sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

25 fucking anos...

Dá pra acreditar nessa merda? eu já completei um quarto de um século. Definitivamente não tô tão ruim quanto parece, mas também não me vejo sendo algo que eu olharia quando criança e pensaria: "uau, queria ser ela".

Tô mais praqueles personagens de desenho animado que não é muito marcante positivamente, tipo o irmão mais velho do protagonista sabe? O chato que se formou, tem um emprego que não era o que queria e vive reclamando e se virando nos 30 pra pagar as contas, etc enquanto reclama dos pirralhos que fazem barulho.

25 anos e eu tinha escrito um textinho todo florido sobre autoestima e amar a si mesma em primeiro lugar e tudo que consegui foi postar uma foto minha no Instagram olhando meu reflexo no espelho e legendei "não acredito que nos aguentamos ate os 25 miga". Quem leu pode até ter achado engraçadinho mas nunca vai entender a sinceridade monstra dessa frase, a intensidade. Porque, puta que pariu, eu tinha tudo pra dar muito errado. Pra começar, eu ainda não me aguento às vezes, ainda acho complicado lidar com certas fases daquela pessoa que eu vejo no espelho. Posso resumir nosso relacionamento como "complicado", cheio de altos e baixos, tem, tem horas que a única vontade que dá é de ir a uma sessão do descarrego ver se consigo me livrar de certas coisas.

Ser amiga de mim mesma dá trabalho às vezes. Eu meio que absorvi as coisas ao redor de forma a ser muito dura e injusta comigo mesma. Fui adulta e "madura" na infância e adolescência, quando deveria ter me permitido errar e aprender com isso. Fui coagida a olhar as minhas partes mais feias e achar que eu não teria jeito e isso seria um fardo a carregar. Fui influenciada a achar sempre um problema na minha aparência ou no meu jeito de ser, e, até hoje, tenho dificuldades em desvincular do olhar pessimista sobre mim e as coisas ao redor. Mas, apesar de tudo, eu vejo que aos trancos e barrancos eu aprendi que não há problemas em ser e fazer uma infinidade de coisas que antes me tiravam o ar, o sono, a paz.

E a julgar pela quantidade de vezes que me protejo e me defendo, acho que enfim aprendi a gostar de mim sim. E como tudo na vida, eu não amo e idolatro 100%, ao ponto de não enxergar defeitos, porém, hoje em dia e após muita fase trash e auto repulsão, eu os acho muito aceitáveis sim. Eu sou humana, afinal, suscetível a cair ou acertar.  O desafio é se desfazer a rigidez e aceitar a queda livre, sem medo de quebrar os ossos. Hoje eu entendo que tenho o poder de melhorar, piorar, ou não mexer na minha situação. Falta somente mais coragem pra se arriscar e viver plenamente tudo que mereço.

Bem, um brinde à pessoa do espelho. Não é a melhor ou a pior que já conheci, mas é aquela que tem me ajudado a sarar as feridas, levantar das quedas, aquela que tem me permitido viver emoções nunca antes imaginadas. A que me defende e protege de modo a me fazer achar que, uau, eu valho a pena sim. Um brinde a essa pessoa complicada, porém apaixonante, que eu sei (às vezes com menos convicção) que me tornei.
Saúde!

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Caleidoscópio

Sempre me julguei uma alma solitária. Dificuldades para fazer amigos, se abrir, encontrar conforto nas pessoas e nas palavras. Família fragilizada, falta de aptidão social. Hoje essa percepção ainda existe porém não é tão fechada quanto sempre julguei. Um hora as concepções caem por terra, e eu me pego com a necessidade de me reinventar. Chame de sobrevivência ou adaptação, mas a minha vida está repleta de sensações que vem e vão. Nada permanece. Nada fica tanto. Hoje eu posso ser a alma mais feliz e risonha da mesa na companhia de meus amigos, enquanto bebemos e eu conto uma história divertida. E na mesma noite ter insônia ao colocar a cabeça no travesseiro pensando sobre a solidão de meus dias e os dilemas corriqueiros. Sempre me julguei ser mais ou menos do que realmente sou,  caminho entre o 8 e o 80... demorei a enxergar que, de fato, sou e preciso ser várias ao mesmo tempo.

Em uma tarde sou profissional confusa e dedicada, lidando diariamente com as contradições do cotidiano e os demônios pessoais. Tudo ao mesmo tempo. Quando chego em casa assumo somente a forma de uma alma que anseia pelo silêncio e no escuro encontra conforto. Sou amiga e amante, caminhando entre as coisas belas e árduas das relações. Tento estar presente mesmo que distante em presença e emoções. Tento barganhar atenção com distância física e emocional. Estou sempre me equilibrando na linha tênue entre o amor próprio e o dar tudo de si pra fazer as coisas darem certo. Estou sempre tentando. Tenho um gosto doce e azedo na boca, minha capa é dura e de cores sóbrias, mas o recheio é uma calda colorida e bagunçada. Às vezes em apenas um dia eu me sinto um pouco de cada temperamento e emoção. Sou quem preciso ser, porém, ao fim do dia, de alguma forma, encontro a familiaridade do espelho. Ainda sou eu. Ainda me reconheço nos traumas e entregas. Sou aquilo que aprendi a ser e reagir.

Sou tudo e nada ao mesmo tempo, me sinto constantemente sobrecarregada e vazia. Leve e pesada, prestes a desaparecer numa queda livre ao núcleo da terra ou simplesmente após o espetar de uma agulha. Minha matéria é de terra e ar. Olhando pra dentro enxergo um caleidoscópio. Tudo é multifacetado. Quem olha de fora tem uma leitura só, pré determinada, superficial. Não imagina o que se agarra pelas raízes e cresce em contínuo emaranhado. Sequer tem ideias das várias cores e dos padrões que não param de se repetir e reinventar. É perturbador e consolador, saber que muito de mim insiste em ficar e uma outra parte se cria e alimenta a cada dia.