Nossa relação nunca foi fácil. Mesmo agora, depois de tantos anos, e no ano que farão 7 anos de sua partida, muitas coisas ainda são difíceis pra mim. É difícil pensar em nós, no tipo de relação que tínhamos, nas expectativas frustradas durante os anos, na falta de sabedoria pra saber desfazer os nós. Às vezes eu me pego pensando em como foi difícil te entender e te aceitar por anos, digo, sobre a parte difícil. Sobre o vício, a resistência em querer se tratar. Fora isso, havia sim muita grosseria e incompreensão, mas eu costumava resumir tudo ao álcool. Quando eu penso sobre o seu jeito, sobre o que eu me lembro dele, sempre acho que eu puxei mais a você do que percebia.
Estando onde estou hoje, tentando me consertar por dentro, me sentindo vulnerável mentalmente à vícios, hábitos não saudáveis, sendo visitada por desejos suicidas ou quase, eu percebo que me aproximei de você, de alguma forma. Seus comportamentos autodestrutivos te levaram tudo, em determinado ponto de sua vida você perdeu tudo, ou quase tudo, que te importava. E eu percebo que tenho medo, sabe? Medo de chegar a esse ponto. Medo porque, em vez de usar o seu mau exemplo como algo a ser evitado, eu sinto como se nós dois nos aproximássemos sempre que minha mente passeia por lugares limítrofes. Para chegar ao ponto em que você chegou, eu imagino que você soltou a corda do barco muito cedo. Depois foi só afundar e esperar o corpo parar de reagir... Eu não quero isso pra mim. Embora às vezes sinta esses desejos maléficos de desistir de tudo.
O que eu diria para você hoje? Eu não sei ao certo... Eu desconfio que algumas barreiras seriam abaixadas. Eu tenho me curado um pouco dessa estranheza que tínhamos em comum, de não querer muita proximidade física, abraças as pessoas. Será que as coisas poderiam ter sido diferentes se eu fosse uma filha mais carinhosa? Não. O problema nunca foi esse. Um dia alguém me disse que, por mais que eu te amasse, e por mais que eu demonstrasse isso, não seria o suficiente. Porque você não tem amor próprio. E o amor de ninguém seria suficiente pra cobrir esse buraco. Para mim fez todo o sentido. A pessoa, que não te conheceu, ela me pareceu a mais lúcida de todas, ao me fazer perceber que você era um cara depressivo e sem amor próprio. E, mais uma vez, me percebo muito próxima de você nesse aspecto.
Relendo textos antigos e cartas póstumas... Percebo que muito do que sentia ficou. Em relação a saudade, em relação ao saudosismo, às lembranças, à consciência pesada... Eu também sempre soube que me parecia com você em certos aspectos. Mas acho que isso de agora é uma coisa nova, esse medo de que tenhamos destinos iguais. De que eu me permita abraçar pela solidão, e não pelas pessoas, e me envolva em labirintos dos quais não consiga sair, nem com ajuda externa.
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pega leve.
sou sensível.