"Você não tem o direito de ficar chateado comigo." - desabafou enfim. Somente para si, naquele quarto solitário. Depois de juntar os acontecimentos daquela semana àquela última ligação telefônica, desabou em lágrimas, finalmente. Uma parte de si estava ainda magoada por aquelas poucas palavras trocadas por telefone minutos antes, mas outra parte ironicamente agradecia por poder enfim explodir, expelir, transbordar... Qualquer coisa, menos aquele vácuo no peito que predominou por aquelas semanas.
Estaria ficando louca?
Como se estivesse há semanas sendo torturada, pouco a pouco, e hoje tivesse recebido então um golpe final. Um tapa, um murro... Ou quem sabe uma facada? Talvez uma facada no estômago, que lhe tirou o ar, o sossego, e o último suspiro apático e vazio. Agora urrava de dor, desconsolada, enfim desperta para a dor de viver. Não sentia-se mais anestesiada.
Sentia-se ignorada. Estúpida. Injustiçada... Não conseguia achar um adjetivo bom o bastante para definir aquele seu momento. Apenas sentia que merecia mais... E ao mesmo tempo, repreendia seus pensamentos, discordando de si mesma. Às vezes era tão difícil ser ela mesma... Mas não precisava ser. No fundo achava que toda dor vinha de quem ela era... E não propriamente das pessoas que a cercavam, das situações que faziam parte da própria vida. Depois de muito refletir sobre o que não era, o que não tinha, e o que mais lhe machucava no momento, voltou à estaca zero. Como poderia conversar normalmente, sem se sentir boba? Sem parecer fútil, mimada, simplória ou utópica? Cada vez que ouvia a si mesma não conseguia mais achar os vestígios da mulher injustiçada, esgotada, saturada. Agora sentia-se somente como uma garota tola, carente, que estava lutando por coisas superficiais... Mas quem disse que eram superficiais?!
Estavam em momentos de vida diferentes, ela e ele. Ele parecia ter esquecido completamente de como era estar no lugar dela... E ela não fazia idéia de como era ser ele. Ela. Só. Queria. Ter. As. Mesmas. Coisas. E esperava compreensão e solidariedade da parte dele, mas apenas frustrava-se, pois, este, sequer compreendia quais eram seus anseios e suas revoltas. E de repente, se pegava culpando-o, mais uma vez, por tantas expectativas frustradas, e tantos sonhos vencidos. Quando na verdade sabia, e muito, que a vida dele era dele e a vida dela era dela. Parece bobo, parece fácil como 2+2 ser igual a quatro, mas se tratando de equações amorosas, nem sempre o nível das resoluções é assim, tão claro. O que era difícil no momento era estar ao lado de alguém tão diferente... Era um desnível. Às vezes as diferenças se completavam, e era uma bênção conversar, compartilhar, estar juntos. Mas esse não era um desses momentos.
Quanto mais ele perguntava, mais ela tinha vontade de se proteger, pois um lado seu, bem marcado, já lhe advertia sobre os riscos que corria em ser sincera, mais uma vez. Quebrar a cara, mais uma vez. Ser mal interpretada, novamente. Brigar... Quando não era, em hipótese alguma, necessário. Seu coração batia descompassadamente, especialmente porque ele, em seu segundo contato, parecia estar em busca de uma solução conjunta, para um problema que era só a ponta do iceberg. Não, ele não fazia mesmo uma idéia de como encontrava a cabeça de sua menina uma hora dessas. Não era pelo fato de sua ausência física nesses dias todos, mas era pelo fato quase palpável de haver uma ausência emocional perigosa entre eles... Sua menina só se sentia próxima quando os lábios se tocavam, as mãos se entrelaçavam, e entre um ou outro, havia um gesto de ternura, uma preocupação. Mas disso ele não sabia, e talvez nunca soubesse, se as coisas permanecesse como estavam... Ele queria ser compreensivo, sem fazer juízo de valor, se propunha a ouvir várias vezes, mas não conseguia voltar umas casas do tabuleiro. Ela estava umas 15 casas atrás e não iria alcançá-lo em uma jogada. E a ele não era permitido voltar estas casas, seria contra as regras do jogo... Só lhe restava diminuir o ritmo, na rodada.
Precisando colocar os pensamentos em ordem, ela ignorou todas as insistências, todas as súplicas por uma explicação qualquer, num respeito próprio, numa atitude de zelo para consigo mesma. Seus sentimentos, nesse momento, mereciam essa consideração. Mereciam ser ouvidos, ser cuidados... Mereciam se esclarecer por si próprios, antes de mais nada, sem quaisquer influências de terceiros. E somente então, enfim, seriam compartilhados. Mas de uma coisa tinha certeza: era tudo dela. Os pensamentos a serem postos em ordem eram dela. Assim como a carga era toda dela. Exclusivamente dela.
Suspirou, exaustiva...
"Sim, você tem todo o direito de ficar chateado comigo." - mesmo que ele não estivesse, quando estivesse, seria um sentimento dele, seria somente dele. Assim como os dela estavam sendo somente dela.

