Pai, sempre quis falar muita coisa pro senhor que eu não tive coragem. Tinha medo, receio, de como o senhor iria recebê-las e qual dano seria causado a nossa relação que com o passar dos anos se tornou tão frágil. O que aconteceu foi que eu fui guardando palavras que deveriam terem saído há muito tempo e hoje elas não fazem mais sentido.
Mas eu esperava tanto, pai, pelo dia que o senhor fosse perceber que já estava sendo negligente há muito tempo com suas filhas e que a sua vida estava indo pro ralo. Há muito tempo o senhor foi meu herói. Era somente contigo que eu gostava de mergulhar fundo no mar cheio de ondas, e passar na rua de mãos dadas praqueles meninos não abusarem mais comigo, e era pro senhor que eu pedia ajuda quando achava tudo difícil em matemática, era somente com você que eu gostava de ir à locadora escolher os desenhos Disney ou Jurassic Park. Parece que isso foi há um século... Parece que essas lembranças são de um alguém que não sou mais eu. Há uma parte bem pequena de mim que resguardou a vivacidade daquele tempo pro hoje.
Mas pai, eu não podia mais viver de passado. Não era suficiente. Eu virei adolescente e de repente todas as ausências foram ficando pesadas de carregar. O senhor não nos visitava mais e cada vez rara que a gente se via era como se um pedaço seu tivesse indo embora. Eu pensava que o senhor não tinha o direito de privar suas filhas de ter um pai, como pôde fazer isso com a gente? Como pôde se deixar dominar por uma coisa tão podre, tão cruel como o álcool, ao ponto de destruir um casamento, negligenciar as filhas e a própria saúde? A gente te avisou tanto... Você não sabe e nunca vai saber como eu senti a sua falta durante todos esses anos.
Eu não vou mentir que fiquei um pouco aliviada quando o senhor saiu de casa, pois eu não aguentava mais sofrer com minha mãe o que a sua convivência nos trazia. Era medo, receio, insegurança, violência... Tudo ao contrário do que costumava ser um dia. Eu tinha oito anos, pai, eu achava que eu deveria me comportar, ser uma boa moça e agir como os adultos queriam. Quando o senhor chegou em casa e viu que suas coisas ja estavam prontas, eu lembro que o senhor me disse, pegando em meu rosto, com a mão pesada, que aquilo não ia mudar o que o senhor era pra mim e que o amor continuaria o mesmo por mim e por minha irmã. Ainda consigo lembrar de suas mãos calejadas em minha bochecha, o hálito de álcool, as tapinhas sem jeito em minha cabeça. Eu apenas suspirei, cansada, pensando se dali pra frente minha mãe seria mais feliz. Fui uma mocinha madura.
Mas na verdade, com o passar dos dias, mesmo que antes o senhor já estivesse ausente em nossa rotina, eu sentia sua falta. Especialmente nos nossos fins de semana. As vezes eu deitava na cama da minha mãe e sentia o cheiro de seus sabonetes que aquele quarto ainda tinha. E eu sabia que alguma coisa ia ficar muito diferente. Nos sábados e domingos não havia mais você pra cozinhar pra gente as pizzas e lasanhas, ou levar pra andar de bicicleta na pracinha do bairro. As manhãs do fim de semana não começavam mais com os discos de Fagner, Barão Vermelho, Legião Urbana, que o senhor colocava na radiola. O senhor nos visitava nos fins de semana, pai, mas era pouco. O senhor não vinha nos ver em todos os aniversários. Nem aparecia ao menos no fim da festa. O senhor mentiu pra gente. Muita coisa mudou. Eu não me sentia mais especial sendo sua filha. Eu achava que o senhor tinha mentido pra gente porque estava bêbado naquele dia que o senhor foi embora.
Eu queria tanto que o senhor tivesse me escutado quando eu tentava conversar limpo com o senhor. Sobre suas fraquezas, sobre a principal delas, na verdade. E o senhor nunca me ouviu. Nossos momentos eram cada vez mais traumatizantes. O senhor estava sóbrio cada vez por menos tempo. Pouco nos restava pra conversar ou viver um momento que não fosse a mesa de um bar. Eu fui ficando cada vez mais frustrada de ver o senhor. Não me ouvia, piorava da saúde, queria me arrastar pra ver o senhor beber até chegar num estado em que eu não gosto nem de lembrar. Falava besteira pra mim e pra minha irmã, xingava minha mãe. E outras coisas que não gosto de detalhar. A culpa era dele, pai. Do álcool. Do vício. Pena que o senhor não viu a tempo.
Nosso relacionamento ficou preso numa caixinha minha, intitulada "coisas que preciso resolver mas não sei como", e cada vez que a gente se via, mais eu empurrava pra debaixo da cama essa caixa. A gente não conversava mais... Lhe faltava vida. Uma vez por mês eu ia lhe ver por conta de suas obrigações e ter que ouvir as mesmas histórias, ser constrangida pelas mesmas piadas e ações, foi me fazendo muito mal. Aquela pessoa era apenas uma sombra do que eu sabia que o senhor era. Meu mecanismo de defesa estava alto, eu não sabia mais o que fazer pra baixar a guarda. Pedia a Deus por sua vida, chorava dores do passado, do presente e do temido futuro.
