quinta-feira, 27 de março de 2014

As dores dela.

"Você não tem o direito de ficar chateado comigo." - desabafou enfim. Somente para si, naquele quarto solitário. Depois de juntar os acontecimentos daquela semana àquela última ligação telefônica, desabou em lágrimas, finalmente. Uma parte de si estava ainda magoada por aquelas poucas palavras trocadas por telefone minutos antes, mas outra parte ironicamente agradecia por poder enfim explodir, expelir, transbordar... Qualquer coisa, menos aquele vácuo no peito que predominou por aquelas semanas.

Estaria ficando louca?

Como se estivesse há semanas sendo torturada, pouco a pouco, e hoje tivesse recebido então um golpe final. Um tapa, um murro... Ou quem sabe uma facada? Talvez uma facada no estômago, que lhe tirou o ar, o sossego, e o último suspiro apático e vazio. Agora urrava de dor, desconsolada, enfim desperta para a dor de viver. Não sentia-se mais anestesiada.

Sentia-se ignorada. Estúpida. Injustiçada... Não conseguia achar um adjetivo bom o bastante para definir aquele seu momento. Apenas sentia que merecia mais... E ao mesmo tempo, repreendia seus pensamentos, discordando de si mesma. Às vezes era tão difícil ser ela mesma... Mas não precisava ser. No fundo achava que toda dor vinha de quem ela era... E não propriamente das pessoas que a cercavam, das situações que faziam parte da própria vida. Depois de muito refletir sobre o que não era, o que não tinha, e o que mais lhe machucava no momento, voltou à estaca zero. Como poderia conversar normalmente, sem se sentir boba? Sem parecer fútil, mimada, simplória ou utópica? Cada vez que ouvia a si mesma não conseguia mais achar os vestígios da mulher injustiçada, esgotada, saturada. Agora sentia-se somente como uma garota tola, carente, que estava lutando por coisas superficiais... Mas quem disse que eram superficiais?!

Estavam em momentos de vida diferentes, ela e ele. Ele parecia ter esquecido completamente de como era estar no lugar dela... E ela não fazia idéia de como era ser ele. Ela. Só. Queria. Ter. As. Mesmas. Coisas. E esperava compreensão e solidariedade da parte dele, mas apenas frustrava-se, pois, este, sequer compreendia quais eram seus anseios e suas revoltas. E de repente, se pegava culpando-o, mais uma vez, por tantas expectativas frustradas, e tantos sonhos vencidos. Quando na verdade sabia, e muito, que a vida dele era dele e a vida dela era dela. Parece bobo, parece fácil como 2+2 ser igual a quatro, mas se tratando de equações amorosas, nem sempre o nível das resoluções é assim, tão claro. O que era difícil no momento era estar ao lado de alguém tão diferente... Era um desnível. Às vezes as diferenças se completavam, e era uma bênção conversar, compartilhar, estar juntos. Mas esse não era um desses momentos. 

Quanto mais ele perguntava, mais ela tinha vontade de se proteger, pois um lado seu, bem marcado, já lhe advertia sobre os riscos que corria em ser sincera, mais uma vez. Quebrar a cara, mais uma vez. Ser mal interpretada, novamente. Brigar... Quando não era, em hipótese alguma, necessário. Seu coração batia descompassadamente, especialmente porque ele, em seu segundo contato, parecia estar em busca de uma solução conjunta, para um problema que era só a ponta do iceberg. Não, ele não fazia mesmo uma idéia de como encontrava a cabeça de sua menina uma hora dessas. Não era pelo fato de sua ausência física nesses dias todos, mas era pelo fato quase palpável de haver uma ausência emocional perigosa entre eles... Sua menina só se sentia próxima quando os lábios se tocavam, as mãos se entrelaçavam, e entre um ou outro, havia um gesto de ternura, uma preocupação. Mas disso ele não sabia, e talvez nunca soubesse, se as coisas permanecesse como estavam... Ele queria ser compreensivo, sem fazer juízo de valor, se propunha a ouvir várias vezes, mas não conseguia voltar umas casas do tabuleiro. Ela estava umas 15 casas atrás e não iria alcançá-lo em uma jogada. E a ele não era permitido voltar estas casas, seria contra as regras do jogo... Só lhe restava diminuir o ritmo, na rodada.

Precisando colocar os pensamentos em ordem, ela ignorou todas as insistências, todas as súplicas por uma explicação qualquer, num respeito próprio, numa atitude de zelo para consigo mesma. Seus sentimentos, nesse momento, mereciam essa consideração. Mereciam ser ouvidos, ser cuidados... Mereciam se esclarecer por si próprios, antes de mais nada, sem quaisquer influências de terceiros. E somente então, enfim, seriam compartilhados. Mas de uma coisa tinha certeza: era tudo dela. Os pensamentos a serem postos em ordem eram dela. Assim como a carga era toda dela. Exclusivamente dela.

