Não lembro nitidamente de como ou quando ele apareceu, quando dei por mim já estávamos próximos, conversando daquela nossa maneira meio distante, caminhando à beira do mar, numa praia estranha. Semelhantes. Ele me perguntou como as coisas estavam, e eu lhe respondi que estava tudo bem, todos estavam bem... Foi tudo tão real, tão igual a como as coisas eram antes, quando ele estava vivo, ao ponto de me surpreender a clareza com que lembro das expressões dele. Ele estava sóbrio. Mas com aqueles olhos tristes de sempre. Seu rosto marcado, seus olhos amarelados, estava magro... Apoiado em uma perna só, como quando me esperava na rua, pra gente conversar e acordar algumas coisas. Então eu lhe contei sobre meus futuros planos, expliquei que estava fazendo um curso preparatório, que estava estudando... Ele se interessou pelos meus possíveis futuros empregos, e eu lhe expliquei pacientemente sobre cada uma das instituições que estão promovendo os concursos que farei, em alguns dias. Em sua voz não havia escárnio, ou aquelas brincadeirinhas sem graça, tampouco descaso sobre minha futura profissão... Ele apenas acenou positivamente com a cabeça, como quem entende. Como quem estivesse satisfeito. E quando ele ia embora, em direção a alguma porta que, exteriormente, seria normal como qualquer outra se não estivesse localizada em meio à plantas; quando ele se virou e ia caminhando, tomando o seu caminho, eu me senti feliz. Sim, feliz. Não houveram abraços ou trocas de carinho, como sempre fora, mas ainda assim eu não pude deixar de sentir um imenso alívio pois, acima de tudo, eu sabia que, não importava onde ele estivesse, ele estaria bem. Com aqueles cabelos ralos, com aqueles olhos meio distantes e pouco peso, aquela postura e expressão dura... Sim, aquele era meu pai.
Quando acordei, a nitidez das lembranças me deixou um pouco feliz, completa... É bom saber que guardo imagens de sua personalidade tão peculiar. E elas estão vívidas, em algum lugar aqui dentro. Foi meu subconsciente me alertando de que, para cada lembrança ruim ou traumática, existe uma lembrança calorosa e boa, para revitalizar.
Nunca vou entender o porquê dele ter partido, nem o momento em que isso ocorreu. Mas ainda que eu tenha chorado (e chore) muito, às vezes, pelas tantas ausências, e pelos tantos "e se?", eu realmente consigo sorrir ao lembrar das marcas positivas. E isso nunca se vai ou substitui.
Como diz aqueles versos que tanto amo:
Como diz aqueles versos que tanto amo:
Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você
Só enquanto eu respirar
