segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Estou me guardando para quando a pandemia passar

"Coisas para fazer quando a pandemia passar"
Hoje foi mais um dia estranho. Quer dizer, estranhamente comum. Meus dias tem sido todos iguais. Eu acordo, pego o celular para conferir as redes sociais, vejo pessoas voltando a sua rotina comum, leio as notícias desesperadoras do governo brasileiro, me sinto mal por tudo e resolvo levantar da cama. Todos os dias eu penso que deveria instituir um ritual mais saudável ao acordar. Fazer um alongamento muscular, uma ioga, projeção astral, sei lá, algo do tipo. Eu sei que preciso também beber mais água, cuidar da pele, começar a fazer exercícios físicos, seguir uma rotina de cuidados com meu cabelo... A lista só cresce. Eu não deveria me cobrar nesse momento - é o que a minha psicóloga diz - mas sinto que voltar a seguir algum tipo de rotina me traria um senso de normalidade.

Normal... O que a gente poderia definir como normal nesses dias? Sair nas ruas apenas para o inevitável usando máscaras, carregando seu álcool em gel consigo, vendo os conhecidos por videochamada? À espera da vacina. As notícias não são boas, e não somente porque estamos em pandemia por causa de um vírus para o qual ainda não há cura. Não há notícias animadoras em nenhuma esfera do governo. Aliás, desde o resultado das últimas eleições, me sinto cada vez mais presa a alguma distopia mal escrita. Sim. Mal escrita a ponto de o leitor se questionar sobre as suposições do escritor "Ele pensa que eu sou estúpido ao ponto de acreditar nisso?". E sem previsão de melhoras.

O normal de antes também era algo que me sufocava. E eu até que sinto falta. Não posso fingir que não, mas não posso mentir que tudo ia assim, muito bem. Não ia. 


quinta-feira, 8 de outubro de 2020

 Que calor faz em minha cidade agora. No país todo, ouvi dizer. O calor me entristece um pouco, enche o meu corpo de suor, enche aqui dentro de reclamações. Sair na rua sob o sol é um desafio inevitável. Ao menos para mim, que preciso trabalhar. Aliás, eu nunca vou entender como há pessoas escolhendo estar nas ruas com esse clima e em plena pandemia. Estou cansada de tentar decifrá-las. Mudei o ato para "tentar coexistir na mesma cidade sem surtar". Nem sempre funciona.

Eu realmente não sei qual foi a minha pretensão ao começar a escrever hoje. Talvez apenas saudades de marcar coerentemente as linhas de uma folha inteirinha, pertencentes a um caderno novo que mal teve a sua chance de uso. Parece até que foi em outra vida quando o comprei e me matriculei em mais um período da faculdade. Talvez tenha sido mesmo parte de uma outra realidade. Talvez eu volte mesmo uma outra pessoa. Se melhor ou pior, só o tempo dirá.

Vejo o mundo se forçando a funcionar sob uma falsa crença de que um "novo normal" é seguro. Pessoas adicionaram a suas rotinas o uso do álcool 70º e das máscaras com a ilusão de que é necessário e suficiente nesse momento. Há um vírus imprevisível para o qual ainda não há vacina e que já levou milhões a óbito. Ele pode estar em qualquer lugar, usando qualquer pessoa. Se escolho sair de casa nesse momento para cumprir coisas não essenciais, posso dizer que estou brincando de "roleta-russa", certo?

Antes da pandemia eu já não estava bem. Os pensamentos que me cercavam tinham um cheiro mórbido. Ainda posso senti-los. Se engana quem pensa ser fácil se livrar desses odores. Tem dias que é mais fácil fingir que eles não existem, mas na maioria das vezes eles são como as mosquinhas volantes que eu tenho na visão. Não as percebo sempre, porém sei que estão ali. Baste olhar em "ponto morto" e lá vem elas.

Tenho várias metáforas sobre a (ausência de) vontade de viver - fios que se partem, chamas que se apagam, olhos que se fecham, membros que se soltam... Dá para pincelar poeticamente qualquer dor e qualquer sentimento. Lembro de como essas metáforas eram comuns quando eu não queria admitir abertamente em meus textos sobre a vontade de morrer. Talvez pelo medo de parecer alarmista, ou uma carta de despedida. O medo de que uma coisa leve à outra e assim cheguemos a atos irreversíveis. Hoje eu ainda acho que essa vontade não está ligada a cometer atos suicidas. A vontade de não existir vem do desejo profundo de não sentir mais. E eu verdadeiramente acredito que isso será possível apenas quando não houver mais ar em meus pulmões e oxigênio no cérebro.

