Sensação de não pertencimento, não merecimento. Sobre a minha vivência, sobre a existência de forma geral. Sei que nada é sobre merecer, mas queria sentir algo semelhante. Sigo sem conseguir organizar os pensamentos e sentimentos de maneira adequada, a bagunça que me rege é capaz de destruir.
terça-feira, 22 de junho de 2021
quinta-feira, 29 de abril de 2021
Há sempre um nó dentro de mim. Não sei se é possível desfazê-lo. Esse nó que me acompanha há tanto tempo, me trouxe diagnósticos clínicos e potencialmente psicológicos, é uma amarra forte, que me segura em minhas dores e agonias. Às vezes é o que sustenta toda a estrutura, quem diria que um nó dado assim tão apertado, até tirar o ar, serviria para também manter alguém de pé?
Quando penso em minha existência, não consigo lembrar dela sem ele. Não consigo lembrar se ele sempre foi do mesmo tamanho, mas acho que ele aumenta ou diminui de acordo com fatores externos. Ou melhor, de acordo com a forma como a estrutura interna absorve o externo. Eu sinto muito, muito mesmo. Sinto que sinto por demais, por coisas que fogem ao meu controle, mas não posso evitar. É a minha forma de viver e deixar uma impressão assim, ao redor.
Parei de ansiar pelo desatar dos nós. Perdi até o desejo, por se tornar utopia. Não suporto mais o peso de carregar tantas coisas sem solução. Eu sou uma delas. Cansei faz tanto tempo de me carregar, que quando penso em minha existência, enxergo esse nó amarrado forte, me fazendo respirar baixo e pouco, me deixando presa àquilo que hoje chamo de essência, mas que há muito tempo não sei lidar ou desfazer, somente tomo como meu modo de ser, sentir, respirar.
Se o Senhor desfizer esses nós, restará algo para se comemorar, ou será uma espécie de rendição?
quinta-feira, 4 de março de 2021
Acabei de acordar. Peguei o celular, abri as redes sociais... Graças a uma rede social semi-morta fui inundada de lembranças sobre coisas de vários anos atrás. Uma foto. Me deparei com o sorriso de uma menina que conheço muito bem... Menina não, mulher. Embora se sentisse muitas vezes como uma menina mesmo.
Fui tomada por um sentimento de nostalgia e culpa. De pena. Arrependimento. E carinho. Não me deixei dominar por nenhum deles, mas sim, observei tudo como se não fosse um narrador personagem. Olhei pra ela e lembrei do quão ela já abriu mão de si pra tentar ficar com uma pessoa. Pra se encaixar à vida de alguém, fazer dar certo. Ela não sabia que, quando chega a esse ponto, é porque não deu. Não deve dar nunca.
Ela era linda, tão novinha, tão cheia de anseios e sonhos simples... Ela não sabia que era linda e que podia sonhar muito mais. O sorriso dela era cheio de hesitações, o estômago vivia com um nó quase crônico. As borboletas que batiam asas dentro dele, faziam de forma assassina. As paredes de dentro sangravam, e ela julgava normal.
Uma grande energia investida para se adaptar à vida do parceiro. Usava disso, dessa relação e suas ramificações como um cano de escape. Não gostava de estar em casa, era desconfortável morar com um padrasto e sua filha, era tudo estranho. Se culpava por não conseguir lidar direito com as coisas da Universidade. Por ser uma estagiária medíocre, tinha isso o tempo todo jogado na cara. Não sabia como lidar com pessoas, na maioria das vezes. Se culpou por tentar desistir de tudo...
Tive vontade de dar um abraço nela, de pedir pra chorar, começar uma terapia. Dizer pra se cuidar, antes de qualquer coisa, tantas águas ainda iriam rolar... Seria essencial fortalecer bem as defesas. Até hoje sinto um nó na garganta quando lembro das falhas na defesa. Mas tudo bem, isso também é parte de ser humano. Queria dizer a ela também para experimentar mais coisas novas, não se manter dentro as caixinhas aprisionadoras da mente, procurar os amigos, fazer novos, se encarar com mais leveza e mais respeito. Dizer que, dentro de seus limites e realidades, ela estava fazendo o melhor que podia.
