sábado, 24 de dezembro de 2016

Cheguei aos 24.
São mais de duas décadas vividas... Eu consegui chegar aqui. Sempre me pareceu óbvio que eu fosse conseguir, como qualquer pessoa normal, envelhecer, crescer, viver até os 90 anos. O que nunca me ficou muito claro foi o caminho que eu teria que percorrer nem onde eu estaria quando eu chegasse a essa idade. Cheguei aqui como um gato assustado que veio driblando todas as confusões da rua, colecionando marcas e cicatrizes pra lembrar de não voltar em certos lugares. Com medo de qualquer pessoa que venha e ofereça abrigo, comida, proteção. Cheguei um tanto inquieta, atrás de mudanças, mas ao mesmo tempo tão cansada. Fiquei por aqui, me escorei num canto, durmo, acordo, me alimento, e todo dia agradeço por ainda estar aqui, por estar viva, por nada ter me atingido. Estou tão ocupada sobrevivendo que não me sobra tempo pra curtir o momento ou fazer planos pra um futuro melhor. 
Parece horrível, eu sei. Mas quando eu olho pra trás, eu percebo que foi uma espécie de milagre que tenha feito esse gato assustado chegar até aqui. Sempre tive instintos de autoproteção muito fortes, mas nem isso pode impedir que a gente se machuque durante o caminho, há coisas inevitáveis. Esse gato tem tanto medo do maltrato dos seres humanos, dos carros que não vêem e passam por cima e daqueles que vêem mas passam mesmo assim, que aprendeu a atacar antes de ser atacado. Mas, se puder passar silencioso e desapercebido, ainda prefere. E foge. Pra sobreviver. Foge antes mesmo de identificar se o terreno está seguro ou não, passa correndo antes mesmo de haver motivos, para que assim possa se proteger, seja lá do que for que está por vir, seja lá se realmente algo está vindo em sua direção.
Sei que a analogia do gato assustado não é das melhores, mas é a primeira que veio à cabeça, e pensando bem, agora se encaixa perfeitamente com o misto de sensações que ficaram aqui dentro ao trazer a tona tantas coisas relacionadas a essa data.
Esse gato precisa de um lar. E com isso eu quero dizer segurança, abrigo, carinho, comida, proteção. Porém, não há coragem o suficiente para deixar de lado os traumas e os medos que ficaram dos outros lares e das ruas. Das brigas com os outros gatos, das pessoas que não sabiam o que queriam e fizeram dele, com o perdão do trocadilho pobre, de gato e sapato. No fundo ele é e sente que sempre será somente um gato medroso, que envelhece sem muitas perspectivas, e tem como objetivo principal de vida sobreviver.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Hoje eu concluí um ciclo. Ou assim deveria ter sido. Eu ainda não consegui posicionar em um lugar adequado os últimos quatro meses que passaram. Tentando não analisar pelas minhas expectativas frustradas mas sim pela lente de autoreflexão, da autoafirmação, do autodescobrimento. Ter analisado a minha bagagem durante esse tempo me fez perceber, principalmente, que:
- viver só é pesado para mim porque eu carrego mais coisas que deveria;
- todo mundo deve deixar coisas pelo caminho, sem medo de achar que precisará delas depois;
- a minha bagagem é pesada o suficiente para que eu não a ignore diante dos outros;
- é importante que eu dedique um tempo a analisar as coisas que eu venho acumulando, ninguém vai se importar com isso a não ser eu;
- eu e minha bagagem somos mais importantes do que a ideia que os outros tem sobre nós.
Eu estou disposta a começar mais um ciclo... ou seria dar continuidade? 
O que importa é que eu estou disposta. Queria começar 2017 com o coração sorrindo e a alma tranquila. Veremos o que acontece.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Bem, pra começar, eu não sei porque eu quis escrever esse texto. Quer dizer, de praxe, há várias coisas me incomodando ao mesmo tempo. Talvez seja somente uma tentativa de entendê-las. Bingo.
Primeiro eu quero dizer que eu não estou num dos melhores momentos da minha vida. Não sou realizada profissionalmente, estou sarando minhas feridas emocionais a passos de tartaruga e não consigo seguir minhas metas.Como conseguiria? Pra falar a verdade, eu não sei mesmo se eu tenho metas verdadeiras, e isso me deixa bem triste, só de pensar. 
É óbvio que eu ainda tenho sonhos grandiosos, mas quando me permito analisá-los eu percebo que a minha dificuldade em me encontrar polui a minha visão sobre o futuro. Tudo parece tão... Sem sentido. Sem cor, sem motivos fortes. Eu sinto como se durante toda a minha vida eu tivesse sido uma criança precoce, com problemas de sociabilização, porém muito focada naquilo que queria, em não abrir mão de certas coisas. Hoje me sinto mais criança como nunca. Não tenho tantos problemas de sociabilização, mas minha cabeça anda desgraçada, eu sinto menos vontades do que antes e um incômodo quase físico por estar onde estou. Por não fazer desse incômodo um ímpeto pra mudança. Eu estou fechada. A minha alma anseia por mudanças, mas o meu corpo se recusa a abrir. Dias perigosos esses nos quais não existem consenso entre alma e corpo.
Sinto que eu talvez esteja sem raízes no momento. Sem coisas com as quais me importar, sem algo que valha a pena estar vivendo. E isso tem me deixado um pouco deprimida, sim, confesso. Não nasci para ter o "espírito livre", eu nasci para "ter um plano". Talvez a culpa dessas cargas pesadas seja dessas minhas expectativas de que eu fosse uma pessoa diferente e estivesse fazendo outras coisas no momento. Como sempre, a falta da autoaceitação me trazendo desgraças.
Não posso fingir que não quero chorar enquanto escrevo agora. Pelo amor de Deus, se eu for mais sincera comigo mesma eu vou me tornar uma pessoa extremamente melodramática e digna de pena, tudo que eu não quero nesse momento. 

