segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Meu alter ego escritor me diz que ninguém se interessaria por minhas estórias.
Falta... substância. Coerência. Verossimilhança. Tenho quase certeza de que ele não usou todas essas palavras de vez, mas eu acredito que era isso mesmo que quis dizer. Faltam muitas coisas, na verdade.
Infelizmente volto àquela adolescente que sabia muito bem como escrever um texto dentro do padrão ortográfico e vivia lutando para não tocar somente o coração da professora de português quando ia corrigir uma redação "impecavelmente sem erros gramáticos". Antes fosse gramaticalmente pobre, porém repleto daquela magia que nos faz trocar até refeições por mais uns minutos lendo aquela bela estória.

Há pessoas que tem paixões por coisas impossíveis. E há pessoas que gostam somente da sensação de se sentirem apaixonadas, algo meio platônico, nunca fazem nada sobre isso. Eu estou percebendo que a minha história com a escrita tem andando por esses rumos, o que me deixa dramaticamente infeliz e desesperançosa. Quem foi que disse que eu sou uma boa contadora de histórias? - meu alter ego sempre me cutuca.

Ninguém nunca disse. Os comentários de uma professora relativamente progressista ao fim das redações escolares não são tão importantes assim. Imagine só, se ela me visse agora! A pobreza criativa que se sobressai em minhas narrativas. Parece que parte de mim se perdeu pelo caminho. Ou se danificou. Será que ainda há jeito? Será que eu ainda posso, substancialmente, dar vida aos personagens e mundos que tanto me assombraram? Eu devia ter me forçado a escrevê-los. Sem registro anteriores, minhas lembranças são apenas fumaça, é impossível segurar no agora. Talvez eu tenha que começar tudo de novo, novos personagens, novos mundos, novas perspectivas... A inspiração, antes uma velha amiga, agora parece ser uma mera conhecida. Perdemos afinidade.

Eu costumava ter um lado feroz, sempre que alguma Grande Tristeza me acometia. E ele se expressava através da escrita. Era também através do papel e da caneta que vinham as autorreflexões que eu, a todo custo, buscava evitar, em toda a minha melancolia. O mais puro ato de preencher linhas, páginas, folhas, me fazia provocar uma catarse. Saudades desses velhos tempos. Hoje eu sou ranzinza e impiedosamente crítica a tudo aquilo que costumo produzir. Nada mais me satisfaz, nada mais faz gracejo aos olhos. São simplesmente... Palavras. Em sua maioria, desabafos. Por mais tristes ou verdadeiros que sejam, não há nada poderoso, sobra mediocridade. E quanto à escrita criativa? Não há sequer o que comentar. Acho que perdi os meus mundos fantasiosos em algum lugar aqui dentro... Há alguma coisa, ainda não identificada, que deve estar fazendo tudo que tem potencial de refém. Ou talvez não haja essa coisa, e eu esteja com expectativas irreais sobre algo que eu sempre quis ser, mas nunca fui: uma escritora crível.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

meu anseio por escrever vai e volta... tenho uma dúbia natureza em mim.
sei que sou feita de intensidades que não cabem em meu peito, me sinto hora cheia demais, hora vazia e carente de palavras e afetos
ao mesmo tempo que quero me desfazer de tudo o que possuo, às vezes sinto muita falta daquilo que eventualmente cai pelo meio do caminho
como pode uma pessoa se sentir tão oca e em seguida transbordar?
quando as coisas novas vem, demoro um tempo desnecessário para reconhecê-las
espiando por detrás da porta, querendo ver e tocar sem me mostrar...
é assim que vivem os covardes?
matando vontades e morrendo de frustração e medo?
eu quero tudo e não terei nada
eu sou sempre uma fraude e uma piada mal elaborada?
alguém sorriu ali no canto...
não foi você.
foi ela
aquela que me acompanha desde que eu tenho minhas primeiras lembranças terrenas.
você saberia me dar instruções sobre como devo me livrar dela? e de seu sorriso sem um pingo de humor?
e se...
e se ela for parte crucial de minha existência? 
não saberei o que fazer caso eu deseje voltar.
viu?
o arrependimento aparece antes mesmo da ação.
talvez eles tenham razão...
em algum ponto da minha vida, perdi a mão
deixei de fazer sentido
a minha existência tornou-se algo patético e de mau gosto...
um feixe de lucidez me diz que, caso isso fosse verdade, você me diria.
e eu? 
acreditaria?

domingo, 5 de janeiro de 2020

A melhor versão de mim

Por incrível que pareça, eu estou me sentindo leve em meio a uma situação que por muito tempo julguei improvável ( e com potencial catastrófico). Talvez eu esteja exagerando quanto a este segundo, mas isso é sempre justificável para uma mente ansiosa e pessimista. A questão é que tenho me comportado com cautela, desde o começo, venho caminhando a passos lentos e calmos, porém firmes. Às vezes sinto que meus pés querem vacilar e tremer, às vezes me pego querendo fazer coisas um pouco arriscadas. Quando passo por um meio-fio por exemplo, quero subir na ponta e testar o equilíbrio enquanto caminho até o fim da calçada. Mas a prudência me chama, então, conhecendo minha falta de inteligência corporal, eu desço e caminho tranquilamente pelo chão plano. Nada de correr riscos desnecessários durante o caminho. O "essencial" já me custa a energia e concentração necessárias.

