quinta-feira, 22 de maio de 2014

Amizade-presente

Eu queria escrever sobre ele, mas não consigo achar minhas palavras decentes. Isso sempre acontece quando encontro um amigo suficientemente bom, eu tenho vontades fortes de escrever sobre e para ele, mas nem sempre consigo dar-lhe palavras dignas. 

Ele veio devagarinho, como quem pisa com muita cautela em terreno desconhecido. Foi se chegando para saber se era um campo minado ou um jardim florido, essa nossa amizade. Hoje, fico feliz que ele se sinta à vontade para pisar cada vez mais firme neste terreno. A melhor coisa é que não ganhei um mero visitante em meu mundo. Verdadeiramente, encontrei um parceiro de construção, um obreiro capacitado em construir e aprimorar universos! E tudo isso com ternura e cuidado sem igual. Ele acredita em mim, e sempre é "todo ouvidos", sabe ouvir minhas crises e lamentações com imparcialidade e sempre vem com contribuições preciosíssimas. 

A gente combina na forma de ver o mundo, e em muitos gostos. A gente se comporta, em meio a uma multidão, de maneira semelhante e costumamos ter círculos de amizades limitados (quem, em sã consciência consegue ter cem amigos verdadeiros? Não entendemos como a dinâmica destas pessoas funcionam). Somos apaixonados por subjetividades e acreditamos que, embora as pessoas sejam más e cruéis, ninguém é, de fato, um caso perdido (embora gostemos de nos referir, ironicamente, assim a certas pessoas). Respeitamos as diferenças mas, naturalmente, atraímos semelhantes para nós. Gostamos de pessoas que, independentemente de seu exterior, são intensas e profundas. Abominamos o superficial, não nos contentamos com isso. Odiamos quem desrespeita nossos limites e quem se considera "louco" daquela maneira ridícula e clichê. Somos sócios e gostamos de confabular planos maléficos que nunca vamos pôr em prática, conversamos milhares de horas sobre coisas que, para muitas pessoas, não faz o menor sentido. E somos dois neuróticos, inseguros, revoltados, cheios de opiniões fortes... Não, não somos pecinhas boas. E além de tudo, temos a consciência de que não somos (nem poderemos ser) perfeitos. Mas deixa eu dizer uma grande diferença entre nós e que se tornou mais um motivo de admiração: ele não se importa com o que os outros pensam.

Não o imagine como um egocêntrico, que simplesmente faz o que dá na telha e força os outros a "engolirem" sua personalidade. Não funciona desse jeito. Ele é uma pessoa que, acima de tudo, se respeita. E se ama. Portanto, não espere que um olhar reprovador seu ou um total repúdio a alguma atitude que ele decida tomar vá mudar a sua idéia, ele é muito convicto daquilo que crê e não costuma agir por impulso. A vida o fez amadurecer rápido, ser uma criança precocemente com uma mente inquisidora, diferente das demais... E o que muitos colocaram e apontaram como "limitação", ele agarrou como desafio e, em seus altos e baixos, lutou bravamente com cada pedaço amargo que a vida lhe forçou a mastigar. E hoje, ele é um exemplo pra mim, que vivo reclamando de minha vida medíocre, que por muito menos teria desistido. Com ele eu resolvi esquecer os olhares, pensamentos e julgamentos alheios e me joguei na pista de dança de uma festa, e juntos dançamos Legião Urbana, e, eu juro, naquele momento eu me senti infinita (preciso emprestar a ele As Vantagens de Ser Invisível, já falei um milhão de vezes).

