segunda-feira, 24 de junho de 2024

Escrever para tentar me entender

E então me perder, de novo.

Eu costumava me encontrar nas palavras. Achar terapêutico o ato de colocar em frases aquilo que me agonia e espreme por dentro, até vazar (geralmente pelos olhos).

Hoje escrevo esperando um milagre. 

Como se houvesse uma entidade destinada a possuir meus dedos... Com o poder de fazê-los esvaziar sentimentos diretamente no papel. Se as palavras são uma espécie de portal, eu encontraria a luz bem aqui, em meu quarto, perto da escrivaninha e do celular prestes a tocar. 

Talvez assim, diante da promessa de alívio, eu conseguisse me entregar a essa função novamente. Eu vomitaria sem medo de queimar a garganta, sabendo que todo desconforto é mínimo diante daquilo que me machuca aqui dentro e sigo precisando soltar.

Eu queria muito escrever, mas criei um medo de sentir de novo, pelas palavras. Continuo querendo escrever, apesar de ontem à noite ter ido do céu ao inferno em questão de minutos, por ter me deixado retornar a lugares ruins comuns. 

Talvez escrever fosse melhor do que ler de novo aquelas conversas, daquele dia em que estive tão sozinha em minha dor. Mas para escrever eu precisaria relembrar de como foi estar quase oca por dentro, sustentada apenas por uma agonia excruciante de nome desconhecido.

Não sou boa em lamber minhas feridas. Eu só sei puxar a casca e fazer sangrar de novo, até pingar no chão. E antes que alguém olhe, já cobri com o tapete. Já conversei de forma costumeira, dei boa noite, até amanhã, depois nos falamos, me afastei com sucesso. Eu não quero que mais ninguém tenha acesso a esse lado meu. Porque, vejamos, mais uma pauta de crise, o externo ainda continua tendo um poder absurdo sobre o interno. Sobre meus sentimentos, sobre minha conduta, sobre mim inteira. Os alicerces de minha felicidade tem sido frágeis demais, e eu consigo achar irregularidades em todos os caminhos estabelecidos.

Quase não vale a pena continuar aqui, insistindo nisso. Não sou boa assim com essa coisa de escrever, muito menos de viver. O que estou fazendo? Me pergunto quase que todo dia, tentando entender por quê eu nunca cumpro bem meus papeis. Por quê eu não me acho merecedora de nada que seja milimetricamente melhor. Eu sou muito boa em executar mal as coisas. E muito boa em me sentir ruim. 

quinta-feira, 13 de junho de 2024

 Lá fora chove de novo. Perdi as contas de quantas chuvas pausadas e extensas tivemos esses dias. Não pega ninguém de surpresa, a considerar o mês e a época do ano. Recentemente houveram tragédias ambientais em outro estado, as quais nos lembram que não estão longe de nos alcançar, bem aqui. Os sinais são inegáveis, esse planeta não tem mais estrutura - em verdade, nunca a teve - para sustentar o atual sistema econômico. Por que estou falando sobre isso agora? Eu só queria falar sobre a melancolia que me acomete nesses dias chuvosos em que preciso ficar confinada em casa. Uma raridade, ultimamente, já que há sempre o que fazer/resolver nas ruas. 

Eu estou doente. Isso por si só deveria justificar meu azedume. Uma das coisas que detesto em ficar enferma é que, não importa em qual nível, me sinto vulnerável. Todas as faltas e dores emocionais parecem querer me visitar ao mesmo tempo, apesar de eu não lembrar de ter feito esse convite! Tampouco fechei a porta. Meu mal é esse, não saber como trancar ferrolhos e jogar a chave fora. Tento me encher de coisas que possam me agraciar um futuro próximo, por exemplo, adiantar meus estudos tão morosos. Focar em algo que possa ser útil, ao invés de piorar a dor de cabeça e as dores que não posso curar. Apenas tento. E falho, como em boa parte de minhas tentativas.

As pessoas gostam de dizer que minha cidade é "bipolar". Hora faz sol, hora chove. Até mesmo em épocas "previsíveis", a chuva parece querer se mostrar, nem que seja por uns minutos, e do mesmo jeito fugaz que chega, se vai. Se Recife fosse uma pessoa, eu e ela teríamos muito o que conversar sobre explosões em água que parecem ser inesperadas (mas no fundo há razões ignoradas em detrimento de piadas ou poesia, depende do dia, no meu caso). Infelizmente a dela passa a ser um transtorno geral, a todos que nela moram e transitam. Felizmente minhas lágrimas não podem inundar ruas ou gerar deslizamentos. Todo inconveniente e toda tragédia ficam limitados a meu universo particular.