quinta-feira, 29 de abril de 2021

 Há sempre um nó dentro de mim. Não sei se é possível desfazê-lo. Esse nó que me acompanha há tanto tempo, me trouxe diagnósticos clínicos e potencialmente psicológicos, é uma amarra forte, que me segura em minhas dores e agonias. Às vezes é o que sustenta toda a estrutura, quem diria que um nó dado assim tão apertado, até tirar o ar, serviria para também manter alguém de pé?

Quando penso em minha existência, não consigo lembrar dela sem ele. Não consigo lembrar se ele sempre foi do mesmo tamanho, mas acho que ele aumenta ou diminui de acordo com fatores externos. Ou melhor, de acordo com a forma como a estrutura interna absorve o externo. Eu sinto muito, muito mesmo. Sinto que sinto por demais, por coisas que fogem ao meu controle, mas não posso evitar. É a minha forma de viver e deixar uma impressão assim, ao redor. 

Parei de ansiar pelo desatar dos nós. Perdi até o desejo, por se tornar utopia. Não suporto mais o peso de carregar tantas coisas sem solução. Eu sou uma delas. Cansei faz tanto tempo de me carregar, que quando penso em minha existência, enxergo esse nó amarrado forte, me fazendo respirar baixo e pouco, me deixando presa àquilo que hoje chamo de essência, mas que há muito tempo não sei lidar ou desfazer, somente tomo como meu modo de ser, sentir, respirar. 

Se o Senhor desfizer esses nós, restará algo para se comemorar, ou será uma espécie de rendição? 

quinta-feira, 4 de março de 2021

 Acabei de acordar. Peguei o celular, abri as redes sociais... Graças a uma rede social semi-morta fui inundada de lembranças sobre coisas de vários anos atrás. Uma foto. Me deparei com o sorriso de uma menina que conheço muito bem... Menina não, mulher. Embora se sentisse muitas vezes como uma menina mesmo.

Fui tomada por um sentimento de nostalgia e culpa. De pena. Arrependimento. E carinho. Não me deixei dominar por nenhum deles, mas sim, observei tudo como se não fosse um narrador personagem. Olhei pra ela e lembrei do quão ela já abriu mão de si pra tentar ficar com uma pessoa. Pra se encaixar à vida de alguém, fazer dar certo. Ela não sabia que, quando chega a esse ponto, é porque não deu. Não deve dar nunca.

Ela era linda, tão novinha, tão cheia de anseios e sonhos simples... Ela não sabia que era linda e que podia sonhar muito mais.  O sorriso dela era cheio de hesitações, o estômago vivia com um nó quase crônico. As borboletas que batiam asas dentro dele, faziam de forma assassina. As paredes de dentro sangravam, e ela julgava normal.

Uma grande energia investida para se adaptar à vida do parceiro. Usava disso, dessa relação e suas ramificações como um cano de escape. Não gostava de estar em casa, era desconfortável morar com um padrasto e sua filha, era tudo estranho. Se culpava por não conseguir lidar direito com as coisas da Universidade. Por ser uma estagiária medíocre, tinha isso o tempo todo jogado na cara. Não sabia como lidar com pessoas, na maioria das vezes. Se culpou por tentar desistir de tudo...

Tive vontade de dar um abraço nela, de pedir pra chorar, começar uma terapia. Dizer pra se cuidar, antes de qualquer coisa, tantas águas ainda iriam rolar... Seria essencial fortalecer bem as defesas. Até hoje sinto um nó na garganta quando lembro das falhas na defesa. Mas tudo bem, isso também é parte de ser humano. Queria dizer a ela também para experimentar mais coisas novas, não se manter dentro as caixinhas aprisionadoras da mente, procurar os amigos, fazer novos, se encarar com mais leveza e mais respeito. Dizer que, dentro de seus limites e realidades, ela estava fazendo o melhor que podia.

Amigos, parceiros, pessoas, de uma forma geral, mudam. Transitam. Vão embora, retornam, ficam... Algumas relações se ressignificam, e tudo bem com isso. A única relação pra sempre é a que temos conosco, e ela nunca pode ser abusiva. Nunca.