Ele tem habilidades e gostos incríveis! Jogar video-game com os pés é um exemplo disso... Ele tem o hábito de conversar com os vendedores da Livraria Cultura, e consegue se preocupar com cada um por quem se afeiçoa, sente que tem uma responsabilidade para com cada amigo e, em cada amizade, cria uma forma de cuidado específica. Adora relembrar o passado, me falar sobre sua infância, e tem um caderno, cuidadosamente registrado por sua mãe, sobre grandes pérolas de uma criança que eu gostaria muito de ter conhecido! Se apaixona por personagens e é irremediavelmente, caído de amores e admiração por uma menina que carinhosamente apelidou como "Sam". Ele só não é mais apaixonado por Sam que pela cor azul... O azul é tudo em seu universo! É o céu, o mar, a cor de seu porta-retrato, era a cor de seu quarto na infância, e é a cor de tudo o que possível for em sua vida. Eu, que amo rosa, não entendo como pode alguém ser tão apaixonado por uma cor, mas, não consigo mais não lembrar dele todas as vezes que eu vejo a cor ou leio um "sangue azul" numa legenda de filme qualquer, ou outro lugar onde essa expressão vulgar possa aparecer. E ele tem dois jabutis que, ele jura, têm personalidade. Ele realmente acredita nisso, e quem sou eu pra discordar? Ele ama tartarugas (e as ninjas também!), e também não consigo mais olhar para esses bichos sem lembrar dele. Não vejo graça neles, nem na cor azul, mas vendo ele falar com tanta paixão, até que subiram um nível na minha escala de simpatia. O mesmo acontece com aquele porco-espinho, o Sonic. Eu sempre preferi Super-Mario e o Nintendo, mas ele até me fez se interessar mais pela história do personagem azul e de repente até me lamentei por nunca ter tido muito contato com o Master System. Ele também ama a Mística e eu, que sou toda Wolverine, até consigo concordar que ela e Magneto são realmente personagens fascinantes!

Ele acha estranha a minha mania de só comprar um livro após lê-lo e ter a certeza de que gostei (não gosto de desperdiçar dinheiro), mas ele curiosamente resolveu experimentar essa nova forma de se relacionar com os livros e, ele me disse, acabou gostando. Fico feliz que eu o esteja influenciando em alguma coisa (especialmente em coisas tão singulares minhas que considero particularmente boas, vantajosas). Claro que parece uma coisa boba e pequena, uma Tio Patinhas ter tal ato mesquinho. Mas, uma das coisas que mais gosto nele, é a valorização que ele dá a minhas particularidades. Ele entende minhas pequenas e grandes loucuras e eu as dele. E isso, caros anônimos, é coisa muito rara de se encontrar na vida. Valorizem!

Enfim, só queria deixar registrada que tem sido muito, muito bom conviver e conversar com ele. Que é sempre tão compreensivo e às vezes, inutilmente, tenta me irritar com calúnias, pois posteriormente sempre caímos no riso. Sei que ele não gosta de exposição, e também que ele vai esperar mais pelos parabéns de pessoas específicas nesta data especial, e eu fico feliz que esteja incluída no clã restritíssimo de seus amigos. Também não sou apenas "mais uma" amiga deste clã, pois, quem dele faz parte, sabe que esse cara cuida especialmente de cada um. Eu espero que ele saiba (se não souber, vai realmente levar uma bronca daquelas, um discurso gigantesco de indignação) que é importante em minha vida, e que eu o desejo sempre as melhores coisas. Ele tem uma mente e um coração incrível, se eu pudesse fotografava essa combinação pra vocês verem, ou guardaria num potinho da minha estante. Bem, eu quero que Deus lhe dê muitos anos de vida e mais pessoas em seu caminho para ele cuidar, na medida do possível. Acho que nem ele mesmo tem noção do bem que faz às pessoas, mas eu e Ele sabemos. Eu quero também que ele tenha muita saúde, e que a gente possa compartilhar mais momentos. Celebrar anos de amizade, idas ao cinema e à Livraria. Nunca chorei em sua frente, mas sei que, se o fizesse, ele entenderia perfeitamente e me traria as palavras ou o silêncio de que preciso. E tento ser da mesma forma com ele.

Serginho. Esse menino, esse cara, está fazendo aniversário hoje, dia 22, mas quem se sente feliz e de parabéns sou eu. Por ter um alguém assim, na minha vida. Espero que ele aceitei humildemente esta pequena homenagem com alegria e gratidão. (É limitada, confesso, se não me coloco freios, escrevo um artigo inteiro sobre isso!) Infelizmente não achei o vídeo de "As cores invejaram o azul" para colocar aqui, mas eu vou deixar o trechinho de uma música que gosto muito, e cujo título sei que vai gostar:

"Alguém te perguntou como é que foi seu dia 
Uma palavra amiga, uma notícia boa 
Isso faz falta no dia a dia 
A gente nunca sabe quem são essas pessoas" (Céu Azul - Charlie Brown Jr.)