Em terapia estou aprendendo que é preciso ressignificar a vida. As dores. Os traumas. Tentando acolher a criança ferida aqui dentro ao invés de silenciar e feri-la ainda mais. Bonito de organizar no papel. Na vida real? Caótico.

terça-feira, 7 de julho de 2020

Conversas terapêuticas - pt 1

Nossa relação nunca foi fácil. Mesmo agora, depois de tantos anos, e no ano que farão 7 anos de sua partida,  muitas coisas ainda são difíceis pra mim. É difícil pensar em nós, no tipo de relação que tínhamos, nas expectativas frustradas durante os anos, na falta de sabedoria pra saber desfazer os nós. Às vezes eu me pego pensando em como foi difícil te entender e te aceitar por anos, digo, sobre a parte difícil. Sobre o vício, a resistência em querer se tratar. Fora isso, havia sim muita grosseria e incompreensão, mas eu costumava resumir tudo ao álcool. Quando eu penso sobre o seu jeito, sobre o que eu me lembro dele, sempre acho que eu puxei mais a você do que percebia.

Estando onde estou hoje, tentando me consertar por dentro, me sentindo vulnerável mentalmente à vícios, hábitos não saudáveis, sendo visitada por desejos suicidas ou quase, eu percebo que me aproximei de você, de alguma forma. Seus comportamentos autodestrutivos te levaram tudo, em determinado ponto de sua vida você perdeu tudo, ou quase tudo, que te importava. E eu percebo que tenho medo, sabe? Medo de chegar a esse ponto. Medo porque, em vez de usar o seu mau exemplo como algo a ser evitado, eu sinto como se nós dois nos aproximássemos sempre que minha mente passeia por lugares limítrofes. Para chegar ao ponto em que você chegou, eu imagino que você soltou a corda do barco muito cedo. Depois foi só afundar e esperar o corpo parar de reagir... Eu não quero isso pra mim. Embora às vezes sinta esses desejos maléficos de desistir de tudo.

O que eu diria para você hoje? Eu não sei ao certo... Eu desconfio que algumas barreiras seriam abaixadas. Eu tenho me curado um pouco dessa estranheza que tínhamos em comum, de não querer muita proximidade física, abraças as pessoas. Será que as coisas poderiam ter sido diferentes se eu fosse uma filha mais carinhosa? Não. O problema nunca foi esse. Um dia alguém me disse que, por mais que eu te amasse, e por mais que eu demonstrasse isso, não seria o suficiente. Porque você não tem amor próprio. E o amor de ninguém seria suficiente pra cobrir esse buraco. Para mim fez todo o sentido. A pessoa, que não te conheceu, ela me pareceu a mais lúcida de todas, ao me fazer perceber que você era um cara depressivo e sem amor próprio. E, mais uma vez, me percebo muito próxima de você nesse aspecto.

Relendo textos antigos e cartas póstumas... Percebo que muito do que sentia ficou. Em relação a saudade, em relação ao saudosismo, às lembranças, à consciência pesada... Eu também sempre soube que me parecia com você em certos aspectos. Mas acho que isso de agora é uma coisa nova, esse medo de que tenhamos destinos iguais. De que eu me permita abraçar pela solidão, e não pelas pessoas, e me envolva em labirintos dos quais não consiga sair, nem com ajuda externa. 


quarta-feira, 6 de maio de 2020

Tenho ouvido falar - tenho percebido também - que durante o isolamento social os nossos defeitos estão cada vez mais latentes. Tenho vários, com os quais nem sempre sei lidar. O maior deles? Talvez seja não gostar de mim mesma.
A autoaversão dá vazão a outros tipos de problemas, como por exemplo, os desejos ilícitos de recorrer a caminhos e meios corrosivos. O objetivo não é se manter viva, mas se anestesiar. Quanto menos viva, menos penso, menos dói, menos pesa. Viver se torna um fardo. Sem exageros ou melodrama, a vontade de ir embora tem se tornado latente ao ponto de eu não saber mais como conviver com isso. São milhares de vozes ecoando juntas, somadas e fazendo coro a esses pedidos um tanto nefastos e fúnebres. Seria uma boa hora para me vangloriar sobre a minha covardia?

