segunda-feira, 26 de novembro de 2018

"Aquela prostituta chorando, além de eu mesmo, era também o Brasil: explorado, humilhado, pobre, escroto, vulgar, maltratado, abandonado, sem um tostão, cheio de dívida, solidão, doença e medo. Cerveja e cigarro na porta do boteco vagabundo: Carnaval, futebol. E lágrimas. Quem consola aquela prostituta? Quem me consola? Quem consola você, que me lê agora e talvez sinta coisas semelhantes? Quem consola esse país tristíssimo?"


Esse conto de Caio tem me resumido perfeitamente esses dias. Talvez esse texto seja o que de mais cru existe em mim no momento. Eu me sinto extremamente cansada, esgotada, as coisas não vão melhorar. As coisas já estiveram tão boas esse ano que é quase inacreditável como tudo caiu tão rápido, como tudo deu tão errado. As coisas não tem melhorado e as coisas não vão melhorar.

Faz tempo que não consigo escrever de modo satisfatório. De modo a me sentir aliviada. Os últimos textos que escrevi, foram cartas declaradas, pesadas, abertas, em carne viva. Não é algo que me dê vontade de repetir, mas era o que eu precisava naquele momento. Eu tentei colocar tudo de mim ali, eu tentei me esvaziar disso tudo, eu juro, eu tentei, mas eu não consigo. Eu prometi não escrever mais daquele jeito praquela pessoa, pra ver se ajudava em nosso processo de cura durante a separação, mas eu ainda tenho muito peso dentro de mim. E não consigo me livrar da sensação de que eu sempre terei. 

Hoje minha causa não se resume a ela. Eu me acostumei com a saudade, sabe? Antes custava acreditar que a minha saudade não teria mais mês e dia pra acabar, eu fiquei desesperada com a ideia do nunca mais. Mas agora eu aceitei parcialmente.Eu aceitei que eu terei de conviver com um espinho em minha carne e isso deve ser algo normal, a maioria das pessoas traz um desse consigo.

Hoje eu choro pelo meu país. Pelas pessoas que serão violadas, eu inclusa. Pelas pessoas que estarão violando conscientemente e se deleitando com as agressões. Hoje eu choro porque não suporto viver imersa neste mar de ignorância e violência, eu não sei lidar com coisas tão desagradáveis de uma vez. Eu não posso viver num mundo caótico quando tenho meu próprio universo bagunçado e triste. Eu não quero continuar aqui, que o deus que existe não me ouça no momento, mas eu tenho vontade enorme de desaparecer para outra dimensão. Hoje posso dizer, ainda com vergonha, porém convicta, infelizmente: eu não sou uma lutadora. Eu só tenho um senso de autoproteção muito grande, eu odeio me arriscar. Eu não sou digna das causas nobres. Eu tenho medo. E não tenho nada a oferecer. Eu sou apenas um peão nesse jogo, que em breve será atropelado por uma peça qualquer. Pessoas fracas não merecem permanecer por muito tempo em jogo. 
Hora de tirar o pó dos cadernos, hora de reorganizar os textos entulhados na gaveta. Hora de esquecer um pouco os espaços divididos feitos pra outros propósitos e focar nas coisas particulares que andam tão soltas. Tenho tido dificuldades de organizar meus pensamentos porque há tantas intensidades se misturando aqui dentro... Porém sinto que preciso canalizar de alguma forma, para que eu não venha a explodir mais à frente. 
Preciso terminar as cartas não enviadas, preciso retomar as análises ignoradas, preciso sentir de novo a veia da escrita pulsando e formigando nos dedos. Eu preciso desesperadamente abrir os portais e colocar essa voz pra fora. Antes que seja tarde. Ainda mais tarde. Antes que eu desista do gesto, do hábito, do hobby, e assim deixe morrer (propositalmente e sem querer) uma partezinha de mim. Preciso acariciar o meu eu escritor antes que ele me deixe por completo, e eu morra sufocada pelos excessos. Preciso domesticar o ego e aprender a destrinchar seus vícios, com prazer.

sábado, 22 de setembro de 2018

Me dei conta de que essa será a primeira postagem de 2018. Não é o meu primeiro texto, muito menos a primeira tentativa, porém é a primeira vez em que eu consegui concluir e de alguma maneira achar útil a exposição. Esse ano, sem dúvidas, tem sido um dos mais marcantes de minha vida. Mesmo correndo o risco de parecer clichê, devo reconhecer que isso se deve a  novos amores e dores. Sem paciência pra falar em códigos, porém sem coragem de me abrir de forma crua. O que fazer?

