Sexta-feira à noite, ela veio de novo. E eu estava desprevenida, como sempre. Fui atingida em cheio. Comecei a sentir seu toque à noite, nem tão tarde. Sutil. Quente. Se espalhou pelo corpo e deixou a cabeça pesada no travesseiro, se meus pensamentos fossem líquidos, escorreriam pelas orelhas, olhos, ouvidos, até me afogar por dentro. Quando chega na boca, o gosto é ruim e quase permanente. Sexta-feira ela me abraçou, me cobriu inteira, me dominou pouco a pouco, até ficar cheia e sufocada, os olhos vazando antes mesmo que eu entendesse o porquê. O quarto de repente tinha a metade do tamanho, e o coração... O coração era como uma caixinha comprimida dentro do peito, cheia, pesada, prestes a estourar sabe-se lá quando. Não havia limites visíveis, isso ainda me apavora.
Se eu dormi, não sonhei. Nem descansei. Acordei com ela ainda ali, ao meu lado, querendo me oferecer coisas que eu sabia, embora lá no fundo, mas ainda assim sabia, eram ilusórias. As imagens passando pelos meus olhos antes mesmo de meu corpo querer acordar. Pensando bem, essa vontade não existiu. Senti-me letárgica com todo aquele peso em cima de mim. Me encolhi várias vezes e não senti passar, pois ela simplesmente decidiu ficar ali. Como um cobertor fofo e quente num dia frio, eu passei a não querer que ela fosse embora. Eu com ela sabia quem era, onde queria estar, sem ela eu não sabia de nada, estava jogada ao frio, vulnerável, em ambiente estranho. É curiosa essa familiaridade, quase mascara a angústia que existe por trás de tudo.
Veja bem, não é de todo ruim ficar com ela. É ruim ter de se explicar. À vida, ao mundo, às pessoas, nada disso muda em virtude da existência dela. E essa talvez seja uma das coisas que mais doem, durante a sua visita. Ela está aqui, mas tudo ao redor parece acontecer numa frequência que não faz sentido. A falta de lógica nas afirmações não importa mais, ser e estar é um peso, e a melhor forma de lidar com ele é deitar na cama, e esperar que algumas pedras rolem para o lado. Fechar os olhos dentro do abraço dela e torcer para que ela aperte de uma única vez, sem te dar tempo de refletir ou desistir.
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pega leve.
sou sensível.