segunda-feira, 21 de abril de 2025
domingo, 13 de abril de 2025
Mais um domingo, mais um dia
Eu vejo gente se adequando o tempo todo, ao que o corpo pede, ao que a saúde pede, ao que precisa fazer pra continuar aqui, indo, continuando, vivendo, continuando, seguindo, continuando... Abro as redes sociais e é nutricionista, fisioterapeuta, personal trainer, coach, vários profissionais mencionados e ajudando as pessoas a continuarem. Porque continuar vale a pena, eles dizem. Todo mundo tem essa dádiva, esse presente em mãos, que é viver, e precisar cuidar de um jeito que nos permita continuar pelo máximo de tempo que conseguirmos. Precisamos continuar. Precisamos nos adaptar. Quem não se adapta, não sobrevive, eles dizem.
Mas, e se...
E se eu não estiver disposta a lutar tanto assim pela minha sobrevivência? E se a minha vida tiver virado algo do qual não consigo me orgulhar ou enxergar novos caminhos, desta vez felizes, e se eu perdi a fé de que algum dia serei feliz, satisfeita, realizada... não desprezando as coisas boas que as pessoas me proporcionam, mas, e se eu não conseguir enxergar motivos para continuar, apesar de tudo? Se o peso e a infelicidade me consumirem ao ponto de nublar os sentimentos bons, como vem acontecendo de forma cada vez mais frequente, e eu deixar esse mar me engolir? Como naquele sonho que eu tive semana passada, e se eu só me deixar afundar em direção ao fundo dessa piscina sem fim, vendo a iluminação fraca do sol desaparecer e meus membros pararem de reagir...
Dizem que não há outra chance, que esse seria um caminho sem volta, portanto, uma opção menos inteligente, essa de desistir da única coisa que tenho, pois só tenho quando existo e só existo uma vez. Será que quando penso em desistir é pra ver se consigo uma segunda chance? Ou realmente desprezo tanto assim a existência e tudo nela envolvido?
Se tem uma coisa que não desprezo no existir são as dores, as faltas, as lágrimas, e tudo aquilo que me faz sentir viva, mas de uma maneira ruim. Viver só experimentando o bom é algo impossível, estou ciente. Mas por que experienciar o ruim é algo que tem o poder de me consumir e me tirar a vontade de viver, a ponto de eu questionar meios discretos e menos preocupantes de desaparecer dessa coisa onde estão todos tão focados em preservar para continuar?
Se eu desaparecesse sutilmente seria pior do que subitamente? E se eu já estou sumindo, mas ninguém está percebendo? Talvez eu seja realmente muito boa em manter performances. Talvez eu devesse investir numa carreira de atriz... Seria irônico descobrir que eu quero viver através desse caminho. Hoje em dia todos parecem acreditar que estou bem, e que quero continuar como todo mundo, claro que dentro de minhas possibilidades e limitações. Digo brincando que a vida presta ou não presta, quando no fundo tudo que eu mais queria nesse mundo era sentir na pele, nos ossos, no corpo, em tudo físico que eu puder, um gostinho de "quero continuar sim, até onde puder, da melhor forma que puder".
Mas em vez disso, eu já acordo com raiva... Talvez não sempre com raiva, mas... Talvez desapontada? Por ainda estar aqui. Me sinto mal quando penso em coisas como minha mãe, por exemplo. Queria que ela estivesse aqui. Desejo talvez egoísta, mas, quando penso que uma pessoa que amava a existência foi embora tão cedo, pro que esperava, pro que esperávamos... Só não parece certo. Preferia ter sido eu a combater a doença e tudo que veio depois disso. Preferia ter sido eu a perder uma batalha e me entregar. Mas talvez isso tivesse tirado ela desse eixo de gostar da existência, afinal, pais não foram feitos e programados para perderem filhos. Então, que cruel, foi mesmo melhor assim? Não, ela deveria estar aqui. Por muito mais anos, pelo menos. Ela morreu sem me ensinar a gostar de viver. Não era sua obrigação, mas eu me culpo por não ter me colocado acima de toda a agonia e afobação que nossa relação teve pra conhecê-la melhor.
Estou desapontada porque não sei viver, só existir não está funcionando. Esperança e fé são coisas que, desconfio, se já tive foi há muito tempo, quando talvez eu não sabia nem ler direito, muito menos escrever pra me expressar.
Sigo sendo há bastante tempo uma ranzinza que engana, uma ranzinza que faz com que todos gostem de suas piadas, seu senso de humor baseado em autodepreciação e amargura, podem vir que o stand-up é gratuito e sempre tem. Pensei em deixar cartas, pouco a pouco para as pessoas com quem me importo, para poder tranquiliza-las de que elas não tem culpa de nada, afinal, há desertos que realmente nós só temos como atravessar sozinhos. E eu me cansei cedo demais na minha seara particular. Tudo bem, já vi acontecer com outras pessoas, não tem nada a ver com ser ou não atento ou próximo o suficiente, as pessoas às vezes só desistem, nem todo mundo vê a famosa luz no fim do túnel, por mais que pessoas estejam dispostas a mostrar. É como tentar fazer um míope enxergar sem óculos, só pela força de vontade. Só que esse é um universo onde óculos não existem, então sua visão só vai ficando pior pior, e milagres também não existem, apesar de eles dizerem que sim, que é possível. Você não se fechou para a experiência divina, você sabe que não. Você só se acha inadequada o suficiente, como na maior parte das coisas em sua vida, o que pode soar um pouco triste e desesperador, mas a vida é o que é, não tem que focar em coisas abstratas como fuga - você já tentou, por anos, e nunca deu certo. Você odeia pessoas privilegiadas por isso, lembra? Elas herdaram os privilégios que lutam pra manter e atribuem ao divino suas bençãos. Eu queria que todos se explodissem, mas sei que não estarei aqui pra ver nada disso acontecer.
Enfim, eu comecei a escrever as cartas e ainda por pessoas improváveis, acredito. Pessoas para quem não tenho dado atenção ultimamente, ou assim eu acho. Eu gostaria de sumir do planeta deixando a certeza de que elas não tem culpa de nada - não tenho como ter essas garantias mas olha aí a beleza da não existência: não haver preocupações.
Sinto que quando o "nada" parar de me assustar eu vou tomar um grande passo em relação aos planos mencionados nem mais tão nas entrelinhas, e talvez mergulhe de vez naquela piscina que sonhei.