Foi cantando essa estrofe que percebi duas coisas. Ou melhor, lembrei. Primeiro, a terribilidade do que é o vazio. O vazio é ruim. E desesperador. Você geralmente subestima, até que esteja lá. Ou melhor, até que se sinta a caminho.
Quem já se deparou com um grande buraco dentro de si mesmo, a ponto de duvidar da própria humanidade? Eu já. Eu fui me permitindo ser levada para a borda do precipício, passo a passo caminhei vazia, quase aérea, por um tempo considerável... quem olhasse confundia com leveza. Plenitude. Calmaria. Enxergava uma beleza quase que etérea. Só que era vazio. Cheguei perto do abismo, encarei-o de perto, mas então fui puxada de volta. Fui salva a bem a tempo.
Segunda realização. Eu fui salva por ele. Ele, quem? Ele, o amor? Foi o amor que me puxou de volta e me acolheu? Não. Não o amor. O amor não tinha potência para essa força-tarefa. O amor sequer percebeu que havia perigo em se jogar. Não sabia como chegar e segurar, era signo de ar flutuando ao redor, porém sem firmeza... O amor flertou com o perigo, porque, dentro de mim, nunca soube o lugar certo para se enraizar. O amor quase me empurrou, sem convicção, sem motivos, passo a passo caminhei seguindo as luzes erradas até a beira...
Até que fui tirada da beirada pelo ódio.
Se hoje não me sinto vazia, é porque estou preenchida pelo ódio.
Sempre falam sobre o amor e a forma irreal como ele deve preencher cada poro de seu ser, como deve abraçar e transformar cada queixa, cada sentimento de contrariedade que venha a surgir. Aliado ao perdão é quase que uma característica divina que tudo transforma, é o poder de mudar a forma como você encara a realidade, trazendo novos sentimentos sobre o mundo. Não discordo completamente dessas coisas. Porém sempre questiono: por que ninguém fala sobre a importância de sentir ódio? Por que ninguém esclarece que o sentimento de injustiça não encontra combustível no amor, mas no ódio e na raiva? Por que ninguém valida que o ódio nos mantém vivos?
Me disseram que o amor ia me salvar inúmeras vezes. Quando o próprio amor me deixou sem chão, foi que pude perceber a importância da teimosia que o ódio traz. É um persistir, ainda que pela raiva, para não dar o gosto de desistir a alguém que gostaria muito de te ver fazendo isso. O ódio me salvou quando precisei sentir alguma coisa e não encontrei o amor em lugar algum. Sempre me ajudou a não me sentir vazia. Quando eu quis entregar os pontos e deixar o "amor" me levar, o ódio me puxou para a realidade e não me permitiu me perder de mim mesma. Há quem diga que o amor a si mesmo é a chave para todo o equilíbrio e toda a paz que o ser humano necessita para se relacionar com as pessoas e o mundo. Enquanto não trilho esse caminho maravilhoso, me resta o ódio e todo o movimento que ele traz aqui dentro, como que num último ato desesperado de não me perder ou me desconectar por completo desse corpo.