Te via mostrar as feridas na pele, falar da saúde caótica, sentia o nó na garganta quando pensava que o senhor não tinha mais jeito. Falava palavras brutas, diretas, mordazes. Uma coisa que aprendi com o senhor. Quando que no fundo eu queria abraçá-lo e chorar no seu ombro, pedindo que pelo amor de Deus se cuidasse, que aceitasse se tratar e que depois tudo ia ficar bem, a gente ia começar do zero e o senhor ia voltar a ir lá em casa, pegar a gente pra ir a praia, passear no Horto, cantar A Pequena Sereia junto comigo, me ensinar sobre o que o senhor leu nos livros sobre A Reforma Protestante e quis compartilhar comigo, porque sou evangélica. Queria ter te dito tudo isso, pai. Mas não sabia como. Só me esforçava pra não chorar na sua frente e na de seus colegas de trabalho que o senhor jurava serem seus amigos mas, sabemos, em sua maioria, eram mera platéia de seus espetáculos nos quais nós, filhas, éramos troféus exibidos.
Eu devia ter feito de outro jeito, pai. Devia ter parado de me concentrar no que o senhor não fez e assumir meu papel de cuidadora, já que o contrário não funcionava muito tempo. Fui covarde. Por não tomar o primeiro passo de te perdoar e te procurar e insistir. Não há um só dia em que eu não pense no que eu deveria ter feito pro senhor e não fiz. No último dia dos pais que minha irmã acordou tarde e perdemos o ônibus, eu fiquei com raiva por saber que iríamos ter que voltar de carona com meu tio, com quem o senhor não falava, e acabamos não indo. Ela insistiu pra ir, mas eu achei que não valia o esforço, afinal, seria a mesma coisa de sempre: o senhor passaria meia hora sóbrio, depois cairia de bêbado e nos deixaria sós, de novo, desconfortáveis, na casa da nossa avó, conversando com todos os tios sobre como o senhor andava de mal a pior. E ela sempre me lembra que nós não o vimos e não o entregamos teu presente por minha causa. Porque não quis me esforçar. Liguei pro senhor esse dia e percebi que o senhor também não fazia questão. Mas hoje vejo que a questão era mais profunda que julgava.
O senhor estava em depressão. Eu não soube ver. A sua única alegria de viver era o álcool, e a sua galega e a sua caçula não te proporcionavam mais riso e satisfação. O senhor não retornou minhas últimas ligações. Eu achei normal, dentro de seu contexto. Ninguém me avisou que uma semana antes do senhor partir, o senhor tinha desistido de viver. Hoje eu sei que teria largado tudo pra tentar salvar o senhor desse abismo, mais uma vez. Hoje eu sei que o senhor não queria nos ver pois tinha vergonha de quem era, e eu só queria que o senhor soubesse que, apesar de tudo, o senhor era meu pai. E eu quis te salvar minha vida toda. Achei que as coisas melhorariam depois que o senhor voltou com a visão ampliada depois daquele cursilho da igreja episcopal. Mais uma vez, estava errada.
Se por um lado o senhor nunca soube o quanto senti sua falta, eu nunca vou saber como o senhor vinha se sentindo. Logo o senhor que tinha uma mente muito boa, perspicaz, quando estava "bom". Só não demonstrava, em vez disso, repelia. Até nisso puxei ao senhor. E, se realmente somos tão parecidos, posso imaginar como o senhor estava se sentindo uma merda em saber de todos os anos que foram jogados no lixo em nossa relação. Eu consegui entender o senhor muito, muito tarde. Um dia antes de sua partida eu caí em mim e prometi que ia quebrar meus protocolos e minhas barreiras de gelo e ia correr pra cuidar do senhor. E fazer o senhor entender que eu não abri mão de ser sua filha. Ai então veio aquela manhã de domingo que me levou toda a esperança e mandou pra debaixo do tapete o gelo derretido de minhas lembranças. Precisei ser forte de novo, pai. Pra consolar minha irmã, minha mãe, minha vó(sua mãe), que foi quem mais cuidou do senhor. Pra ver o corpo que foi teu num caixão, pra resolver documentação, pra não parecer tão mal pras amigas, pra não reprovar umas disciplinas na faculdade, pra continuar fazendo visitas domiciliares no estágio. O senhor não sabe como eu tive que me segurar e ser de pedra. Ou melhor, acho que o senhor sabia o que é fazer isso, sim. Não herdei esse lado da minha mãe, sabe, que é sempre tão transparente e explosiva.