Até hoje eu sinto os olhos marejando, quando lembro das coisas que essa menina mulher passou. Ela não merecia. Ela se colocou em muitos lugares ruins porque absorveu a crença de que merecia. Hoje vejo que isso pode ser fatal.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Estou me guardando para quando a pandemia passar

"Coisas para fazer quando a pandemia passar"
Hoje foi mais um dia estranho. Quer dizer, estranhamente comum. Meus dias tem sido todos iguais. Eu acordo, pego o celular para conferir as redes sociais, vejo pessoas voltando a sua rotina comum, leio as notícias desesperadoras do governo brasileiro, me sinto mal por tudo e resolvo levantar da cama. Todos os dias eu penso que deveria instituir um ritual mais saudável ao acordar. Fazer um alongamento muscular, uma ioga, projeção astral, sei lá, algo do tipo. Eu sei que preciso também beber mais água, cuidar da pele, começar a fazer exercícios físicos, seguir uma rotina de cuidados com meu cabelo... A lista só cresce. Eu não deveria me cobrar nesse momento - é o que a minha psicóloga diz - mas sinto que voltar a seguir algum tipo de rotina me traria um senso de normalidade.

Normal... O que a gente poderia definir como normal nesses dias? Sair nas ruas apenas para o inevitável usando máscaras, carregando seu álcool em gel consigo, vendo os conhecidos por videochamada? À espera da vacina. As notícias não são boas, e não somente porque estamos em pandemia por causa de um vírus para o qual ainda não há cura. Não há notícias animadoras em nenhuma esfera do governo. Aliás, desde o resultado das últimas eleições, me sinto cada vez mais presa a alguma distopia mal escrita. Sim. Mal escrita a ponto de o leitor se questionar sobre as suposições do escritor "Ele pensa que eu sou estúpido ao ponto de acreditar nisso?". E sem previsão de melhoras.

O normal de antes também era algo que me sufocava. E eu até que sinto falta. Não posso fingir que não, mas não posso mentir que tudo ia assim, muito bem. Não ia. 


quinta-feira, 8 de outubro de 2020

 Que calor faz em minha cidade agora. No país todo, ouvi dizer. O calor me entristece um pouco, enche o meu corpo de suor, enche aqui dentro de reclamações. Sair na rua sob o sol é um desafio inevitável. Ao menos para mim, que preciso trabalhar. Aliás, eu nunca vou entender como há pessoas escolhendo estar nas ruas com esse clima e em plena pandemia. Estou cansada de tentar decifrá-las. Mudei o ato para "tentar coexistir na mesma cidade sem surtar". Nem sempre funciona.

Eu realmente não sei qual foi a minha pretensão ao começar a escrever hoje. Talvez apenas saudades de marcar coerentemente as linhas de uma folha inteirinha, pertencentes a um caderno novo que mal teve a sua chance de uso. Parece até que foi em outra vida quando o comprei e me matriculei em mais um período da faculdade. Talvez tenha sido mesmo parte de uma outra realidade. Talvez eu volte mesmo uma outra pessoa. Se melhor ou pior, só o tempo dirá.

Vejo o mundo se forçando a funcionar sob uma falsa crença de que um "novo normal" é seguro. Pessoas adicionaram a suas rotinas o uso do álcool 70º e das máscaras com a ilusão de que é necessário e suficiente nesse momento. Há um vírus imprevisível para o qual ainda não há vacina e que já levou milhões a óbito. Ele pode estar em qualquer lugar, usando qualquer pessoa. Se escolho sair de casa nesse momento para cumprir coisas não essenciais, posso dizer que estou brincando de "roleta-russa", certo?

Antes da pandemia eu já não estava bem. Os pensamentos que me cercavam tinham um cheiro mórbido. Ainda posso senti-los. Se engana quem pensa ser fácil se livrar desses odores. Tem dias que é mais fácil fingir que eles não existem, mas na maioria das vezes eles são como as mosquinhas volantes que eu tenho na visão. Não as percebo sempre, porém sei que estão ali. Baste olhar em "ponto morto" e lá vem elas.

Tenho várias metáforas sobre a (ausência de) vontade de viver - fios que se partem, chamas que se apagam, olhos que se fecham, membros que se soltam... Dá para pincelar poeticamente qualquer dor e qualquer sentimento. Lembro de como essas metáforas eram comuns quando eu não queria admitir abertamente em meus textos sobre a vontade de morrer. Talvez pelo medo de parecer alarmista, ou uma carta de despedida. O medo de que uma coisa leve à outra e assim cheguemos a atos irreversíveis. Hoje eu ainda acho que essa vontade não está ligada a cometer atos suicidas. A vontade de não existir vem do desejo profundo de não sentir mais. E eu verdadeiramente acredito que isso será possível apenas quando não houver mais ar em meus pulmões e oxigênio no cérebro.