Obrigada por ser essa pessoa tão gentil e linda, meu amigo! Eu sei que você é uma dessas poucas pessoas que pára para olhar nos olhos e perguntar, de maneira que não nos deixa mentir: "Como você está, minha cara?" Enquanto escrevia esse texto, não pude deixar de pensar na quantidade de coisas que já compartilhamos e tudo isso em apenas um ano de amizade! Tive que, de fato, escolher algumas das coisas mais marcantes para que tudo não ficasse mais extenso do que já está, espero que goste. Pra mim foi uma experiência especial escrever para você. Sou sua fã. Muito obrigada por sua amizade, por me influenciar tão positivamente, por despertar meus comentários ácidos, por me fazer querer ser um alguém melhor, por me apresentar a Terra do Nunca, são muitas coisas para agradecer e desejar! Em resumo, seja feliz, e, mais uma vez...
Feliz Aniversário! Um brinde a sua vida! ♥


Caro é transformar-se num arremedo de si próprio a ponto de nem se reconhecer mais
Hoje eu tenho 130 anos, isso não estava nos meus planos
Você sabe, a desordem é tenaz.
Tantos laços, tantas amarras
Os controles, pretensões
Nada adianta se o vento não soprar
Esse vento sob minhas asas,
Eu não mando mais em nada.
Sei que é alto, mas eu vou pular
O que todos vão dizer
E aonde vão chegar
Nem os olhos podem ver
Decidido, eu não volto pra casa
Ao lar, ao corpo e todas as palavras
Que a vontade, conseguir pensar.
Segue o vento sob minhas asas
Eu não mando mais em nada
Sei que é alto mas eu vou pular
O que todos vão dizer
E aonde vão chegar
Nem os olhos podem ver

(Agridoce - 130 Anos)

domingo, 18 de maio de 2014

Feiosa.

Não é só a escrita que anda decaindo. Quem dera, unicamente, a qualidade dos textos fosse o que de mais feio há em minha vida. Uma caixinha de papel, cuidadosamente confeccionada e enfeitada, me aponta vitórias e conquistas. Porém, está sendo perturbadoramente intimidada por um grande caixote de madeira, feio e robusto, de letras fosforescentes, que gritam/piscam/dizem: Fracasso. Subentenda: decadência; incapacidade de se movimentar e lutar; desilusão com a vida e as pessoas; inércia. Quero amor a mim, cada vez mais. Quero amor/saúde com e para com todos. Quero parar de me demorar em poemas íntimos, que falam sobre dor e a agonia de se sentir incompleto, quero voltar a me identificar com as coisas mais leves do mundo. E sentir o sorriso simples iluminar o rosto, esquentar a alma, acariciar o coração. A mínima menção a essa palavra me perturba... Coração. Ajo como uma simples massa flutuante, procurando por uma porta aberta que me indicará o caminho do milagre. Do despertar. Corpo, coração e alma, eles não têm a segurança e o carinho que merecem e, apesar de eu ser totalmente consciente da culpa, não consigo fazer nada. Não consigo cuidar. Simplesmente evito espelhos e conversas profundas, e sigo como se não precisasse olhar para mim mesma de maneira alguma. É feio e indigno. Mas é legítimo. É o que sou e ajo. Não tenho mais paciência para olhar imagens bonitas, ou Caio (o Fernando Abreu), ou conhecer músicas de melodias doces e amigáveis. Nem faço questão das coisas de antes. Tenho saudade do tempo em que eu conseguia ouvir as melodias suaves em meio ao caos. Eu achava que ainda era ruim, pouco, insuficiente. Se eu pudesse ao menos me ver agora... Teria valorizado muito mais aqueles instantes. Que saudades de me sentir eterna...

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Who am i?

Sabe aqueles testes bobos da internet, sobre que tipo de pessoa somos, do que gostamos e o lugares onde deveremos morar? São fúteis e eu adoro. Mas nunca parei pra me perguntar o porquê de eu gostar dessas coisas que, equivocadamente ou não, tentam definir as pessoas. A gente responde a uma série de perguntas e, em muitas vezes já sabe qual será o resultado, então: qual a necessidade de continuar? De fazer outros semelhantes? Qual a necessidade de me definir?