Apesar de tudo, pai, agradeço a Deus, o meu outro Pai, por ter nos permitido uma despedida. É fato que foi melodramática, bastante, na verdade,em meio àquele cenário e o senhor usando aquele figurino... Queria saber o quanto do senhor estava ali dentro daquele corpo deitado na enfermaria... O quanto de mim o senhor lembra quando me olhou com aqueles olhos perdidos? Porque eu sei que o senhor me viu. Quando me aproximei, peguei em sua mão. Não quis chorar na frente do senhor, mesmo achando que estava um pouco fora do ar, e mesmo que houvesse muita vontade minha. Mas o senhor segurou minha mão e levou aos lábios. O senhor sabia que era eu. O senhor beijou minha mão. Alisei seu cabelo, talvez pela primeira vez na vida, após crescer, e foi a última. Devia ter dito que eu te amava pai. E amo. Talvez assim o senhor tivesse sentido motivo para viver. É uma tolice pensar assim, pois a culpa não foi sua, foi da enfermidade que o edema trouxe... Foi tudo tarde demais.
O dia de hoje acabou se tornando nostálgico pra mim, as vezes pesado. Inundada por lembranças e sentimentos, não me resta alternativas senão escrever. Parece injusto ter tanto de alguém que já se foi... Ficar lembrando sempre de algo que não terei mais. Saber que tenho seu humor, a estupidez e grosseria que minha mãe tanto fala, seu andar engraçado, e até o jeito das sobrancelhas, uma hora me conforta e em outra me traz à tona intensidades que eu não queria mais sentir uma hora dessas. Se o senhor não foi um bom pai não importa mais. Só sinto que não fui uma boa filha. E é tarde pra reparar isso. Pior ainda: sinto que se tivesse sido melhor, nesses últimos anos, o senhor poderia ter saído dessa. Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura. Parei de bater quando não deveria.
Eu queria que o senhor me perdoasse. Não queria que as coisas terminassem assim. Nunca quis. Mas agora não importa mais. O senhor virou a lembrança de algo que perdi e nao terei mais. O senhor virou a maior prova de minha covardia emocional e outras coisas podres. Te perdoei tarde, pai, e não mereço perdão. Pior de tudo é saber que essas palavras são jogadas ao vento, o senhor nunca vai saber. Nunca mais vou te ver. Só me restam os sonhos que de vez em quando Deus manda pra consolar essa filha chorona. Queria ter a certeza que o senhor descansou nos braços Dele.
Senti vontade de não terminar assim, triste de novo. Embora minhas lágrimas protestem, eu queria só me permitir lembrar das coisas boas que o senhor deixou pra mim. Obrigada pelos gostos musicais, o senhor era o melhor nesse quesito. Obrigada também por ter me ensinado tanta coisa quando era pequena, por ter gastado tanto tempo lendo comigo o Almanaque Abril, me ensinando a pesquisar assuntos ali e me fazendo conhecer as bandeiras dos países. Por ter deixado boas revistas e livros em casa, por comprar a coleção de VHS do Castelo Rá-Tim-Bum. Por comprar os gibis da turma da Monica e ler comigo, se interessar por esse universo. Por ficar debaixo do sol comigo na praça, todo fim de semana, enquanto eu andava na minha bicicleta roxa. Por tentar fazer maria-chiquinhas em mim e não contar a minha mãe que eu ia calçando as "sandálias de sair" quando eu ia pra casa de vó. Por assistir Jurassic Park e os documentários da TV Cultura comigo sobre a natureza. Por assistir os Clássicos Disney e me fazer rir cantando junto comigo as músicas dos desenhos. Por ter me incentivado a estudar, e ser "doutora", dizendo que nessa vida o estudo era a coisa mais importante. Por sempre querer me proteger de qualquer um que pensasse em me desrespeitar em sua frente. Pelo dinheiro pra eu e minha irmã comprarmos tantas porcaria sempre que a gente saía com o senhor na rua. Por ter me ensinado a nadar e a amar o mar e a praia, por catar conchinhas na areia comigo, fazer castelinhos e fazer piscininhas pra me colocar dentro. Por nunca ter encostado um dedo em mim, nunca ter sequer apertado meu braço. Por ter me emprestado teus genes e teu jeito, ficou muito do senhor em mim. Por tantas outras lembranças boas... E principalmente por nos amar mais do que tudo, apesar das limitações de seus vícios, de suas fraquezas. E é por isso que hoje ainda ouço de seus amigos: "você era a vida dele. Tudo o que ele tinha". Eu prometo pro senhor, pai, que eu vou continuar lhe dando orgulho... Vou me esforçar pra fazer uma boa carreira, vou casar com alguém que mereça de verdade a sua filha, e se eu tiver filhos vou contar tudo sobre o avô que eles não onhecerão. Eu te amo, pai. Sinto falta até de dizer essa palavra. Pai. É mesmo um amor que nunca morre, essa tal saudade. Queria que o senhor pudesse me ver e ouvir agora.