Me escondo entre palavras bem no meio da agonia. Onde mais posso encontrar refúgio em meio ao caos de toques, demandas, exigências, pedidos impossíveis e uma flexibilidade forçada? Começo um texto, amasso um papel, digito, teclo, apago, tec, tec, tec, tec... Alt + F4, termino de escrever o que simplesmente deveria e sigo meus deveres até aquela hora esperada.
Os toc-toc's frequentes em minha porta tiram a concentração do desabafo. De novo. Engulo em seco mais um choro, continuo a ignorar a sensação estranha na boca do estômago que trouxe de casa comigo e não tenho ideia de quando irá embora. Tap, tap, tap... os pés apressados vindo em direção a minha sala não sabem que não sou eu quem eles querem, ao menos em 90% dos casos. Às vezes apenas passantes indecisos, mas que em sua maioria decidem vir tentar. Os trim trim's do telefone me tiram do sério até quando são esperados, o coração sobre à boca pela surpresa inesperada do toque, se juntando ao coro das borboletas gástricas.
Em meio à agonia, me resta seguir com o plano de cumprir o combinado. Comigo. Com a instituição. Com os usuários. Às 19h o toque desejado é o do dedo na máquina com o poder de me liberar.
Contudo... Já com mais do metade do horário cumprido, um questionamento me perturba, me fazendo agravar a expressão sisuda no rosto. Eu senti falta disso? Dessa sinfonia caótica e costumeira ao plantão num domingo solitário e agitado, cujos sintomas físicos do estresse perdurarão por alguns dias sob minha pele?
Seria eu uma amante das situações difíceis? Seria eu uma viciada em tensão? O que é essa satisfação ansiada após um dia caótico, essa sensação quase de orgulho por conseguir me ver/ser útil ao fim de tudo que consegui resolver?
Começo a achar que os bichinhos da ideologia capitalista se incrustaram tão perversamente sob a minha pele que não consigo mais me ver descansando sem culpa. Tirando férias sem culpa. Adoecendo sem culpa de colocar atestado. Estou sempre tensa e ansiosa, porém meu corpo e mente absorveram a ideia de que a produtividade é um ótimo escudo para a defectividade. Ela que me faz ir do céu ao inferno em segundos, o nó na boca do estômago não me deixa mentir. Talvez eu prefira adoecer de trabalhar, morrer reclamando num emprego e numa função medíocres do que colocar minha energia em outros aspectos de minha vida.
Se assim for... Plantões extras, por favor. Deve ser saudade das crises de ansiedade cujas causas possuem nome.