como foi que a minha vida se tornou essa coisa claustrofóbica eu não sei dizer
às vezes acordo sem ar. e faz muito calor.
a temperatura tem aumentado catastroficamente. a da cidade, do país, do planeta. acordo envolvida pelo vento morno de um ventilador em estado terminal.
estou cercada de fotos.
outrora um mural de lembranças sobre dias felizes, me lembrando de sonhar e sorrir, me lembrando que posso ansiar por mais
hoje um memorial fúnebre
por mais que anseie, não há caminho feliz a percorrer que me leve até o desejado, no final
todas as promessas que fiz ao sorriso convertido em lágrimas, nenhuma delas, consegui cumprir.
no fundo sempre soube que não estava ao meu alcance mas quis fingir um pouco de controle para ter a calma que só uma situação de falsa segurança trás. o meu falso sorriso mascarou nossa tristeza para ela dormir em paz
foi tudo passageiro, como previ. o sorriso trêmulo que dei, as palavras vazias de promessas impossíveis, as lágrimas que silenciaram, agora para sempre
a única eternidade que resta é a da sua ausência, da saudade, da partida precoce aos meus olhos, dos arrependimentos mil
a eternidade dessas lágrimas que nunca vão embora realmente, sendo às vezes minhas únicas companheiras no calor de meu quarto
já dentro do peito há uma aridez, um vazio, algo que foi queimado violentamente e nunca mais se recuperou. ainda não soube como habitar esse oco, pois não sou boa em ressignificar ou fazer nascer, mal sou boa em manter.
no ápice da crise, grito em meio a um eco, tentando ouvir algo de volta, um sinal de qualquer coisa que me convença de que há algo substancial por vir
mas tudo que tenho no momento é uma voz trêmula e as centelhas da tragédia ainda em meu rosto
dia após dia sangro mais um pouco, às vezes muito, às vezes estanca, às vezes o sangue corre livremente só para lembrar da vivacidade que restou. às vezes a lágrima também estanca e é nesse momento que me viro e me reviro, desisto de combater a agonia e abraço a crise.
ansiedade? não. saudade.
quando ela se foi, levou consigo parte de minhas motivações, e não pude fazer nada para substituir a tempo. ela, que só via as partes espinhosas e as vezes florescidas dos galhos, jamais iria entender o quão profundas eram essas raízes agora mortas
ela se foi e eu fiquei, mas fiquei sem direção e sem pilares fortes o bastante para querer ficar e reconstruir
sobrou a letargia, as faíscas de raiva, o conformismo, e a espera do fim