terça-feira, 31 de março de 2020

sobre a solidão das pessoas incompletas

Ninguém está isento das dores e agonias da vida. Todo mundo sofre, isso já é o bastante para que todo mundo respeite a dor do outro, correto? Errado. A empatia surge somente quando o outro reflete parte de sua própria agonia interna, então você se reconhece e se aproxima. Pois, caso contrário, como poderia saber tal coisa, se o que você é e sente não chega perto desse mundo? O meu erro sempre foi esperar de outras pessoas coisas o que elas não podem me dar. Pior: depositar parte de minha felicidade (ou toda ela) em coisas e pessoas alheias, que não eu, que não as minhas. Esse é um erro grave que tenho cada vez mais certeza, poderá me levar a caminhos irreparáveis.

Todo mundo sofre, todo mundo sente dor. Todo mundo aprende a se reerguer, ciclo natural da vida. No momento, me sinto um ponto fora da curva, mesmo sabendo que por aí terão pessoas que provavelmente cometem os mesmos erros e se sentem da mesma forma. Mas elas não estão próximas a mim, e eu me sinto extremamente perdida com essa triste revelação. Tenho carregado comigo dores e descontroles dos quais não costumo falar, sei apenas que eles precisam ter fim. Ou não saberei mais o que fazer, como continuar. As pessoas ao redor tem a capacidade de se autossatisfazerem, como deve ser, apesar de toda tristeza, de todos os problemas que vierem em seus caminhos, elas conseguem, sozinhas, ou com algum tipo de apoio, porém, o diferencial se dá pela força individual. Eu faço parte de um time fracassado que não confia em si mesmo e que procura em forças alheias a capacidade de ser feliz, de se erguer, de se sentir completa.

É um caminho falido. É um caminho, com o perdão da palavra, fodido. Mas não pense que é uma escolha suicida, é somente a forma que eu sei ser e fazer as coisas. Eu detesto cada vez mais o amontoado de coisas que me tornei, eu simplesmente repudio essa falta de autossuficiência emocional. Eu me aproximo das pessoas e quase consigo ver sobre suas cabeças o cronômetro regressivo, anunciando o fim de nossa relação. Tudo porque não descobri ainda como ser de outro jeito, e assim, vou poluindo tudo que eu toco em meu caminho, trazendo pesos desnecessários, dramaticidade indesejada, sentimentos e decisões extremas que me fazem questionar sobre minha sanidade mental. Não é fácil lidar com isso, especialmente se você não está aqui dentro. É por isso que, fatalmente, eu vivo temendo o fim e o distanciamento daquilo que é bom, no momento.

Ser uma pessoa incompleta é saber que, por toda a sua vida, você estará sozinha. Não vive, sobrevive. Não está, não fica, não habita de verdade... Se habitua, se adapta. Se ainda não ficou claro, a verdade é que eu estou cansada de ser pela metade. De viver esperando que algo ou alguém me complete. Isso é absurdo aos meus próprios olhos e ouvidos, mas de nada adianta tentar disfarçar ou fugir. No momento eu estou sem condições de carregar e fingir mais coisas, então, o quão antes eu conseguir ajuda, melhor. Mas... Nesses tempos, e nesse contexto, de onde virá? Ou melhor colocado:... virá? 
Sobre a minha própria cabeça há uma contagem regressiva, eu sei. Mas também não consigo enxergar os números. Talvez seja melhor assim... Me dá uma ínfima esperança de que o jogo pode virar. 

quinta-feira, 19 de março de 2020

Ninguém nunca me enganou durante a graduação, ninguém nunca me prometeu de que as coisas seriam diferentes. Há 10 anos atrás eu era uma caloura de 17 aninhos louca pra "mudar o mundo". Logo no primeiro período os professores fizeram questão de desconstruir todo esse messianismo e mandar a real. Pra ver quem teria culhões de ir até o final. Pra ver se era isso mesmo que a gente queria. Eu com 17 anos achava que meu lugar era ali e que eu devia ir até o fim porque "a hora é agora", "não há tempo pra arrependimentos". E então chegou a vida profissional. 