"Quem se define, se limita" - uma frasezinha que tenho certeza que já vi em pelo menos umas 5 redes sociais, em centenas de definições naquela partezinha do perfil, o "quem sou eu". E eu discordo. Discordo porque, observando minha compulsão por testes, percebo que é mais que um resquício do anseio adolescente por se encaixar em uma categoria proposta por site, revista, ou quaisquer outros meios. É uma necessidade real de saber "quem sou eu?". E se definir, se derramar em palavras com a segurança de não ter medo em se descrever. Quem sou eu? Sou protetora, amiga, explosiva, calma, ansiosa, discreta? E por que esse não querer olhar para si e, quando consegui-lo, não conseguir discernir? Por que é tão fácil observar e dizer seguramente que o meu melhor amigo é alguém inteligente e introspectivo, e ter medo de atribuir a mim mesma essas qualidades? Por que essa ilusão de que, a cada pergunta respondida e a cada resultado definido, eu sei um pouco mais de mim?

No fundo eu queria me definir inteira. Quem sabe me escrever, compor, musicalizar, poetizar, encenar, de maneira a não deixar dúvidas e a deixar os testes somente divertidos, perante a segurança de saber quem ou o que sou, assumindo riscos! Ai que vontade de me conhecer em outra pele, pra saber como vejo o exterior desse edifício. É um prédio de duas décadas, com uma fachada tradicional e por dentro, milhares de andares e salas cuidadosamente separados, porém sempre em obras, divididos entre chefes que querem somente restaurar as salas e uns poucos revolucionários que querem tentar cores e texturas diferentes, uma verdadeira bagunça! E, pensando bem, nem sei se é uma bagunça tão bonita assim. Começo a sentir um real desejo de organizar, definir, limitar.

"Porque eu sou do tamanho daquilo que sinto, que vejo e que faço, não do tamanho que as pessoas me enxergam." - não sei se é Drummond ou Fernando Pessoa em seus heterônimos, a única coisa que sei é que ando meio míope para enxergar, e muito insensível para perceber tais coisas.

Diante de tudo, não posso deixar de me sentir Alice, perante os questionamentos da Lagarta. (como não?)

-

"Quem é você?", perguntou a Lagarta.

Não era uma maneira encorajadora de iniciar uma conversa. Alice retrucou, bastante timidamente: "Eu - eu não sei muito bem, Senhora, no presente momento - pelo menos eu sei quem eu era quando levantei esta manhã, mas acho que tenho mudado muitas vezes desde então."

(...)

Então fez-se um silêncio por alguns minutos.

A Lagarta foi a primeira a falar.

"De que tamanho você quer ser?", ela perguntou.

"Oh, eu não ligo para qual tamanho", respondeu Alice apressadamente, "apenas um que não fique mudando sempre, a senhora sabe."

Alice no País das Maravilhas, Cap. 5: Conselho de Uma Lagarta
(Lewis Carrol)

sexta-feira, 2 de maio de 2014

100 perspectiva(s)

"Eu tinha vinte e poucos, bem poucos, quando acordei pra vida. Eu sonhava muito e tinha uma porção de coisas pra fazer. Eu lia mil livros, mas nenhum daqueles reinos realmente me ajudou, então eu tive que tirar férias permanentes para poder organizar minha vida de uma perspectiva real. É, e eu assistia a muitas coisas também... Mas na maioria das vezes era para fugir das encucações e conseguir sorrir uma, duas, três vezes ao dia. Tinha a mania feia de não procurar minhas amizades, de sempre esperar ser encontrada primeiro, além disso, meu orgulho se feria muito rápido, logo no primeiro "não" recebido. Porque eu me achava forte demais, mas no fundo sabia que era uma fraca por não assumir minhas fragilidades. Nem para os amigos. Eu cheguei ao ponto de me ver sufocada e contaminada com uma porção de segredos não compartilhados. Passei mais de duas décadas entre o se arriscar e o medo de viver. Infelizmente, eu sempre escolhia a segunda opção, e perdi muitas oportunidades. Até o dia em que eu reparei que ser invisível não estava me ajudando muito. Eu estava adoecendo por dentro. Estava murchando, aos pouquinhos, deixando que a vida tirasse cada gota de alegria que eu não poderia dar. E por mais que viesse gradualmente percebendo tudo, sentindo tudo, escrevendo sobre tudo, não era o suficiente para acontecer alguma mudança real. Não sei explicar, de verdade, como a mudança realmente ocorreu, quando dei por mim, já tinha passado por cima de vários dos itens de minha lista de restrições. Me peguei puxando conversa uma ou duas vezes com estranhos nas ruas, conhecendo pessoas novas e aceitando contemplar seus universos. Assim, venho aprendendo mais de mim, enriquecendo meu próprio universo. Me peguei participando. Observando menos. Aliás, observando menos de mim e mais do mundo, das pessoas. Aceitando fazer, aprender, errar. Entendi que cada oportunidade é única e estou cada vez mais cheia delas. É por isso, caro computador, caro blog, caro papel, cara caneta, cara pessoa que insiste em vir aqui ler um pouco de minhas palavras e minhas bagunças, que estou cada vez menos presente. E cada vez mais viva."