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Eu deveria ter aproveitado o sentimento pós sessão de ontem para escrever um texto bom/otimista, porém não menos realista sobre mim. Mas, infelizmente, quando a inspiração resolveu flertar comigo, eu não tinha um papel ao meu alcance e acabei perdendo o ímpeto e a vontade singular que eu estava experimentando naquele momento.
Foi a primeira vez que saí do consultório com uma sensação de "leveza". Pela primeira vez eu não somente desabafei sobre meus problemas e preocupações, alguma coisa pequena, muito pequena mesmo, dentro de mim sorriu e disse que poderia haver uma mudança significativa em mim. Mas já é alguma coisa.
Eu e a psicóloga conversávamos sobre a minha autoestima. Era eu quem falava, na verdade, ela somente fazia observações esporadicamente e me estimulava a concluir o raciocínio que eu queria abandonar em certo momento. Essa vontade sempre aparece, quando eu tento externar minhas viagens mentais, parece que eu não consigo expor facilmente e na rapidez exigida. Mas venho melhorando. A minha mente não pára, ela está sempre pensando até no que não deveria. Às vezes me fazendo crer em coisas que não existem e me iludindo com questões que poderiam ser, mas não são. Mas vamos deixar esses mecanismos para um outro texto, hoje quero falar sobre aquela sessão na qual, num momento não tão raro de lucidez mental, eu me senti bem.
De repente eu me vi falando sobre a pessoa que eu tenho o potencial de ser. Aquela pessoa que às vezes se manifesta em pequenas coisas, mas que na maioria das vezes encontra-se trancafiada por meus medos e paranoias. A questão é que eu poderia ser uma pessoa fantástica. E o pior (ou melhor) é que hoje em dia eu consigo enxergar fragmentos dessa pessoa em mim. Então sim, talvez no fundo eu seja muito melhor do que penso. Talvez as pessoas estejam certas ou eu esteja cansada demais de tentar convencê-las do oposto. Talvez eu mesma esteja cansada de ver somente o oposto em mim.
Então eu externalizei um pouco do meu pensamento:
"Eu sinto que eu poderia ser uma pessoa fantástica"
E ela sorriu, me encorajando a continuar: "Como seria uma pessoa fantástica?"
Me obriguei a pensar nisso. Me vi destrinchando um tipo "ideal" de pessoa fantástica. Ela me interrompeu:
"Como você se vê sendo fantástica? Como seria a Andreza fantástica?"
"Seria alguém que aceita seus defeitos, enxerga suas qualidades e sabe que a sua opinião sobre si mesma é mais importante que a dos outros. Alguém que, antes de tudo, se basta."
Ou algo assim. Essa é uma das certezas mais inabaláveis que tenho, são esses os principais obstáculos a superar. Mas, de alguma forma, acendeu uma luz, mesmo que pequena, de que, em essência, eu sou uma pessoa fantástica. Ainda não é o suficiente, eu ainda reflito somente fragmentos do que poderia ser uma totalidade, mas saber que eu possuo o potencial, ter enfim essa consciência, me dá um alívio que não sei explicar. A luz é fraca, mas já é grande coisa para a minha escuridão.
Comentei com a psicóloga. Ela sorriu e disse que concordava comigo. Eu queria mesmo era que ela me desse uma indicação, uma fórmula para achar o caminho, como sempre. E, como sempre, isso não funciona dessa forma. Mas até lá eu espero que eu me apaixone de verdade por mim. E consiga me situar. A pessoa fantástica idealizada por mim não é tão diferente do que sou, ela sou eu mais vezes, ela sou eu sem amarras. Uma versão mais leve e verdadeira da pessoa que eu já sou. 
Já não sei mais se faz sentido o que estou argumentando, nem sei se me importo também. A única coisa que sei é que hoje eu consigo enxergar que eu ainda não cheguei onde queria, mas já sou melhor do que fui um dia. E eu sinto se aproximar o dia em que eu sentirei muito orgulho de mim.