Palavras como "precarização", "desvalorização", "desvio de função", "violência institucional", "assédio", "falta de reconhecimento", se repetiram várias vezes em todos os períodos. Como uma espécie de teste de resistência. Mas nada como vivenciar, sentir na pele o discurso. Mesmo que ninguém nunca tivesse dito nada antes, você seria capaz de chegar à conclusão sozinha. Você acha que ouvir por tanto tempo, tantos períodos, tantas aulas, tantas semanas, ler em tantos textos, tantos livros, vai te preparar pra vida profissional. E não vai. Nada te prepara, nem mesmo o período de estágio, sabe? Abraçar o Serviço Social é uma das coisas mais difíceis que eu escolhi fazer, tanto que, após 5 anos exercendo, estou tentando mudar de área. Antes faltava autoestima e coragem, porque a rotina potencializa a depressão e a ansiedade - essas são coisas que tem o poder de te paralisar e atrasar a tua vida. 

Mesmo quando compartilhamos as dores, as rotinas, as frustrações com nossos colegas, é fácil cada profissional se ver ilhado. Eu sou uma ilha. E por diversos motivos... Um deles é porque, dentre os meus, há predominantemente uma resistência, uma força imensa pra continuar acima de tudo, uma identificação e vontade de permanecer. Não há ninguém que esteja querendo desistir simultaneamente enquanto luta. Me sinto ilhada também porque, infelizmente, não há pessoas próximas que tenham a capacidade de se colocar em meu lugar. Digo isso não como acusação, mas como uma constatação mesmo.

Ser assistente social é explicar constantemente até pros seus entes queridos o que você faz, e o porquê de não poder fazer tal coisa, ou porquê uma fala específica te deixou chateada, ou porquê você tem um pé atrás com certa classe de profissionais, ou porquê você teve que ser mais firme em tal situação, ou porquê está cansada e desgastada mentalmente, etc. Isso, quando não te tratam como exagerada. "Não pode ser tão ruim assim"; "Tenho certeza de que você consegue aguentar mais um pouco"; "Você não consegue perceber que você é privilegiada"; "Pensa naquelas pessoas que estão em situações piores"; "Meu sonho é ter essa sua carga horária"; "Acho que você está no modo autodefesa"...

Se eu não tivesse esse modo ativado, provavelmente estaria muito pior. A minha autodefesa é meu senso de humor, eu com certeza sou a pessoa mais piadista do setor onde trabalho. Porém devo ser a única que ainda vai dormir chorando por sequelas emocionais daquele dia de trabalho. Não sou novata. Não espero coisas utópicas. Sou apenas humana. E estou cansada, sabe? De simultaneamente não conseguir mais e de não ser compreendida. De trabalhar em dobro: fazendo a sua função e tendo que explicar porquê aquilo é a sua função. 

Trabalho em um lugar onde nosso serviço não é visto nem tratado como essencial. Pessoas próximas em seus discursos e achismos concordam com esse ponto de vista. Veja bem, quando disseram que não haveria reconhecimento, esqueceram de mencionar que isso não se limitaria aos usuários e colegas de trabalho. Isso atinge até os entes queridos, o que acaba machucando mais um pouco, talvez. Porque você tem a falsa ilusão de que, por serem pessoas que acompanharam sua luta desde o início, poderiam sentir o que você sente. Mas não podem. Sou uma ilha, tenho que cuidar sozinha dessas coisas que somente eu tenho ciência e dou a devida importância. Absolutamente ninguém, por mais empático que se demonstre, tem ideia dos danos emocionais, dos impactos psicológicos. 

Estou frequentemente tentando provar o meu valor, isso é algo que me acompanha desde a infância. Pessoas como eu se sentem na obrigação de provar algo a alguém. Odeio admitir fraquezas, então quando eu exponho, espero que acreditem em meu clamor. Eu não espero que me vejam como fraca, mas apenas como humana. Forte, sim, mas isso não me isenta da fragilidade humana com a qual estou lidando agora. Sempre tenho o receio de demonstrar coisas demais... Então me contenho, me convenço de que não vale a pena o discurso e a exposição. Infelizmente, na maioria das vezes estou certa sobre isso.

Nesse contexto pandêmico, meu "isolamento social" tem sido no meu quarto, com a minha colega de apartamento na sala, enquanto choro sem querer responder a perguntas ou justificar quaisquer coisas. Em tempo de incertezas, repito que vai ficar tudo bem. Que minhas queixas são válidas, que não são apenas sinal de fraqueza, não desta vez. Passo a maior parte do dia deitada e sem forças, graças a Deus não é o novo vírus. Esse novo contexto veio somente a calhar, somar às dores que tem se potencializado recentemente e me deixando quase perdida. Quero dormir o tempo todo, porque esta é uma forma de não ser devorada pelos pensamentos.