xx

Tenho isso em mente para dizer quem sabe algum dia, daqui a uns poucos anos (ou quem sabe um ano?), para justificar minha falta de textos. Mas enquanto houver um texto/desabafo cuidadosamente preparado (ou vomitado) em cada mês (ou semana), este dia se distancia consideravelmente. E todos (inclusive eu) saberão que estou impaciente e desesperançosa para as mudanças que, supostamente, sempre vêm.

Definitivamente cansada dessa coisa entre vírgulas. 

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Vou me lembrar de você

Hoje sonhei com ele.
Não lembro nitidamente de como ou quando ele apareceu, quando dei por mim já estávamos próximos, conversando daquela nossa maneira meio distante, caminhando à beira do mar, numa praia estranha. Semelhantes. Ele me perguntou como as coisas estavam, e eu lhe respondi que estava tudo bem, todos estavam bem... Foi tudo tão real, tão igual a como as coisas eram antes, quando ele estava vivo, ao ponto de me surpreender a clareza com que lembro das expressões dele. Ele estava sóbrio. Mas com aqueles olhos tristes de sempre. Seu rosto marcado, seus olhos amarelados, estava magro... Apoiado em uma perna só, como quando me esperava na rua, pra gente conversar e acordar algumas coisas. Então eu lhe contei sobre meus futuros planos, expliquei que estava fazendo um curso preparatório, que estava estudando... Ele se interessou pelos meus possíveis futuros empregos, e eu lhe expliquei pacientemente sobre cada uma das instituições que estão promovendo os concursos que farei, em alguns dias. Em sua voz não havia escárnio, ou aquelas brincadeirinhas sem graça, tampouco descaso sobre minha futura profissão... Ele apenas acenou positivamente com a cabeça, como quem entende. Como quem estivesse satisfeito. E quando ele ia embora, em direção a alguma porta que, exteriormente, seria normal como qualquer outra se não estivesse localizada em meio à plantas; quando ele se virou e ia caminhando, tomando o seu caminho, eu me senti feliz. Sim, feliz. Não houveram abraços ou trocas de carinho, como sempre fora, mas ainda assim eu não pude deixar de sentir um imenso alívio pois, acima de tudo, eu sabia que, não importava onde ele estivesse, ele estaria bem. Com aqueles cabelos ralos, com aqueles olhos meio distantes e pouco peso, aquela postura e expressão dura... Sim, aquele era meu pai. 
Quando acordei, a nitidez das lembranças me deixou um pouco feliz, completa... É bom saber que guardo imagens de sua personalidade tão peculiar. E elas estão vívidas, em algum lugar aqui dentro. Foi meu subconsciente me alertando de que, para cada lembrança ruim ou traumática, existe uma lembrança calorosa e boa, para revitalizar.
Nunca vou entender o porquê dele ter partido, nem o momento em que isso ocorreu. Mas ainda que eu tenha chorado (e chore) muito, às vezes, pelas tantas ausências, e pelos tantos "e se?", eu realmente consigo sorrir ao lembrar das marcas positivas. E isso nunca se vai ou substitui.

Como diz aqueles versos que tanto amo:


Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você
Só enquanto eu respirar