Fiz uma viagem entre os meus posts antigos desde mesmo blog. Ele tem 9 anos, ainda uma criança. Quando o criei eu era uma colegial, estava em meu último ano da escola, cheia de sonhos e anseios pela vida de caloura na faculdade. Eu tinha algumas ideias tão diferentes sobre as coisas... Faculdade, vida, amor, fé. Muito da essência ficou, porém eu aprendi a lidar com múltiplos formatos, e isso se ocorreu num processo nem sempre amigável. 

Eu fiz registros aqui sobre meus primeiros amores, meus questionamentos e experiências de fé, justiça social, expus indignações com a rotina, com o verbo amar, com a forma de as pessoas verem o mundo. Ainda sou insatisfatoriamente revoltada. Ainda não tenho muitas respostas. Porém não abro mão das certezas que colhi no caminho, elas são parte de meu processo de autoconstrução. Elas são parte de mim. 

Após tal retrospectiva de textos, fica o saudosismo e a melancolia de sempre. Esta segunda, uma das principais causas de minha escrita e da criação desse blog. Saudades de quando eu tinha meus 16 anos... Se o meu eu de hoje encontrasse esse eu do passado, tenho certeza de que eu o faria desistir de algumas coisas e tentar outras. Porém sempre me pergunto: eu seria quem sou, eu saberia do que eu sei, se eu percorresse outros caminhos? Essa resposta eu nunca terei. Provavelmente essa minha ânsia de querer mudar algo no passado vem dessa insatisfação com o presente. Às vezes eu não consigo ter orgulho de quem me tornei, e a autoestima torna-se uma barreira muito grande. Então eu prefiro lembrar do que foi ruim, do que foi pior, e tentar me ver pela lupa do otimismo, ao menos por um momento, e assim conseguir alcançar a gratidão esperada pelo presente. 

Eu não vim aqui uma vez sequer pra contar a história de amor mais importante da minha vida. Fiquei com um sentimento estranho de "ingratidão", pois os outros amores que tive tiveram bastante espaço literário, e eles não têm nem metade da significância desta última. Será que eu estive sendo ingrata por não ter vindo aqui, em meu "santuário", narrar essa parte de minha vida? Porém, pra ser justa, não poderia ser tão diferente. Não se eu considerar todo o contexto, todas as partes envolvidas, toda a novidade, medo, todas as coisas que estavam em questão. Hoje, após meses do fim dessa história, eu ainda não confio o bastante em mim pra fazer uma análise justa dos acontecimentos. Ainda estou envolvida. Ainda tenho intensidades sobre o meu ex amor. Mas eu quero registrar aqui também, quando eu me sentir pronta, quando eu não mais chorar por lembranças, partes de tudo que eu vivi e aprendi. A escrita sempre fez parte de meus processos de cura, não posso negar. Ainda não estou pronta, mas, em breve, eu espero, eu virei aqui.

quarta-feira, 4 de julho de 2018


Ah, você quer falar sobre sentimentos?
Você espera que eu esteja organizada o suficiente pra escrever algo coerente, estes dias? Eu disse que estava escrevendo, mas não como antes, não algo que faça sentido. Eu tenho saudades de meu sentido da escrita, eu tenho sentido uma falta absurda do prazer em escrever. Agora até escrever dói. Porque eu lembro do blog que fiz em sua homenagem e pra minha satisfação em falar sobre você e o nós que não existe mais. Porque eu lembro que não importa onde, eu te trouxe para todos os prismas da minha vida e, caramba, como dói ter que me desfazer de tudo aos pouquinhos. É, eu finalmente entendi o que significa essa coisa que chamam amor. É um "nunca deixar ir" que arde e queima, com pesar. Um dia esse pesar será revertido em carinho e cumplicidade mas eles nunca dizem quanto tempo vai demorar. Eu estou em lugares que nunca estive antes, eu nunca mais serei a mesma. Estou cada dia mais convencida de que tudo o que veio antes disso, de nós, foram apenas protótipos de amor. Erroneamente nomeados desta forma. Como eu poderia saber?