segunda-feira, 24 de abril de 2023

Eu pulei do trem

A vontade de pular apareceu quando ele ainda estava em movimento, mas só tive coragem de fazê-lo depois de uma colisão. Mais uma colisão. Os danos? Foram poucos. Na realidade, a forma como fui jogada apenas magoou algumas feridas não tão recentes. Aquelas que não conseguiram cicatrizar, pois sempre havia uma batida, um acidente, algo no meio do caminho para reabrir. Desci meio confusa no meio dos trilhos, ainda cambaleando, pensando sobre a direção para a qual seguir. Apenas uma certeza em mente: esse trem eu não pego mais.

Andei sozinha por um tempo, me desfazendo daqueles nós e daquelas amarras que costumava usar para amaciar as quedas e os solavancos do trem. Pensando em como eu me esforcei pra ser vista, em vez de esmagada, e no quão eu mesma passei por cima de mim para tentar me adequar àqueles trechos difíceis. O que eu estava pensando? Onde eu iria parar? Definitivamente esse ritmo não é para mim. Meu mecanismo interno está cada vez mais perto de falhar, de parar, de estancar no meio do caminho. Pulei antes que fosse tarde demais. Pulei antes que alguém me empurrasse desse vagão (como aconteceu pouco tempo atrás e eu ainda me lembro).

Se alguém percebeu a minha falta no vagão, não demonstrou. Achei feliz que ninguém veio atrás de mim, isso tornaria as decisões muito mais fáceis de aceitar. 

Por muito tempo achei que eu fosse uma passageira do vagão. Mas comecei a perceber que, na realidade, eu sou uma mala. Sabe aquelas bagagens cheias de coisas dentro, muitas das quais você não pode se livrar, pesada, sem rodinhas, com necessidade de atenção e um peso desagradável? Eu estava sendo essa mala. Eu achei que estava lá para curtir a viagem, de igual para igual, mas, no fim das contas, eu deveria ter descido em outra estação. Eu tinha um prazo de validade, "você deve seguir com este bilhete até essa estação, daqui em diante, você não pode avançar" - um bilheteiro tentou me alertar, certa vez, mas eu ignorei, e somente... Fui. Afinal, eu gostava do balanço desse trem.

Agora preciso recalcular minha rota. Em certo ponto dessa viagem eu me perdi de mim. Eu repeti comportamentos que desencadearam um retorno desagradável ao passado, justamente quando eu tinha prometido a todos, e especialmente a mim, que não deixaria mais acontecer. Mas assim fui. Perdendo umas peças pelo caminho, enquanto ouvia que estava fazendo e entendendo tudo errado, o trem chacoalhava e eu ria achando que era uma espécie de aventura. Não era. Não havia aventura para mim. Havia um itinerário pré-estabelecido o qual pude seguir até certo ponto, e então depois eu quis forçar a continuar acompanhando, até quase ser tarde demais. Passada toda a adrenalina, esfriando a carne, o sangue, o suor, então consigo perceber que inevitavelmente me machuquei. Ao menos imagino que não tenha sido privilégio meu.

Mas, vamos lá. Avancemos. A minha mochila continua cheia. Tenho muito o que carregar e despejar por aí. As coisas que aprendi estando à bordo deste trem ficarão pra sempre dentro dessa bagagem. E serão úteis algum dia, tenho certeza que sim. Por enquanto, quero caminhar. Redescobrir. Correr. Respirar. No momento o sentimento de que eu devo evitar viagens de trem parece ser eterno, ainda que eu não descarte a possibilidade de me ver no futuro buscando passagens para outros itinerários, em outras estações.