domingo, 30 de junho de 2019

Sexta-feira à noite, ela veio de novo. E eu estava desprevenida, como sempre. Fui atingida em cheio. Comecei a sentir seu toque à noite, nem tão tarde. Sutil. Quente. Se espalhou pelo corpo e deixou a cabeça pesada no travesseiro, se meus pensamentos fossem líquidos, escorreriam pelas orelhas, olhos, ouvidos, até me afogar por dentro. Quando chega na boca, o gosto é ruim e quase permanente. Sexta-feira ela me abraçou, me cobriu inteira, me dominou pouco a pouco, até ficar cheia e sufocada, os olhos vazando antes mesmo que eu entendesse o porquê. O quarto de repente tinha a metade do tamanho, e o coração... O coração era como uma caixinha comprimida dentro do peito, cheia, pesada, prestes a estourar sabe-se lá quando. Não havia limites visíveis, isso ainda me apavora.

Se eu dormi, não sonhei. Nem descansei. Acordei com ela ainda ali, ao meu lado, querendo me oferecer coisas que eu sabia, embora lá no fundo, mas ainda assim sabia, eram ilusórias. As imagens passando pelos meus olhos antes mesmo de meu corpo querer acordar. Pensando bem, essa vontade não existiu. Senti-me letárgica com todo aquele peso em cima de mim. Me encolhi várias vezes e não senti passar, pois ela simplesmente decidiu ficar ali. Como um cobertor fofo e quente num dia frio, eu passei a não querer que ela fosse embora. Eu com ela sabia quem era, onde queria estar, sem ela eu não sabia de nada, estava jogada ao frio, vulnerável, em ambiente estranho. É curiosa essa familiaridade, quase mascara a angústia que existe por trás de tudo.

Veja bem, não é de todo ruim ficar com ela. É ruim ter de se explicar. À vida, ao mundo, às pessoas, nada disso muda em virtude da existência dela. E essa talvez seja uma das coisas que mais doem, durante a sua visita. Ela está aqui, mas tudo ao redor parece acontecer numa frequência que não faz sentido. A falta de lógica nas afirmações não importa mais, ser e estar é um peso, e a melhor forma de lidar com ele é deitar na cama, e esperar que algumas pedras rolem para o lado. Fechar os olhos dentro do abraço dela e torcer para que ela aperte de uma única vez, sem te dar tempo de refletir ou desistir.

segunda-feira, 24 de junho de 2019


Aquela sensação de que é preciso cuidar mais de sua própria estrutura para então permitir a visita de outrem. Vai que essa visita resolve ficar um pouco mais, e acaba fugindo após ver a bagunça? Também há quem diga que não se pode cuidar do outro quando se está em pedaços... Mas, o que tenho sido ultimamente senão uma alma dedicada àqueles que considero, guardando a dor no bolso pra ir juntar cacos? Eu tenho vivido uma farsa, uma mentira? Tenho então fingido ser feliz para poder segurar pessoas e relacionamentos? A solidão que eu sinto é uma mentira plantada bem fundo nessa mente, não se sabe quando foi semeada, só se sabe das raízes que crescem por dentro, se apossando órgão por órgão. 

Eu não sou uma boa morada, logo se percebe as falhas da estrutura. Como uma corretora que tenta anunciar bem um imóvel cheio de problemas, eu tentei escrever a uns dias atrás, sobre como eu mereço amor e transparência, segurança, coisas boas. Falhei. Tudo que consigo é falar sobre/perceber as falhas, as partes rachadas dessa casa, que para mim são gritantes. A voz que argumenta sobre o que está fora de lugar é muito forte e convincente. Ela sabe como me fazer sentir incapaz até de oferecer abrigo para mim mesma, de prover alimento, sobrevivência básica. Me faz sentir uma completa inútil, quem de si não cuida, não deve se julgar capaz de prover nada a terceiros. 

Eu queria dizer que uma parte de mim sente desesperadamente falta de amor. E quer coisas que não sei nomear. Sofre por não ter respostas. Sofre até por não saber formular as perguntas. Essa parte se sente indigna de coisas bonitas, simples, fáceis, leves. Pois, como posso ser merecedora de tantos antônimos? Luz só atrai luz, o mesmo vale para as trevas. Quem dera descobrir o X da questão, quem dera repousar a cabeça no travesseiro e dormir tranquila, respirar tranquila, pensar tranquila, ser tranquila.

Quando eu começo a me aproximar de alguém, e nutrir sentimentos profundos, eu me vejo envolvida por várias questões antagônicas. Uma delas é a vontade de me expor, ferida por ferida, cicatriz por cicatriz, para ver se a pessoa vai fugir ou ser capaz de ficar, enquanto que ao mesmo tempo sou atacada pelo desejo de me esconder por trás de uma fachada que diz respeito ao que eu imagino que este alguém gostará de ver em mim. Seria incrível se eu fosse apenas eu mesma, sem pensar coisas estranhas ou pesadas, sem imaginar situações trágicas o tempo todo, que sempre acabam comigo levando a pior. São tantas coisas para lidar ao mesmo tempo, que eu acabo supervalorizando qualquer pessoa que se sinta bem em minha companhia, que goste de estar comigo. Que saiba das minhas lutas e decida ficar. Não são muitas, é verdade, mas eu quero canonizar todas aquelas que decidiram estar. 

Sabe, a verdade é que é delicioso e estressante se abrir pras pessoas. Delicioso porque, quando acontece a reciprocidade, do riso, do afeto, do abraço, da conversa, da confidência, é uma das melhores sensações do mundo, sensação quase que de pertencimento. Estressante porque, até chegar a esse ponto, eu já passei por uma penca de situações complicadas em minha cabeça, por medos sem fundamentos, que vão sugando todas as minhas energias, ao ponto de muitas vezes restarem poucas para me relacionar. Eu sinto inveja das pessoas simples. 

Tenho quereres que se resumem a grandes falhas de autoestima e de amor próprio. Quero me sentir boa o suficiente. Amada. Desejada. Adorada. Quero me sentir competente. Quero gostar de mim. Parece coisa simples de se pedir, mas é quase impossível em meu universo subjetivo. Quero ser minha amiga.Em vez de pensar "quem me amaria?" eu deveria permanecer no "Se eu não me amar e respeitar, quem mais deveria?" E bem no fundo eu acho que mereço amor sabe? Mereço carinho, compreensão, mereço palavras bonitas e gentis. Mereço sentir verdade em cada coisa dessas. Mas talvez, tudo deva vir da pessoa que mais importa e que eu mais negligencio: eu mesma. E sobre isso não sei muito bem o que fazer, as vezes a vontade dominante é a de jogar a toalha. E a minha falha de caráter, aquela relacionada ao meu medo, à insegurança, à supervalorização do outro, é a única coisa que finca meus pés no chão e permite que eu não faça besteiras irreversíveis. 

Então, será que Clarice tinha razão? "Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso – nunca se sabe qual o defeito que sustenta o nosso edifício inteiro."
Talvez eu esteja condenada a conviver com isso o resto da minha vida. Quem sabe não tem a ver com as coisas que me mantém viva? Aguardando cenas dos próximos capítulos.