Sobre estar sozinha e bem.
Acho que assim posso resumir as coisas, da maneira mais besta e simplista que existe. Quer dizer, se não considerarmos as enormes reflexões sobre o significado de estar bem ou estar aceitável, podemos dizer que sim, de um modo geral, estamos bem, aqui dentro. O sinal mais gritante, sem dúvidas, fica por conta do silêncio das borboletas. Estando em seu ápice, não tenho como reclamar, pois, a cada dia vivido, eu venho aprendendo a silenciar os gritos de socorro daquela música de Arnaldo Antunes que eu tanto gosto. Na verdade, eu até respondo agora, demente, boba
"- Socorro, não estou sentindo nada!"
"E, sim, obrigada por isso, Deus."
Tudo o que menos preciso é de borboletas fazendo minhas paredes do estômago sangrarem. Não que a vida não tenha me trazido outras agitações, porém, de fato, aprendi a duras penas a diferença entre as danças maquiavélicas das borboletas. Existe um nível de prejuízo. E as de agora, por mais que sejam sérias em suas causas e motivações, não chegam aos pés daquelas que um dia passearam e fizeram morada em mim, durante aqueles dias tão incertos. Elas trouxeram toda uma emoção desconhecida e muitas vezes me contemplaram com a beleza rara de seu sono, mas, nada se compara ao gozo de sua ausência em minha vida. Como é tranquilo e prazeroso, não sofrer desse mal.
Talvez eu esteja anestesiada. Ou ainda não tenha me dado conta do quanto sou/posso ser livre quando estou em minha companhia. Mas, de fato, a cada dia eu aprendo um pouco mais sobre estar só. Se é que eu posso chamar onde eu estou de "solidão". Não, não posso. Seria ingenuidade e ingratidão de minha parte crer que todo o conceito de "estar acompanhado" se resuma ao aspecto amoroso, especialmente se presencial. Todos os dias eu também descubro que eu preciso ir com ainda mais calma, em relação a mim, as minhas coisas, subentenda descobertas, experiências, fobias, reflexões... É tão maravilhoso quando a gente se respeita. E não tem medo de se definir, ainda que isso se limite. É tão bom se limitar por um momento, mas deixando sempre aquela plaquinha de "sujeito a mudanças" pendurada. Não que as mudanças me agradem ou me deixem uma sensação de conforto. Mas, eu sou obrigada a concordar com Alice "Quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era, mas acho que já mudei muitas vezes desde então". Não, eu não mudo todos os dias, todas as manhãs, ou noites, ou minhas queridas madrugadas. Mas a cada dia é como se eu aprendesse a contemplar mais esse quebra-cabeças complexo que é a mente humana, ou, mais especificamente, a minha mente, a minha vida. Olhar por um prisma diferente o mesmo aspecto tem sido conflitante e, terapêutico. Contraditório em sua essência.
Olhar pra si tem sido um tanto delicado, pois, me pego no auge do egocentrismo em diversos episódios, meu maior receio é sempre quando sou/estou socialmente exposta. Pois bem, até isso me obriga a me respeitar. Se relacionar com o outro é coisa delicada, porém, faz parte de seu processo de autoconhecimento. E eu ainda não sei o que, de fato, seria mais incômodo: o se relacionar superficial de alguns segundos com desconhecidos, o contato de revelar almas através de olhos com conhecidos, ou a ausência de qualquer um destes dois. O fato é que as pessoas são mais importantes em minha vida do que eu gosto ou costumo admitir, e, sem querer me aprofundar, preciso dizer que tem sido maravilhoso lidar com tantas pessoas diferentes em variados níveis de profundidade e conhecimento. Ufa.
Sou terra firme, que gosta um pouco de mar... Pra se aventurar é preciso ter um mínimo de segurança. Aquela mochila nas costas com algum kit de primeiros socorros ou aquela comida no bolso para quando a hipoglicemia começar a gritar. Sou cheia de protocolos comigo mesma ao mesmo tempo em que odeio as tradições sociais sem sentido e sem explicação consideravelmente aceitáveis. Sou tanta coisa em tão pouco tempo, fui tanta coisa nesse momento! Às vezes a vontade que dá é de gritar, às vezes é simplesmente dormir. Fora de meu mundo as coisas estão catastróficas e, ao menos uma vez na vida, me sinto feliz em poder não estar em sintonia com o caos exterior (ao menos por enquanto, eu sei). Bendito seja aquele que me apresentou a definição de solitude.