Em terapia estou aprendendo que é preciso ressignificar a vida. As dores. Os traumas. Tentando acolher a criança ferida aqui dentro ao invés de silenciar e feri-la ainda mais. Bonito de organizar no papel. Na vida real? Caótico.

terça-feira, 7 de julho de 2020

Conversas terapêuticas - pt 1

Nossa relação nunca foi fácil. Mesmo agora, depois de tantos anos, e no ano que farão 7 anos de sua partida,  muitas coisas ainda são difíceis pra mim. É difícil pensar em nós, no tipo de relação que tínhamos, nas expectativas frustradas durante os anos, na falta de sabedoria pra saber desfazer os nós. Às vezes eu me pego pensando em como foi difícil te entender e te aceitar por anos, digo, sobre a parte difícil. Sobre o vício, a resistência em querer se tratar. Fora isso, havia sim muita grosseria e incompreensão, mas eu costumava resumir tudo ao álcool. Quando eu penso sobre o seu jeito, sobre o que eu me lembro dele, sempre acho que eu puxei mais a você do que percebia.

Estando onde estou hoje, tentando me consertar por dentro, me sentindo vulnerável mentalmente à vícios, hábitos não saudáveis, sendo visitada por desejos suicidas ou quase, eu percebo que me aproximei de você, de alguma forma. Seus comportamentos autodestrutivos te levaram tudo, em determinado ponto de sua vida você perdeu tudo, ou quase tudo, que te importava. E eu percebo que tenho medo, sabe? Medo de chegar a esse ponto. Medo porque, em vez de usar o seu mau exemplo como algo a ser evitado, eu sinto como se nós dois nos aproximássemos sempre que minha mente passeia por lugares limítrofes. Para chegar ao ponto em que você chegou, eu imagino que você soltou a corda do barco muito cedo. Depois foi só afundar e esperar o corpo parar de reagir... Eu não quero isso pra mim. Embora às vezes sinta esses desejos maléficos de desistir de tudo.

O que eu diria para você hoje? Eu não sei ao certo... Eu desconfio que algumas barreiras seriam abaixadas. Eu tenho me curado um pouco dessa estranheza que tínhamos em comum, de não querer muita proximidade física, abraças as pessoas. Será que as coisas poderiam ter sido diferentes se eu fosse uma filha mais carinhosa? Não. O problema nunca foi esse. Um dia alguém me disse que, por mais que eu te amasse, e por mais que eu demonstrasse isso, não seria o suficiente. Porque você não tem amor próprio. E o amor de ninguém seria suficiente pra cobrir esse buraco. Para mim fez todo o sentido. A pessoa, que não te conheceu, ela me pareceu a mais lúcida de todas, ao me fazer perceber que você era um cara depressivo e sem amor próprio. E, mais uma vez, me percebo muito próxima de você nesse aspecto.

Relendo textos antigos e cartas póstumas... Percebo que muito do que sentia ficou. Em relação a saudade, em relação ao saudosismo, às lembranças, à consciência pesada... Eu também sempre soube que me parecia com você em certos aspectos. Mas acho que isso de agora é uma coisa nova, esse medo de que tenhamos destinos iguais. De que eu me permita abraçar pela solidão, e não pelas pessoas, e me envolva em labirintos dos quais não consiga sair, nem com ajuda externa. 


quarta-feira, 6 de maio de 2020

Tenho ouvido falar - tenho percebido também - que durante o isolamento social os nossos defeitos estão cada vez mais latentes. Tenho vários, com os quais nem sempre sei lidar. O maior deles? Talvez seja não gostar de mim mesma.
A autoaversão dá vazão a outros tipos de problemas, como por exemplo, os desejos ilícitos de recorrer a caminhos e meios corrosivos. O objetivo não é se manter viva, mas se anestesiar. Quanto menos viva, menos penso, menos dói, menos pesa. Viver se torna um fardo. Sem exageros ou melodrama, a vontade de ir embora tem se tornado latente ao ponto de eu não saber mais como conviver com isso. São milhares de vozes ecoando juntas, somadas e fazendo coro a esses pedidos um tanto nefastos e fúnebres. Seria uma boa hora para me vangloriar sobre a minha covardia?