha sido privilégio meu.

Mas, vamos lá. Avancemos. A minha mochila continua cheia. Tenho muito o que carregar e despejar por aí. As coisas que aprendi estando à bordo deste trem ficarão pra sempre dentro dessa bagagem. E serão úteis algum dia, tenho certeza que sim. Por enquanto, quero caminhar. Redescobrir. Correr. Respirar. No momento o sentimento de que eu devo evitar viagens de trem parece ser eterno, ainda que eu não descarte a possibilidade de me ver no futuro buscando passagens para outros itinerários, em outras estações.