Estar com ele tem sido... Bom. Não direi que é sempre fácil. Mas é sempre certo. Digamos que, na maior parte do tempo, o coração sorri. Eu sei. Se parece tanto com as outras vezes... mas em cada uma delas eu aprendi algo. E agora é diferente, por razões que pertencem somente a mim. Confesso que o meu coração surrado não me permite fazer expectativas muito altas, o que é bom pois, geralmente isso traz um peso desnecessário às ações e sentimentos. Passear pelo passado é inevitável, são situações semelhantes devido à natureza da relação, mas agora o presente me parece irresistivelmente bom. Suficiente. Não tenho perdido mais tanto tempo e energia em lembranças de tempos que se foram. Revisito as lições aprendidas, tento aplicá-las à atualidade, e isso é tudo. Não há olhares contemplativos para um passado que se foi e não volta, não há o desejo de retornar a sensações antigas. Ele tem sido suficientemente bom pra mim.

Escrever sobre ele ainda é difícil, me pego sendo repetitiva demais, até para os meus padrões. Também não quero soar exagerada, intensa, desesperada, embora neste exato momento meu coração dê alguns saltos protestando tal comedimento. De modo geral, não tenho conseguido escrever como antes. Porém não posso dizer que há bloqueios. Há agitação. Há borboletas. Há correntes elétricas. Há ansiedades. Há medo. Há felicidade. Há planos. Por um momento eu havia me esquecido de como era viver com tantos sentimentos contraditórios dentro de si, os tons escuros e coloridos coabitando esses espaços aqui dentro e me mostrando que eu tenho mais poder de ótica do que eu pensava. Ainda há velhos vícios, é verdade. Os defeitos e qualidades latentes ainda existem. A mania pessimista de querer compará-los também. Às vezes consigo me enxergar com mais gentileza que das outras vezes, é um desafio constante e diário. Eu estou longe de ser como almejo, mas consigo ver que sou muito melhor do que já fui. E que não fui tão ruim quanto acreditava ser. Culpo a melancolia e todo o poder que a ela tenho dado.

Ele não imagina, mas a sua presença constante, o seu jeito, me ajudam a dosar as sensações melancólicas. Ele me dá consistência para me ocupar com o mundo real. Quantos já não tentaram me arrastar para esse caminho de forma prematura e, por vezes, violenta? Hoje me vejo num lugar em que durante muito tempo quis estar, porém não sabia como chegar. Mas de uma coisa eu sabia: certos processos não podem ser forçados. Certas relações funcionam como catalisadoras, mas é o tipo da coisa que acontece naturalmente, sem planejamento ou controle por parte de ninguém. Hoje me pego sendo alguém que, outrora, seria amado e admirado por aqueles que tanto expuseram dificuldades para lidar comigo. Com minha forma de ser e gostar. Aqueles que quiseram me fazer ser como eram, e que, hoje percebo, eram incapazes de entender meus processos. Consequentemente, de me amar. Há menos culpa do que eu pensava. Essa compreensão me recai somente hoje, trazendo um tipo de libertação inesperada.

Inesperado. É assim que posso definir todo o tempo que tenho passado com ele. Não que eu não acreditasse em sua capacidade de me fazer feliz, é só que, tenho me surpreendido positivamente com as versões de nós mesmos que tenho encontrado. A gente tem se conhecido em vários níveis, tem  se experimentado, tem se testado, nem sempre pacificamente. Todo período de ajustes traz estranhamento mas, curiosamente, o nosso encaixe imperfeito tem sido prazeroso de ajustar. Hoje, ele tem a melhor versão de mim. E eu o disse. É como se até aqui eu tivesse sido uma versão modificada de mim mesma, pronta para agradar quem quer que estivesse ao meu lado. A versão cinematográfica cheia de cortes do diretor para agradar a um público específico e conseguir um bom desempenho nas salas de cinema. Hoje ele tem minha versão sem cortes. Se será o suficiente, só o tempo dirá. É perceptível que ele tem se dedicado a assistir essa versão com cuidado e carinho. Talvez ele até a ame e queira adicioná-la a seus favoritos. Talvez já o tenha feito e não me dei conta. Não sei se ele sabe, mas é o meu espectador favorito de todos. Aquele que faço sempre questão de ter por perto em cada cena.