Queria fazer a minha amiga se sentir menos sozinha mas, como, se sinto eu mesma como uma ilha? Não acredito em meu potencial consolador neste  momento. Tenho estado preocupada com várias pessoas e não posso fazer muita coisa, tenho tentado cuidar de longe e rezo para que não percebam o medo e a tristeza cada vez mais frequentes em mim. Com certeza entenderiam tudo errado. E Deus sabe que estou perdendo as estruturas até por causa de mal entendidos. Já se foi o tempo em que eu e as palavras tivemos uma relação harmônica.

Talvez esse desabafo seja retirado daqui posteriormente. Antes que alguém possa ler e me achar vitimista, pessimista, derrotista ou quaisquer "ista's" que costumo ouvir. Enquanto me preparo pra dormir penso que amanhã será mais um dia de trabalho em meio a esse caos chamado saúde pública e Serviço Social. Quando o mundo interno e o externo se colidem é aí que você testa a sua fibra. Eu sinceramente espero não ter mais nada a provar ou testar... sou um soldado ferido, será que isso não conta em nenhum contexto? Temo que não, pois os ferimentos não são físicos. 




sábado, 14 de março de 2020

Faz parte dos pensamentos que você considerava inofensivos, até passar a tê-los. Aliás, agora você não somente os tem, como também sente
E então você entende que eles são destrutivos porque deixam a sensação da realidade crua, da falta de esperança, da aceitação sobre coisas que julga nunca poder mudar ou melhorar. Em resumo: nada, nenhuma sensação, momento ou experiência parecem tão reais quanto isso e você se assusta a princípio... Mas se entrega. Como pode não haver razão em algo tão real, tão convicto? Só há uma explicação: o resto é ilusão e a verdade é essa, apenas. Não há possibilidade de que isso seja mentira, pois você sentiu, você esteve lá, você se permitiu acolher essas sensações com toda atenção e carinho necessários e agora não há a possibilidade do caminho de volta. Ele não existe! 
 A convicção da verdade não te permite pedir ajuda.  Além do mais, você tem a certeza de que ninguém entenderia, ninguém alcançaria. Pelo simples motivo de que eles não são você, e eles já emitiram outros sinais em outras situações. Comentários destrutivos que você preferia ter esquecido. Eles não dão a atenção necessária que isso merece.
Você não os culpa. Apenas os poupa, e tenta evitar os julgamentos e as pressões de outrora. Além de tudo, você tem o entendimento de que a cada um basta carregar seu próprio mal. 
Mas ainda assim você quer uma forma de se expressar, você quer registar ao menos em algum lugar sobre essa batalha vencida.
Então você vem aqui. Supondo que tem certa habilidade com as palavras para esconder e expor o suficiente para que não preocupe nada nem ninguém realmente. É um grito que já sai mudo, calado. Ele é interno. Insuficiente. Você quer ser ouvida, mas não quer perguntas. Quer falar e expor, porém com a garantia de receber a compreensão que julga merecida. 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Cansei de tentar escrever textos para a compreensão alheia. Sempre que me proponho a escrever sobre isso eu acabo nos clichês e frases feitas das quais tenho pavor. Então descreverei somente como eu realmente vejo, como eu enxergo esses conflitos que me acompanham a tanto tempo. Todos os dias. Em diversas situações. Se fecho os olhos, vejo quase que claramente os dois rostos, são a mesma pessoa ou apenas duas faces da mesma moeda. Se trata de um caso quase que de Jekyll e Hyde. Em essência, uma parte complementa a outra, e sem ela não o é por inteira.

