Um fato talvez irônico sobre mim: tenho dificuldades de concluir coisas (curso de inglês, graduação de letras, cursinho pra concurso, academia, dieta, etc, geralmente tudo que começo porque preciso ou quero muito no momento), contudo, em se tratando de relacionamentos, tenho dificuldades em deixar ir. Geralmente eu vou até o ponto de desgaste, aquele no qual eu me encontro em frangalhos, já sem forças até pra manter a civilidade. Porém, venho tentando aprender a enxergar quando o "não" parece ser mais saudável que o "sim". E, para ser justa, o ponto final de minhas últimas relações partiu de mim.
Olhando em retrospecto, percebo que em todas tinha algo em comum: a dificuldade em ser enxergada. Digo isso do ponto de vista de quem se viu tentando mudar quem era, se ajustar ao outro em vários aspectos, para no fim ouvir e perceber que o esforço foi inútil. No fundo, a aceitação total é um mito, e sempre um lado mais fraco do arranjo vai ser aquele que se ajusta, que absorve, que se anula em função de manter o equilíbrio da relação. Isso vai acontecendo de forma tão sutil, em coisas tão pequenas, até ter o poder de se tornar apocalíptico.
Quantas queixas silenciadas... Pela "falta de sentido". O sentido que na hora deveria ter sido o tato alheio. Não teve, apenas uma pseudoaceitação. As particularidades se colidindo, sem conversa, sem encaixe. E como machuca fazer de tudo para mudar pontos até então cruciais, e ainda assim não conseguir diminuir as queixas recorrentes sobre algo que você não concorda, mas, ainda assim, está tentando. Não é tudo sobre tentar? Costumava ser. Até chegar a um ponto em que você não consegue mais ignorar os sinais de alerta apontado o início do fim. Se as peças não se encaixam, eu deveria parar de forçar, de cortar e remendar numa gambiarra.
Ando lembrando muito um comportamento patológico da minha infância, que diz respeito a ter guardado sempre todos os conflitos aqui dentro por não encontrar em meus cuidadores o apoio e a compreensão necessária. Ou estava sempre errada, ou não sabia o que estava dizendo. Eu precisava ter mais idade, mais maturidade, mais eloquência para convencê-los de que havia razão para estar machucada, eles não conseguiam ver as feridas recém abertas. Adentrei à adolescência sendo a falsa imagem da pessoa com o mínimo de problemas e conflitos, sendo que me acostumei a resolvê-los chorando sozinha e escrevendo cartas e textos para ninguém. Tudo em mim gritava e grita que preciso ser vista, amada, respeitada, cuidada... Eu não tinha nem dez por cento de minhas convicções de hoje. Tudo que eu tinha era a ciência de que eu deveria tentar conseguir a aprovação do externo para ser internamente validada. Até hoje luto contra isso.
Percebo o porquê de gostar muito de começos. Principalmente se tratando de relações. As coisas são sempre tão novas, o frio na barriga, as borboletas no estômago, as expectativas, as primeiras descobertas juntos, o construir do coletivo, a disponibilidade para mudar... O encantamento que você é capaz de causar no outro, nas mínimas coisas. E geralmente fico tão abobada que acabo esquecendo de observar sinais importantes. Via de regra, eles já estão lá. São coisas que no momento parecem pequenas, diante da grande emoção que é estar começando uma relação a dois (sim, sou emocionada), mas após os primeiros desentendimentos, as primeiras brigas, se você voltar ao início vai perceber que os sinais já estavam lá. As bandeiras vermelhas são tingidas de branco pela paixão, pela atração, pela emoção.
Por onde andava a parte encantada? Desencantou-se com a rotina. A parte apaixonada? Precisava de um quarto escuro e uma hora propícia para se revelar. Onde estavam as palavras e os toques outrora costumeiros, foram substituídos por repúdio ou mornidão? Quis voltar a ser como no começo, mas já era de conhecimento geral toda a minha atmosfera, os cheiros, toques, timbres, e nada que eu fizesse poderia trazer novamente o encanto da novidade, de como eram bons aqueles dias. Talvez eu não sirva para o costume, para o ordinário. Talvez eu seja extraordinária no começo e, como todas as novidades, perca a graça quando menos se espera.
Por que eu sempre me envolvo com pessoas de difícil acesso emocional, cuja aprovação passa a ser meu maior objetivo? Por que eu insisto mais do que deveria em busca dessa aprovação? Porque é tudo um reflexo do que sou. De minha falta de senso de proteção. De minha falta de respeito a mim mesma. Isso e outras coisas que ainda serão elaboradas com ajuda profissional, tenho ciência de.
Os momentos felizes simplesmente acabam não sendo o suficiente para sustentar uma relação na qual estou sempre buscando agradar e ser validada - um erro crasso, pois não deveria depender de ninguém para ter isso. Talvez meus problemas de autoestima me façam persistir na mesma medida em que me frustro ao perceber que aquilo que preciso nunca vai vir do outro. As queixas se repetem, voltamos sempre aos mesmos pontos de choque, de conflito. O ponto de partida e o ponto final sempre acabam aqui dentro. Meu universo particular de colisão.
E no fim das contas, seria uma repetição de cena? Seria eu a autora que usa a mesma fórmula em todas as obras, caminhando inevitavelmente para o mesmo final?
Eu estou cansada. Exausta, na verdade. Chego a um ponto em que até escrever me cansa. Sim, esse gesto que parece simplório mas que funcionava como um cano de escape. Tenho tentado as sessões de terapia semanais, exercícios de respiração, escapismo pesado com a ficção, mas, não adianta, o sufoco sempre aparece. Só me sinto carregando tanto no momento, e olhe que já tirei algumas coisas da mochila. Eu queria me livrar mesmo era dessa sensação de que preciso me justificar. De que eu devo palavras, conversas, raciocínios, já me bastam os diálogos internos. E as tentativas fracassadas de diálogos externos.
Estou exausta de ter que desfazer as armadilhas mentais e emocionais, apontando que eu nunca, jamais terei ou serei aquilo que quero. De que eu não mereço mais, nunca conseguirei alcançar a paz que almejo, sozinha ou acompanhada, eu queria esganar essa voz. Eu queria esganar o amor. Eu queria matar com minhas próprias mãos todas as lembranças das vezes que me senti insuficiente somente porque não tive suporte ou aprovação. Eu queria poder assassinar as vontades que me cerceiam, pois estão cada vez mais distantes das condições materiais para realizá-las.
Tenho achado falar de amor algo patético, mas meio vicioso. Talvez pela banalização não se torne nada demais. A convicção de que só amor não basta sempre me parece crua e cruel. Mas essa é a realidade, longe e oposta aos ideais românticos e perigosos. Só amor não basta, é preciso que as linguagens de amor se conversem entre si. Só amor não basta, é preciso respeito e admiração ao jeito de outrem. Só amor não basta, o que sustenta é a forma de se relacionar. Se o outro te oferece amor, mas você permanece com o sentimento da solidão e da carência, ou você é uma criatura desprezivelmente inalcançável, ou talvez o que o outro chame de amor, não o seja, de fato. Talvez o trem do amor partiu da estação há um tempo e vocês entraram em um outro, cujo nome ainda não sabem, meio semelhante, mas insuficiente para continuar. Se vida é essa coisa cheia de estradas, entradas, saídas, curvas, labirintos, te guiando a respostas contraditórias, irônicas, agridoces, então o amor não pode realmente ser muito melhor que isso.
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pega leve.
sou sensível.