quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Cansei de tentar escrever textos para a compreensão alheia. Sempre que me proponho a escrever sobre isso eu acabo nos clichês e frases feitas das quais tenho pavor. Então descreverei somente como eu realmente vejo, como eu enxergo esses conflitos que me acompanham a tanto tempo. Todos os dias. Em diversas situações. Se fecho os olhos, vejo quase que claramente os dois rostos, são a mesma pessoa ou apenas duas faces da mesma moeda. Se trata de um caso quase que de Jekyll e Hyde. Em essência, uma parte complementa a outra, e sem ela não o é por inteira.

Há duas mulheres brigando. Às vezes são meninas, às vezes adolescentes, mas sempre duas fêmeas em conflito. Um lado parece sempre querer brigar, provocar, agredir, e o outro nem sempre sabe levantar as defesas. Uma delas tem plena convicção de que a outra é o ser mais patético, fraco e vergonhoso do mundo. A outra tenta enfrentá-la algumas vezes, mas em sua maioria ela somente aceita o que ouve, e escolhe apanhar. Como se merecesse. Como se o ato de se erguer não fosse possível. Como se ela aceitasse esse destino violento e cruel de ser um saco de pancadas, até o dia que não lhe restarão mais suspiros ou gemidos de dor. A primeira é uma exímia lutadora. Está sempre em forma. Sequer parece humana, está sempre alerta, farejando medo, insegurança, se apossando dos erros para jogá-los diretamente na oponente. Ela sabe fazer isso com louvor. Em seu rosto há um sorriso maníaco e um brilho psicopata nos olhos de quem fere por prazer, de quem nasceu para infligir caos e agonia. De quem foi destinada a somente plantar sementes de destruição e de dúvidas sobre o que é bom. 

E não pense que ela se limita a uma lutadora. Ela também é muito boa com jogos mentais. Ela se aproveita da fraqueza e da falta de defesas da oponentes para sussurrar em seu ouvido palavras destrutivas de puro ódio. Ela não só as grita quando está ferindo, batendo, atacando a matéria, ela sabe argumentar de forma tão agressiva quanto. Às vezes penso que a outra se deixa apanhar porque prefere o castigo físico a ter que argumentar e ouvir coisas tão vis. Ou, pior. A segunda espera que todo o momento de dor, que toda surra, todos os golpes, alguma hora irão levá-la permanentemente embora. Então ela se entrega.

Às vezes acho que esta segunda mulher é um tanto quanto suicida. Ela se machuca sozinha, de propósito, abre cortes no próprio braço, na própria pele, quer materializar lâminas, facas, apenas materiais perfurocortantes e perigosos fazendo carinho em si. É como se ela quisesse se concentrar na dor para escapar da realidade, e por isso mesmo muitas vezes ela se entrega à primeira mulher. Sem nem mesmo precisar ouvir insultos, as provocações, a primeira se diverte muito apenas observando a segunda se automutilando, ela acha que é covardia demais, e isso é patético. Sempre que a segunda tem pensamentos autodestrutivos, a primeira se aproveita de sua guarda baixa, e a golpeia com força. E isso acontece com uma frequência absurda, digo, principalmente os pensamentos destrutivos.

A primeira mulher se acha mais realista. Talvez o seja, não posso contestar isso na maioria das vezes, porém é também o sinônimo de crueldade e veneno. A segunda está tão afundada em sua falta de afeição por si mesma que não percebe sua visão igualmente realista. Ela é aquela que chora muito mais do que deveria e tem colapsos nervosos frequentes, às vezes causados pela primeira, outras por pessoas alheias que nem mesmo tinham a intenção. Uma desequilibrada. Aliás, ambas são. Desequilibradas. Extremos opostos, um castigo, um fardo a se carregar. Se houvesse justiça e saúde nesse contexto, certamente elas se fundiriam, mas não antes de remodelar e podar algumas características.

Sempre imagino os textos de um jeito em minha mente e geralmente acabo me decepcionando ao tentar transpassá-los ao papel. Com este não foi diferente. Sem mais delongas, quero apenas concluir com o choque de que, o mais bizarro, o mais estranho e difícil de lidar nisso tudo, são com as marcas que ficam evidentes na realidade. Por meio de atitudes, pensamentos, sinais corporais, quem tiver a mesma visão que eu saberá facilmente identificar o pedido de socorro. Pois, sob minha própria pele, há essas evidências de um conflito não tão figurado assim. E ele está longe de acabar. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

pega leve.
sou sensível.