Há duas mulheres brigando. Às vezes são meninas, às vezes adolescentes, mas sempre duas fêmeas em conflito. Um lado parece sempre querer brigar, provocar, agredir, e o outro nem sempre sabe levantar as defesas. Uma delas tem plena convicção de que a outra é o ser mais patético, fraco e vergonhoso do mundo. A outra tenta enfrentá-la algumas vezes, mas em sua maioria ela somente aceita o que ouve, e escolhe apanhar. Como se merecesse. Como se o ato de se erguer não fosse possível. Como se ela aceitasse esse destino violento e cruel de ser um saco de pancadas, até o dia que não lhe restarão mais suspiros ou gemidos de dor. A primeira é uma exímia lutadora. Está sempre em forma. Sequer parece humana, está sempre alerta, farejando medo, insegurança, se apossando dos erros para jogá-los diretamente na oponente. Ela sabe fazer isso com louvor. Em seu rosto há um sorriso maníaco e um brilho psicopata nos olhos de quem fere por prazer, de quem nasceu para infligir caos e agonia. De quem foi destinada a somente plantar sementes de destruição e de dúvidas sobre o que é bom. 

E não pense que ela se limita a uma lutadora. Ela também é muito boa com jogos mentais. Ela se aproveita da fraqueza e da falta de defesas da oponentes para sussurrar em seu ouvido palavras destrutivas de puro ódio. Ela não só as grita quando está ferindo, batendo, atacando a matéria, ela sabe argumentar de forma tão agressiva quanto. Às vezes penso que a outra se deixa apanhar porque prefere o castigo físico a ter que argumentar e ouvir coisas tão vis. Ou, pior. A segunda espera que todo o momento de dor, que toda surra, todos os golpes, alguma hora irão levá-la permanentemente embora. Então ela se entrega.

Às vezes acho que esta segunda mulher é um tanto quanto suicida. Ela se machuca sozinha, de propósito, abre cortes no próprio braço, na própria pele, quer materializar lâminas, facas, apenas materiais perfurocortantes e perigosos fazendo carinho em si. É como se ela quisesse se concentrar na dor para escapar da realidade, e por isso mesmo muitas vezes ela se entrega à primeira mulher. Sem nem mesmo precisar ouvir insultos, as provocações, a primeira se diverte muito apenas observando a segunda se automutilando, ela acha que é covardia demais, e isso é patético. Sempre que a segunda tem pensamentos autodestrutivos, a primeira se aproveita de sua guarda baixa, e a golpeia com força. E isso acontece com uma frequência absurda, digo, principalmente os pensamentos destrutivos.

A primeira mulher se acha mais realista. Talvez o seja, não posso contestar isso na maioria das vezes, porém é também o sinônimo de crueldade e veneno. A segunda está tão afundada em sua falta de afeição por si mesma que não percebe sua visão igualmente realista. Ela é aquela que chora muito mais do que deveria e tem colapsos nervosos frequentes, às vezes causados pela primeira, outras por pessoas alheias que nem mesmo tinham a intenção. Uma desequilibrada. Aliás, ambas são. Desequilibradas. Extremos opostos, um castigo, um fardo a se carregar. Se houvesse justiça e saúde nesse contexto, certamente elas se fundiriam, mas não antes de remodelar e podar algumas características.

Sempre imagino os textos de um jeito em minha mente e geralmente acabo me decepcionando ao tentar transpassá-los ao papel. Com este não foi diferente. Sem mais delongas, quero apenas concluir com o choque de que, o mais bizarro, o mais estranho e difícil de lidar nisso tudo, são com as marcas que ficam evidentes na realidade. Por meio de atitudes, pensamentos, sinais corporais, quem tiver a mesma visão que eu saberá facilmente identificar o pedido de socorro. Pois, sob minha própria pele, há essas evidências de um conflito não tão figurado assim. E ele está longe de acabar. 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Meu alter ego escritor me diz que ninguém se interessaria por minhas estórias.
Falta... substância. Coerência. Verossimilhança. Tenho quase certeza de que ele não usou todas essas palavras de vez, mas eu acredito que era isso mesmo que quis dizer. Faltam muitas coisas, na verdade.
Infelizmente volto àquela adolescente que sabia muito bem como escrever um texto dentro do padrão ortográfico e vivia lutando para não tocar somente o coração da professora de português quando ia corrigir uma redação "impecavelmente sem erros gramáticos". Antes fosse gramaticalmente pobre, porém repleto daquela magia que nos faz trocar até refeições por mais uns minutos lendo aquela bela estória.

Há pessoas que tem paixões por coisas impossíveis. E há pessoas que gostam somente da sensação de se sentirem apaixonadas, algo meio platônico, nunca fazem nada sobre isso. Eu estou percebendo que a minha história com a escrita tem andando por esses rumos, o que me deixa dramaticamente infeliz e desesperançosa. Quem foi que disse que eu sou uma boa contadora de histórias? - meu alter ego sempre me cutuca.

