quarta-feira, 17 de agosto de 2022

 Hoje seria o seu aniversário. Provavelmente um dia em que daríamos um jeito de comemorar de alguma forma, dentro de suas limitações físicas e gastronômicas. Eu contava com isso. Eu contava com essa data pra podermos comemorar sua vida, celebrar mais um milagre, mais um ano vivido, não da melhor forma, mas ao menos perto de nós, seus maiores presentes (segundo você mesma). Filhas e neto, quem mais te acompanhou de perto durante esses tempos. Durante os melhores e os piores anos. Seria egoísta de nossa parte de querer por perto sofrendo, sabemos que uma vida sem essas dores e sem essas lutas era o seu sonho... Só não sabíamos que esse descanso implicaria no fim de sua vida.

Complicado demais pensar que você se foi com essa idade. Você que era todinha cheia de intensidades, sorrisos, festa, alegria, comemorações, paixões... Vi seu brilho indo embora diante de tantas lutas. Mas vi ele voltar ao ver Ravi brincar com você, te chamar pelo nome, pedir pra ficar no "cantinho" dele em sua cama, te chamando de vovó. Vi ele estremecer quando no fim do ano passado, no reveillón, você chorou e pediu que estivesse aqui novamente, esse ano. O que posso dizer? Esse era meu desejo também. Mas nós nunca poderemos compreender os planos divinos, nunca poderemos saber a totalidade dos porquês e praquês, eu sou somente mais uma desiludida na fila das dúvidas e da saudade. Eu só te queria aqui pra poder te proporcionar coisas boas, mas quem sou eu, se não posso te dar o descanso e o alívio em meio às enfermidades?

Que dia preto e branco é hoje. Minha vida que já estava funcionando em meio a tons pastéis agora perdeu o restinho das cores. Tudo é monocromático, em tons de preto e branco, talvez cinza, mas nada agradável ou inspirador. Me dão vontades e loucuras de sair por aí, desonrar meus compromissos, tomar rumos que nunca pensei, tudo porque, qual o ponto da vida? Se ela acaba assim, sem mais nem menos, sem tempo pra beijos de adeus, abraços, realizações de sonhos...?