sábado, 16 de setembro de 2023

O quão difícil é não pautar a sua vida a partir de um grande acontecimento ruim?

Eu antes de julho do ano passado era quem? Sonhava com o que? A pandemia me tirou um pouco de identidade de sonhos e objetivos também, e aí... E veio o câncer dela, certo? Aí então fui a filha de uma mulher lutando contra o câncer e contra a lógica maniqueísta de um convênio de saúde.

Antes disso, quem era eu? A assistente social tentando migrar de área, cujo curso de licenciatura foi trancado pelos problemas mencionados, não é a mesma profissional de hoje. 

Eu era feliz? Uma pessoa em busca, mais uma vez, de felicidade a dois, se arriscando em mais um contexto incerto e suas ramificações, e, mais uma vez, aprendendo que quase nada sei e que muito me falta saber sobre limites e afeto.

Quem era eu? quem sou eu hoje?

Sou uma profissional de saúde sobrevivente do período de pandemia. Não morri. O covid também não pegou os meus. Outras coisas, sim, mas o covid não. Importante ressaltar o tipo de governo genocida, estúpido e fascista à frente do país nessa época. Sobreviver foi o que nos restou. Foi o que me restou.

Agora me sinto como uma sobrevivente do luto. Isso realmente é algo? 

Sigo tentando sobreviver à perda da minha mãe. Ela sobreviveu à pandemia, ao covid, mas não sobreviveu ao câncer. E eu sigo me arrastando tentando viver apesar disso. Tentando não ruir a cada vez que a sua ausência se faz palpável, mesmo nas mínimas e até ontem insignificantes coisas. Tentando seguir em frente e achar motivos.

É estranho saber que não é todo mundo que pensa em desistir. Embora me digam que estranho mesmo seria pensar em ir, não importa a frequência, somente o pensamento da partida já seria um sinal vermelho. Achei que fosse um amarelo, se você diminui a frequência de "todo dia" para "três vezes na semana", e então passa a ser "uma vez na semana" quando as coisas começam a melhorar. Mas, ei, tudo é sobre subidas e descidas, é uma montanha russa imprevisível, por que os pensamentos não seriam também? 

Achava que o amarelo desse mês de setembro fosse referente àquele ponto em que exige nossa atenção antes do vermelho ou do verde. O sinal vermelho é a sentença final. O sinal verde significa que você conseguiu seguir "apesar de". Não é assim que funciona a pigmentação desse mês. Mas bem que poderia.

Quais meus sonhos hoje em dia? Por que eu me autossaboto diariamente? Por que eu estou presa em viver em decorrência de acontecimentos ruins? Sinto mente e corpo adoecidos como numa sentença funesta e quase que irreversível, embora a racionalidade sinalize que não é bem assim. Que eu posso ser ao menos um pouco diferente e começar a fazer algo que não seja escrever, desabafar, chorar e me sentir mal por tê-lo feito, e por não tê-lo também. Que eu posso respirar fundo sem o medo à espreita. Sem inseguranças. Somente... respirar. Sem contração no estômago ou fraqueza e formigamento nos membros. Meu corpo pede por cuidados. Minha mente implora por descanso e distração. Meu coração bombeia querendo sentir boas vibrações, sei que no fundo quer sair da apatia às coisas boas. E eu, faço o quê?

Agora, nesse exato momento, instante, segundo, eu penso que gostaria muito de alguém me dizendo o que fazer. Quem ser. Como seguir. O que me faz feliz. Como ser.

As ideações são cada vez mais frequentes em minha rotina, dentro de minha mente claustrofóbica. Carrego dentro de mim esse ambiente escuro, cujas frestas me permitem ver a luz com uma certa frequência, ou receber visitas breves, mas no fim do dia é para ele que eu me recolho. E algo me diz que é assim que vai ser por um bom tempo.