Ninguém nunca disse. Os comentários de uma professora relativamente progressista ao fim das redações escolares não são tão importantes assim. Imagine só, se ela me visse agora! A pobreza criativa que se sobressai em minhas narrativas. Parece que parte de mim se perdeu pelo caminho. Ou se danificou. Será que ainda há jeito? Será que eu ainda posso, substancialmente, dar vida aos personagens e mundos que tanto me assombraram? Eu devia ter me forçado a escrevê-los. Sem registro anteriores, minhas lembranças são apenas fumaça, é impossível segurar no agora. Talvez eu tenha que começar tudo de novo, novos personagens, novos mundos, novas perspectivas... A inspiração, antes uma velha amiga, agora parece ser uma mera conhecida. Perdemos afinidade.

Eu costumava ter um lado feroz, sempre que alguma Grande Tristeza me acometia. E ele se expressava através da escrita. Era também através do papel e da caneta que vinham as autorreflexões que eu, a todo custo, buscava evitar, em toda a minha melancolia. O mais puro ato de preencher linhas, páginas, folhas, me fazia provocar uma catarse. Saudades desses velhos tempos. Hoje eu sou ranzinza e impiedosamente crítica a tudo aquilo que costumo produzir. Nada mais me satisfaz, nada mais faz gracejo aos olhos. São simplesmente... Palavras. Em sua maioria, desabafos. Por mais tristes ou verdadeiros que sejam, não há nada poderoso, sobra mediocridade. E quanto à escrita criativa? Não há sequer o que comentar. Acho que perdi os meus mundos fantasiosos em algum lugar aqui dentro... Há alguma coisa, ainda não identificada, que deve estar fazendo tudo que tem potencial de refém. Ou talvez não haja essa coisa, e eu esteja com expectativas irreais sobre algo que eu sempre quis ser, mas nunca fui: uma escritora crível.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

meu anseio por escrever vai e volta... tenho uma dúbia natureza em mim.
sei que sou feita de intensidades que não cabem em meu peito, me sinto hora cheia demais, hora vazia e carente de palavras e afetos
ao mesmo tempo que quero me desfazer de tudo o que possuo, às vezes sinto muita falta daquilo que eventualmente cai pelo meio do caminho
como pode uma pessoa se sentir tão oca e em seguida transbordar?
quando as coisas novas vem, demoro um tempo desnecessário para reconhecê-las
espiando por detrás da porta, querendo ver e tocar sem me mostrar...
é assim que vivem os covardes?
matando vontades e morrendo de frustração e medo?
eu quero tudo e não terei nada
eu sou sempre uma fraude e uma piada mal elaborada?
alguém sorriu ali no canto...
não foi você.
foi ela
aquela que me acompanha desde que eu tenho minhas primeiras lembranças terrenas.
você saberia me dar instruções sobre como devo me livrar dela? e de seu sorriso sem um pingo de humor?
e se...
e se ela for parte crucial de minha existência? 
não saberei o que fazer caso eu deseje voltar.
viu?
o arrependimento aparece antes mesmo da ação.
talvez eles tenham razão...
em algum ponto da minha vida, perdi a mão
deixei de fazer sentido
a minha existência tornou-se algo patético e de mau gosto...
um feixe de lucidez me diz que, caso isso fosse verdade, você me diria.
e eu? 
acreditaria?

domingo, 5 de janeiro de 2020

A melhor versão de mim

Por incrível que pareça, eu estou me sentindo leve em meio a uma situação que por muito tempo julguei improvável ( e com potencial catastrófico). Talvez eu esteja exagerando quanto a este segundo, mas isso é sempre justificável para uma mente ansiosa e pessimista. A questão é que tenho me comportado com cautela, desde o começo, venho caminhando a passos lentos e calmos, porém firmes. Às vezes sinto que meus pés querem vacilar e tremer, às vezes me pego querendo fazer coisas um pouco arriscadas. Quando passo por um meio-fio por exemplo, quero subir na ponta e testar o equilíbrio enquanto caminho até o fim da calçada. Mas a prudência me chama, então, conhecendo minha falta de inteligência corporal, eu desço e caminho tranquilamente pelo chão plano. Nada de correr riscos desnecessários durante o caminho. O "essencial" já me custa a energia e concentração necessárias.

