Ninguém nunca me enganou durante a graduação, ninguém nunca me prometeu de que as coisas seriam diferentes. Há 10 anos atrás eu era uma caloura de 17 aninhos louca pra "mudar o mundo". Logo no primeiro período os professores fizeram questão de desconstruir todo esse messianismo e mandar a real. Pra ver quem teria culhões de ir até o final. Pra ver se era isso mesmo que a gente queria. Eu com 17 anos achava que meu lugar era ali e que eu devia ir até o fim porque "a hora é agora", "não há tempo pra arrependimentos". E então chegou a vida profissional.
Palavras como "precarização", "desvalorização", "desvio de função", "violência institucional", "assédio", "falta de reconhecimento", se repetiram várias vezes em todos os períodos. Como uma espécie de teste de resistência. Mas nada como vivenciar, sentir na pele o discurso. Mesmo que ninguém nunca tivesse dito nada antes, você seria capaz de chegar à conclusão sozinha. Você acha que ouvir por tanto tempo, tantos períodos, tantas aulas, tantas semanas, ler em tantos textos, tantos livros, vai te preparar pra vida profissional. E não vai. Nada te prepara, nem mesmo o período de estágio, sabe? Abraçar o Serviço Social é uma das coisas mais difíceis que eu escolhi fazer, tanto que, após 5 anos exercendo, estou tentando mudar de área. Antes faltava autoestima e coragem, porque a rotina potencializa a depressão e a ansiedade - essas são coisas que tem o poder de te paralisar e atrasar a tua vida.
Mesmo quando compartilhamos as dores, as rotinas, as frustrações com nossos colegas, é fácil cada profissional se ver ilhado. Eu sou uma ilha. E por diversos motivos... Um deles é porque, dentre os meus, há predominantemente uma resistência, uma força imensa pra continuar acima de tudo, uma identificação e vontade de permanecer. Não há ninguém que esteja querendo desistir simultaneamente enquanto luta. Me sinto ilhada também porque, infelizmente, não há pessoas próximas que tenham a capacidade de se colocar em meu lugar. Digo isso não como acusação, mas como uma constatação mesmo.
Ser assistente social é explicar constantemente até pros seus entes queridos o que você faz, e o porquê de não poder fazer tal coisa, ou porquê uma fala específica te deixou chateada, ou porquê você tem um pé atrás com certa classe de profissionais, ou porquê você teve que ser mais firme em tal situação, ou porquê está cansada e desgastada mentalmente, etc. Isso, quando não te tratam como exagerada. "Não pode ser tão ruim assim"; "Tenho certeza de que você consegue aguentar mais um pouco"; "Você não consegue perceber que você é privilegiada"; "Pensa naquelas pessoas que estão em situações piores"; "Meu sonho é ter essa sua carga horária"; "Acho que você está no modo autodefesa"...
Se eu não tivesse esse modo ativado, provavelmente estaria muito pior. A minha autodefesa é meu senso de humor, eu com certeza sou a pessoa mais piadista do setor onde trabalho. Porém devo ser a única que ainda vai dormir chorando por sequelas emocionais daquele dia de trabalho. Não sou novata. Não espero coisas utópicas. Sou apenas humana. E estou cansada, sabe? De simultaneamente não conseguir mais e de não ser compreendida. De trabalhar em dobro: fazendo a sua função e tendo que explicar porquê aquilo é a sua função.
Trabalho em um lugar onde nosso serviço não é visto nem tratado como essencial. Pessoas próximas em seus discursos e achismos concordam com esse ponto de vista. Veja bem, quando disseram que não haveria reconhecimento, esqueceram de mencionar que isso não se limitaria aos usuários e colegas de trabalho. Isso atinge até os entes queridos, o que acaba machucando mais um pouco, talvez. Porque você tem a falsa ilusão de que, por serem pessoas que acompanharam sua luta desde o início, poderiam sentir o que você sente. Mas não podem. Sou uma ilha, tenho que cuidar sozinha dessas coisas que somente eu tenho ciência e dou a devida importância. Absolutamente ninguém, por mais empático que se demonstre, tem ideia dos danos emocionais, dos impactos psicológicos.
Estou frequentemente tentando provar o meu valor, isso é algo que me acompanha desde a infância. Pessoas como eu se sentem na obrigação de provar algo a alguém. Odeio admitir fraquezas, então quando eu exponho, espero que acreditem em meu clamor. Eu não espero que me vejam como fraca, mas apenas como humana. Forte, sim, mas isso não me isenta da fragilidade humana com a qual estou lidando agora. Sempre tenho o receio de demonstrar coisas demais... Então me contenho, me convenço de que não vale a pena o discurso e a exposição. Infelizmente, na maioria das vezes estou certa sobre isso.
Nesse contexto pandêmico, meu "isolamento social" tem sido no meu quarto, com a minha colega de apartamento na sala, enquanto choro sem querer responder a perguntas ou justificar quaisquer coisas. Em tempo de incertezas, repito que vai ficar tudo bem. Que minhas queixas são válidas, que não são apenas sinal de fraqueza, não desta vez. Passo a maior parte do dia deitada e sem forças, graças a Deus não é o novo vírus. Esse novo contexto veio somente a calhar, somar às dores que tem se potencializado recentemente e me deixando quase perdida. Quero dormir o tempo todo, porque esta é uma forma de não ser devorada pelos pensamentos.
Queria fazer a minha amiga se sentir menos sozinha mas, como, se sinto eu mesma como uma ilha? Não acredito em meu potencial consolador neste momento. Tenho estado preocupada com várias pessoas e não posso fazer muita coisa, tenho tentado cuidar de longe e rezo para que não percebam o medo e a tristeza cada vez mais frequentes em mim. Com certeza entenderiam tudo errado. E Deus sabe que estou perdendo as estruturas até por causa de mal entendidos. Já se foi o tempo em que eu e as palavras tivemos uma relação harmônica.
Talvez esse desabafo seja retirado daqui posteriormente. Antes que alguém possa ler e me achar vitimista, pessimista, derrotista ou quaisquer "ista's" que costumo ouvir. Enquanto me preparo pra dormir penso que amanhã será mais um dia de trabalho em meio a esse caos chamado saúde pública e Serviço Social. Quando o mundo interno e o externo se colidem é aí que você testa a sua fibra. Eu sinceramente espero não ter mais nada a provar ou testar... sou um soldado ferido, será que isso não conta em nenhum contexto? Temo que não, pois os ferimentos não são físicos.