Amigos, parceiros, pessoas, de uma forma geral, mudam. Transitam. Vão embora, retornam, ficam... Algumas relações se ressignificam, e tudo bem com isso. A única relação pra sempre é a que temos conosco, e ela nunca pode ser abusiva. Nunca.
Até hoje eu sinto os olhos marejando, quando lembro das coisas que essa menina mulher passou. Ela não merecia. Ela se colocou em muitos lugares ruins porque absorveu a crença de que merecia. Hoje vejo que isso pode ser fatal.
segunda-feira, 26 de outubro de 2020
Estou me guardando para quando a pandemia passar
quinta-feira, 8 de outubro de 2020
Que calor faz em minha cidade agora. No país todo, ouvi dizer. O calor me entristece um pouco, enche o meu corpo de suor, enche aqui dentro de reclamações. Sair na rua sob o sol é um desafio inevitável. Ao menos para mim, que preciso trabalhar. Aliás, eu nunca vou entender como há pessoas escolhendo estar nas ruas com esse clima e em plena pandemia. Estou cansada de tentar decifrá-las. Mudei o ato para "tentar coexistir na mesma cidade sem surtar". Nem sempre funciona.
Eu realmente não sei qual foi a minha pretensão ao começar a escrever hoje. Talvez apenas saudades de marcar coerentemente as linhas de uma folha inteirinha, pertencentes a um caderno novo que mal teve a sua chance de uso. Parece até que foi em outra vida quando o comprei e me matriculei em mais um período da faculdade. Talvez tenha sido mesmo parte de uma outra realidade. Talvez eu volte mesmo uma outra pessoa. Se melhor ou pior, só o tempo dirá.
Vejo o mundo se forçando a funcionar sob uma falsa crença de que um "novo normal" é seguro. Pessoas adicionaram a suas rotinas o uso do álcool 70º e das máscaras com a ilusão de que é necessário e suficiente nesse momento. Há um vírus imprevisível para o qual ainda não há vacina e que já levou milhões a óbito. Ele pode estar em qualquer lugar, usando qualquer pessoa. Se escolho sair de casa nesse momento para cumprir coisas não essenciais, posso dizer que estou brincando de "roleta-russa", certo?
Antes da pandemia eu já não estava bem. Os pensamentos que me cercavam tinham um cheiro mórbido. Ainda posso senti-los. Se engana quem pensa ser fácil se livrar desses odores. Tem dias que é mais fácil fingir que eles não existem, mas na maioria das vezes eles são como as mosquinhas volantes que eu tenho na visão. Não as percebo sempre, porém sei que estão ali. Baste olhar em "ponto morto" e lá vem elas.
Tenho várias metáforas sobre a (ausência de) vontade de viver - fios que se partem, chamas que se apagam, olhos que se fecham, membros que se soltam... Dá para pincelar poeticamente qualquer dor e qualquer sentimento. Lembro de como essas metáforas eram comuns quando eu não queria admitir abertamente em meus textos sobre a vontade de morrer. Talvez pelo medo de parecer alarmista, ou uma carta de despedida. O medo de que uma coisa leve à outra e assim cheguemos a atos irreversíveis. Hoje eu ainda acho que essa vontade não está ligada a cometer atos suicidas. A vontade de não existir vem do desejo profundo de não sentir mais. E eu verdadeiramente acredito que isso será possível apenas quando não houver mais ar em meus pulmões e oxigênio no cérebro.
Em terapia estou aprendendo que é preciso ressignificar a vida. As dores. Os traumas. Tentando acolher a criança ferida aqui dentro ao invés de silenciar e feri-la ainda mais. Bonito de organizar no papel. Na vida real? Caótico.