Estar com ele tem sido... Bom. Não direi que é sempre fácil. Mas é sempre certo. Digamos que, na maior parte do tempo, o coração sorri. Eu sei. Se parece tanto com as outras vezes... mas em cada uma delas eu aprendi algo. E agora é diferente, por razões que pertencem somente a mim. Confesso que o meu coração surrado não me permite fazer expectativas muito altas, o que é bom pois, geralmente isso traz um peso desnecessário às ações e sentimentos. Passear pelo passado é inevitável, são situações semelhantes devido à natureza da relação, mas agora o presente me parece irresistivelmente bom. Suficiente. Não tenho perdido mais tanto tempo e energia em lembranças de tempos que se foram. Revisito as lições aprendidas, tento aplicá-las à atualidade, e isso é tudo. Não há olhares contemplativos para um passado que se foi e não volta, não há o desejo de retornar a sensações antigas. Ele tem sido suficientemente bom pra mim.

Escrever sobre ele ainda é difícil, me pego sendo repetitiva demais, até para os meus padrões. Também não quero soar exagerada, intensa, desesperada, embora neste exato momento meu coração dê alguns saltos protestando tal comedimento. De modo geral, não tenho conseguido escrever como antes. Porém não posso dizer que há bloqueios. Há agitação. Há borboletas. Há correntes elétricas. Há ansiedades. Há medo. Há felicidade. Há planos. Por um momento eu havia me esquecido de como era viver com tantos sentimentos contraditórios dentro de si, os tons escuros e coloridos coabitando esses espaços aqui dentro e me mostrando que eu tenho mais poder de ótica do que eu pensava. Ainda há velhos vícios, é verdade. Os defeitos e qualidades latentes ainda existem. A mania pessimista de querer compará-los também. Às vezes consigo me enxergar com mais gentileza que das outras vezes, é um desafio constante e diário. Eu estou longe de ser como almejo, mas consigo ver que sou muito melhor do que já fui. E que não fui tão ruim quanto acreditava ser. Culpo a melancolia e todo o poder que a ela tenho dado.

Ele não imagina, mas a sua presença constante, o seu jeito, me ajudam a dosar as sensações melancólicas. Ele me dá consistência para me ocupar com o mundo real. Quantos já não tentaram me arrastar para esse caminho de forma prematura e, por vezes, violenta? Hoje me vejo num lugar em que durante muito tempo quis estar, porém não sabia como chegar. Mas de uma coisa eu sabia: certos processos não podem ser forçados. Certas relações funcionam como catalisadoras, mas é o tipo da coisa que acontece naturalmente, sem planejamento ou controle por parte de ninguém. Hoje me pego sendo alguém que, outrora, seria amado e admirado por aqueles que tanto expuseram dificuldades para lidar comigo. Com minha forma de ser e gostar. Aqueles que quiseram me fazer ser como eram, e que, hoje percebo, eram incapazes de entender meus processos. Consequentemente, de me amar. Há menos culpa do que eu pensava. Essa compreensão me recai somente hoje, trazendo um tipo de libertação inesperada.

Inesperado. É assim que posso definir todo o tempo que tenho passado com ele. Não que eu não acreditasse em sua capacidade de me fazer feliz, é só que, tenho me surpreendido positivamente com as versões de nós mesmos que tenho encontrado. A gente tem se conhecido em vários níveis, tem  se experimentado, tem se testado, nem sempre pacificamente. Todo período de ajustes traz estranhamento mas, curiosamente, o nosso encaixe imperfeito tem sido prazeroso de ajustar. Hoje, ele tem a melhor versão de mim. E eu o disse. É como se até aqui eu tivesse sido uma versão modificada de mim mesma, pronta para agradar quem quer que estivesse ao meu lado. A versão cinematográfica cheia de cortes do diretor para agradar a um público específico e conseguir um bom desempenho nas salas de cinema. Hoje ele tem minha versão sem cortes. Se será o suficiente, só o tempo dirá. É perceptível que ele tem se dedicado a assistir essa versão com cuidado e carinho. Talvez ele até a ame e queira adicioná-la a seus favoritos. Talvez já o tenha feito e não me dei conta. Não sei se ele sabe, mas é o meu espectador favorito de todos. Aquele que faço sempre questão de ter por perto em cada cena.