Passando por momentos de ressignificado emocional, talvez? Não escrevo esperando pelo milagre da convicção, quero apenas registrar as últimas coisas.
Como o sonho que tive na madrugada da data que seria o aniversário da minha mãe. Um sonho no qual ela estava viva e eu pedia colo. Como se fosse meu eu criança ansiando pela mãe, como nunca fiz antes. Ontem no show de Legião Urbana pensei nesse momento de meu subconsciente, ao cantar aqueles versos já tão batidos "quero colo, vou fugir de casa, posso dormir aqui, com vocês?" No sonho eu literalmente pedi para dormir com a minha mãe. Eu, que até os 10 anos dormia com ela e minha irmã na mesma cama.
Eu acordei para trabalhar nesse 17 de agosto me sentindo tão... Incompleta. As lacunas em mim eram o vazio da saudade. O sonho me trouxe uma mãe realista, suas feições quase palpáveis. Cheguei a me acordar antes do despertador tocar, ainda estava escuro, e fechei os olhos com medo de coisas irreais à espreita em meu quarto. As coisas das quais tinha medo, no sonho, após ver um filme de terror. E por isso pedi colo, por medo.
Meu primeiro contato com Legião Urbana foram as fitas da minha mãe. Um dia eu estava com ela no centro do Recife, ainda bem pequena, ela parou um homem que estava vendendo "tapes", provavelmente piratas. Lembro que ela comprou algumas de Legião e, posteriormente, a chegada do microsystem em casa e do CD "Mais do Mesmo" foi o passo final de meu ritual de iniciação à banda. Ontem foi um show nostálgico e incrível.
Apesar de as músicas me tocarem pela identificação pessoal com os versos, foi impossível não direcionar alguns deles para ela, a "dona do mês de agosto" em meu subconsciente.
"Tenho andado distraído, impaciente e indeciso"
"Palavras são erros, e os erros são seus
Não quero lembrar que eu erro também..."
"Sempre precisei de um pouco de atenção
Acho que não sei quem sou
Só sei do que não gosto..."
"Todos os dias antes de dormir
Lembro e esqueço como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder..."
"Tudo é dor
E toda dor vem do desejo de não sentir dor..."
Nessas partes eu tive quase que uma catarse, mas era tudo sobre mim. Apenas eu e minhas confusões. Mas então veio a já mencionada "Pais e Filhos", cujo título já é uma forma de forçar a barra por si só. Até que foi leve. Só lembrei do meu sonho. Antes disso eu já havia sido estraçalhada por "Vento no Litoral" e "Por Enquanto".
"Dos nossos planos é que tenho mais saudades
Quando olhávamos juntos, na mesma direção
Aonde está você agora
Além de aqui, dentro de mim?"
E quando tentei respirar, foi como levantar de um mergulho e ser atingida por uma onda:
"Agimos certo sem querer
Foi só o tempo que errou
Vai ser difícil sem você
Porque você está comigo o tempo todo
E quando vejo o mar
Existe algo que diz
Que a vida continua e se entregar é uma bobagem...
Já que você não está aqui
O que posso fazer é cuidar de mim
Quero ser feliz ao menos
Lembra que o plano era ficarmos bem?"
E depois de me afogar bem aqui e sentir a visão embaçar pelos olhos marejados, houve o misto de sentimentos em "Por Enquanto", ainda que bem mais leve que antes. Mas não deixou de ser catártico. Se fosse o arranjo da versão de Cássia Eller talvez eu tivesse me afogado em mais memórias e lembranças. Mas, ainda assim... que merda é o luto, né? Que merda é a morte, né? Nada de "novo", nada "fantástico" ou extraordinário, que... merda. Que merda viver como se tivéssemos todo o tempo do mundo. O próprio cantor da música morreu jovem. Que merda.
Queria encerrar esse texto de forma bonita, mas não vou conseguir. Ainda estou revoltada por não poder compartilhar com minha mãe a experiência do show. E não quero saber do "espiritual", foda-se, eu queria o carnal. Como não consigo deixar de lado meu azedume, vou pegar emprestadas as palavras de Renato Russo mesmo.
"Nada mudou, mas eu sei que alguma coisa aconteceu, tá tudo assim, tão diferente
Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre
Sem saber que o 'pra sempre' sempre acaba?
Mas nada vai conseguir mudar o que ficou
Quando penso em alguém
Só penso em você..."
Te amo, mãe. Obrigada por tanto, mesmo agora. Um dia vou ficar bem.
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pega leve.
sou sensível.