domingo, 18 de setembro de 2016

Sem textos novos. Não que eu não ande rabiscando uma ou outra coisa em meu caderno de anotações durante meu intervalo no trabalho... Mas nada que valha realmente a pena guardar aqui. Eu até arranco a folha, levo para casa sã e salva, dobro e coloco dentro de um caderno que eu venho negligenciando há meses. Nada daquilo soa tão brilhantemente escrito a ponto de eu querer externalizar para o mundo... Pensando bem, boa parte de meus textos não foram feitos com essa intenção, muito menos despertaram esse desejo. Porém, antes, o próprio ato de escrever costumava bastar.

sábado, 14 de maio de 2016

Seria errado pedir pra ir embora?
Quão perigoso seria tentar saltar desse trem? Desconheço a velocidade, desconheço o meu destino... Estas são as principais dúvidas responsáveis por me deixar quieta, no banco. Há dias em que eu não suporto nem olhar pela janela, parece ter sempre um nevoeiro lá fora... Nada me parece familiar mas, ao mesmo tempo, eu quase que sinto a sensação de desconforto palpável, que me acompanha desde que eu passei a ter a consciência de minha existência. Não há mais expectativas quanto ao destino... Não há mais ânimo para conversar com aos companheiros de viagem ou para conhecer o maquinista. Quanto a este há sim uma espécie de curiosidade... Seguida da sensação de que ele acha que de alguma forma eu poderei atrapalhar o processo. E nada mais.
Eu deveria ser muito grata por estar a bordo desse trem, é o que me diz a razão. Mas não posso ignorar os enjôos e aquela sensação de sufoco que estão me acompanhando nessa viagem. São eles que dirigem meus pensamentos agora. E eu não tenho mais como evitar essas vozes. Só me resta pedir que elas nunca assumam o comando (ou será que, no fundo, seria esse o meu maior desejo?).

segunda-feira, 14 de março de 2016

Respira fundo que uma hora passa, eles disseram. Disseram também pra eu me acostumar, que é uma coisa que todo mundo sente de vez em quando. Disseram que era normal, mas eu não conseguia aceitar como comum. Não parecia certo aquilo ser normal, entende? Não parecia certo ter que engolir tanta coisa. Pediram pra eu falar baixo, pois não queriam preocupar ninguém. Quando eu estava quase sussurrando, então pediram para eu parar de falar. Fiz uma última pergunta, já não suportando tantas reprimendas, então me mandaram fingir. Não responderam. Me mandaram fingir. E sabe qual o pior? Eu tentei... E consegui. E me acostumei a falar sobre coisas de uma maneira que eu não acreditava. Depois percebi que era exatamente o que as pessoas queriam ouvir. Me perguntaram qual o segredo e eu não soube responder. Disse apenas que era o certo, cabeças acenaram concordando. Por dentro continuei a negar tudo e depois pensei bastante sobre o dia, antes de dormir. Mas não tive nenhuma resposta. Nem sono.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Eu carrego culpas que não deveriam ser minhas. Mas elas estão aqui. Elas nunca se vão de verdade, ficam adormecidas pra depois acordar como uma besta sangrenta, perigosa, faminta, disposta a levar tudo e todos que vê pela frente. A minha sorte é que é no silêncio das minhas madrugadas que a besta acorda na maioria das vezes. É quando eu paro pra prestar atenção ao que estou sentindo, sobretudo as faltas, os anseios, os pedaços de meu coração que foram remendados mas de vez em quando arrebentam. E lá vou eu costurar de novo antes que alguém veja.
A culpa é um monstro que eu não deveria criar. Mas não sei como faz pra abrir a porta, colocar ele na rua e ignorar sua existência. Eu não consigo esquecer. Todos os dias quando acordo e fico dividida entre agradecer a Deus por mais um dia ou resmungar sob o efeito depressivo da manhã sobre como eu odeio fazer isso, percebo que a culpa ela está secretamente regendo minhas ações. A culpa me faz pensar cada vez mais que eu me estimo cada vez menos. Estou sempre me culpando por coisas que não fiz, pessoas que não salvei, projetos que abandonei, quando na verdade deveria estar enxergando as vezes em que eu fui abandonada. Estou sempre me cobrando as melhores posturas, as atitudes mais sóbrias, e me sinto cada vez mais só quando percebo que ninguém percebe o meu esforço. Eu faço isso pra os outros ou pra mim mesma, afinal? Se fosse pra mim, eu não deveria estar com a consciência livre de culpas desnecessárias? Quando eu começarei a fazer as coisas por mim, em primeiro lugar? Sim, a culpa disso é toda minha também.