Suspirou, exaustiva...
"Sim, você tem todo o direito de ficar chateado comigo." - mesmo que ele não estivesse, quando estivesse, seria um sentimento dele, seria somente dele. Assim como os dela estavam sendo somente dela.


quarta-feira, 26 de março de 2014

São dias confusos

São dias confusos.
Dias em que uma simples palavra pode lhe arrancar lágrimas... E ela não precisa necessariamente vir de terceiros. Dias em que eu sonharia estar com a cabeça a mil por hora, respirando projetos e pessoas, não parando para pensar, pois pensar tem sido justamente aquilo que tem trazido tanta confusão. Eu poderia fazer um filme, com esses dias... Um filme ao qual nem eu mesma gostaria de assistir, depois. Um daqueles filmes que eu sempre acho que poderiam vir com um alerta, do tipo "cuidado, provavelmente você achará desinteressante e desnecessário". Sendo que a tristeza é que esse filme tem sido a minha própria vida. Eles dizem: "Mudem! Faça algo! Tenha atitude positiva! É uma questão de ponto de vista!" - Mas não sentem os mesmos chumbos nos pés que eu. Todas as receitas que ainda me atrevo a ouvir parecem extremamente estúpidas e simplórias. Mas não me atrevo a querer mais de quem tem "de menos".
Enquanto eu desabafo com uma simples folha de papel, por um instante eu paro e enquanto olho para a caneta comum em minhas mãos penso no quanto eu me sinto feliz e completa ali, naquele gesto de escrever sobre uma vida vazia, ainda que não tenha ninguém ao meu lado para quem olhar. Este momento, é o único em que me basto, é a única vez em que eu não sinto a falta deles... E por falar neles, como tenho pensado neles estes dias. Em como me faltam... Em como sua ausência é mais constante que tudo. Agora mesmo eles são três, com quem eu tento desesperadamente falar. Tento ser lúcida, tento ser "normal", mas o medo destes dias estranhos me faz implorar por atenção, por uma palavra, uma troca... Fazendo expectativas sem querer, se quebrando como sempre. E então, como um estalo, eu penso: "e se não for totalmente um sinal de abandono que o universo está me dando? E se não for somente isso que ele quer me passar?" E se for o sinal, o impulso que eu precisava para dar a cara à tapa e sair da zona de conforto? Fazer as tais coisas inéditas e realizar aquela famosa lista das "coisas que eu gostaria de fazer com pessoas específicas" (ou algo semelhante)? E se for mesmo uma motivação para que eu inverta a ordem das coisas? Achar alguém com quem compartilhar e em seguida fazer ou fazer primeiramente e durante o processo cativar alguém para voltar aos mesmos lugares?
São dias confusos... Mas peneirando um pouco dessa gosma, conseguem se salvar alguns fragmentos de lucidez.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Existir não basta

Passei tanto tempo querendo escrever algo, pensando, analisando e revendo análises sobre o porquê de eu não estar conseguindo mais parar e pôr a bagunça em ordem, e o que eu tenho pra dizer é somente isso. Existir não basta. Respirar não basta. Querer corresponder expectativas não faz sentido... E não traz felicidade. O de sempre, sabe? Nada novo, nada extraordinário... Apenas as fechaduras de sempre. Eu queria ser uma porta aberta, uma janela por onde uma brisa passe livremente, eu queria parar de escrever "eu queria", como se sempre estivesse faltando um pedaço meu... Como se nada e nenhum momento pudesse satisfazer esse "nada" que sinto.
Corte de cabelo, cor da unha, roupa nova... Qualquer mudança exterior não é capaz de fazer esquecer as agonias interiores, muito menos tratá-las. Me pergunto se cada avanço o é de fato ou se são apenas pequenos desvios nos quais estou acostumada a me apoiar. Pensar muito chega a doer... Mas não há escapatória. A carcaça sempre muda, mas meu eu interior está firme e forte como uma rocha... De vez em quando ele ameaça descascar, por conta de um ou outro acontecimento do mundo exterior, porém sua composição continua sendo admiravelmente forte, pro meu azar. Como eu queria que as coisas mudassem... E eu deixasse de apenas existir. E tentar agradar a terceiros, e fingir que sou meiga, boa, santa ou perversa, má e indiferente. De quantas facetas sou feita? Quantas máscaras eu preciso retirar pra ser feliz? Por que não posso me considerar feliz, se todos também têm seus problemas e baixos? Por que eu não paro de me tirar pelos outros? Que poder sobrenatural é esse que os outros têm sobre mim que eu não consigo me livrar? Por que não consigo simplesmente fazer o que julgo certo sem me indignar com quem faz o errado? Por que são poucas as pessoas que conseguem presenciar meu riso frouxo? Por que eu não consigo parar de pensar em meu desempenho e, pior, estar sempre insatisfeita? Alguém me convença de que eu preciso me dar crédito, tolerância e uma alma mais leve e aberta às boas coisas.
Sinto dores de cabeça e de alma fortíssimas se aproximando. Assim fica difícil permanecer com aquela coisa de metades e copos.