segunda-feira, 26 de outubro de 2020
Estou me guardando para quando a pandemia passar
quinta-feira, 8 de outubro de 2020
Que calor faz em minha cidade agora. No país todo, ouvi dizer. O calor me entristece um pouco, enche o meu corpo de suor, enche aqui dentro de reclamações. Sair na rua sob o sol é um desafio inevitável. Ao menos para mim, que preciso trabalhar. Aliás, eu nunca vou entender como há pessoas escolhendo estar nas ruas com esse clima e em plena pandemia. Estou cansada de tentar decifrá-las. Mudei o ato para "tentar coexistir na mesma cidade sem surtar". Nem sempre funciona.
Eu realmente não sei qual foi a minha pretensão ao começar a escrever hoje. Talvez apenas saudades de marcar coerentemente as linhas de uma folha inteirinha, pertencentes a um caderno novo que mal teve a sua chance de uso. Parece até que foi em outra vida quando o comprei e me matriculei em mais um período da faculdade. Talvez tenha sido mesmo parte de uma outra realidade. Talvez eu volte mesmo uma outra pessoa. Se melhor ou pior, só o tempo dirá.
Vejo o mundo se forçando a funcionar sob uma falsa crença de que um "novo normal" é seguro. Pessoas adicionaram a suas rotinas o uso do álcool 70º e das máscaras com a ilusão de que é necessário e suficiente nesse momento. Há um vírus imprevisível para o qual ainda não há vacina e que já levou milhões a óbito. Ele pode estar em qualquer lugar, usando qualquer pessoa. Se escolho sair de casa nesse momento para cumprir coisas não essenciais, posso dizer que estou brincando de "roleta-russa", certo?
Antes da pandemia eu já não estava bem. Os pensamentos que me cercavam tinham um cheiro mórbido. Ainda posso senti-los. Se engana quem pensa ser fácil se livrar desses odores. Tem dias que é mais fácil fingir que eles não existem, mas na maioria das vezes eles são como as mosquinhas volantes que eu tenho na visão. Não as percebo sempre, porém sei que estão ali. Baste olhar em "ponto morto" e lá vem elas.
Tenho várias metáforas sobre a (ausência de) vontade de viver - fios que se partem, chamas que se apagam, olhos que se fecham, membros que se soltam... Dá para pincelar poeticamente qualquer dor e qualquer sentimento. Lembro de como essas metáforas eram comuns quando eu não queria admitir abertamente em meus textos sobre a vontade de morrer. Talvez pelo medo de parecer alarmista, ou uma carta de despedida. O medo de que uma coisa leve à outra e assim cheguemos a atos irreversíveis. Hoje eu ainda acho que essa vontade não está ligada a cometer atos suicidas. A vontade de não existir vem do desejo profundo de não sentir mais. E eu verdadeiramente acredito que isso será possível apenas quando não houver mais ar em meus pulmões e oxigênio no cérebro.
Em terapia estou aprendendo que é preciso ressignificar a vida. As dores. Os traumas. Tentando acolher a criança ferida aqui dentro ao invés de silenciar e feri-la ainda mais. Bonito de organizar no papel. Na vida real? Caótico.