domingo, 15 de setembro de 2013

Palavra com p (parte 2)

Será que você sabia? Eu olho as fotos desse tempo e lembro o quanto e como você foi. Lembro bem, lembro de alguns detalhes importantes, engraçados, lembro das partes boas. Faz muito tempo... Fico pensando exatamente em que momento você começou a se desfazer ou se realmente foi uma perda gradual. Fico me perguntando se eu poderia ter feito alguma coisa pra impedir, além de todos os pedidos de “não beba”, “não fume”, “vai ao médico” que eu aprendi a fazer desde cedo, ao ver, assustada, seus descontroles. Além de minhas infinitas orações... 

 Eu me pergunto se você sabia que eu tinha mais saudades de você que gostava de admitir, e tive muita raiva quando você saiu de casa por conta de seu “pequeno probleminha”, razão de toda separação. Tive raiva porque eu sabia que você tinha ciência de seus problemas mas mesmo assim se omitiu. Eu me pergunto o que eu poderia ter feito para que você procurasse ajuda ao invés de adoecer cada vez mais e se afundar num buraco construído por você mesmo. 

 Eu me pergunto em que momento as coisas foram ficando cada vez mais distantes, mais estranhas, mais difíceis de superar, como se isso agora pudesse fazer alguma diferença. Mas a pergunta mais recorrente é a que mais machuca também: será que você sabia que eu te amava e que todo o meu estresse e minha cobrança era somente por causa disso? Que eu te queria bem, te queria perto, te queria de volta, será que você sabia que eu me importava e por isso mesmo tinha receio de te procurar e te encontrar cada vez pior?

Mas que diferença isso tudo faz, agora? Eu não sequer sei se você me reconheceu no Hospital, o que sei é que percebi tarde demais que deveria estar apenas por perto. Eu nunca te dei um abraço e nunca disse que eu te amo e que eu quero te ajudar. Você também não. Somos parecidos demais, até. Palavras não funcionam, somente ações. E quando você parou aos poucos de agir foi quando a mágoa falou mais alto que o amor, e eu percebi tarde demais que o amor deve sempre falar mais alto. Eu queria ter dito tanta coisa... Mas não sei se isso realmente teria feito diferença, teria mudado suas escolhas. Eu fiz o que pude, dentro das minhas limitações, das minhas mágoas, de suas grandes ausências. Seu presente de dia dos pais ficou em meu guarda-roupas e agora faz todo o sentido o porquê de você não ter retornado minhas últimas ligações. 

 Desde ontem o espaço que era preenchido pela mágoa causada por suas palavras e atitudes duras, por sua indiferença, pela expectativa de que você mudasse por mim (por nós, na verdade), foi preenchido por compaixão e vontade de estar apenas com você, ajudando no que puder. Mas foi tarde, em menos de 24 horas sua hora chegou e eu não sei se aquelas horas na UPA foram suficientes pra você perceber meu amor por você e que você não era um fracassado, mas acima de tudo meu pai. 

 Você sempre foi tão duro consigo mesmo, nunca chorou na minha frente, nunca admitiu fraquezas, sempre achou que deveria se portar assim. Sempre respeitei seu jeito, sou semelhante, mas hoje tô cansada de esconder minhas dores... Falo pra você, sabendo que você não vai me ouvir. E isso dói, mas dói de uma maneira que faz eu me sentir mais impotente que de fato sou. Onde você estiver, espero que esteja bem. Vou tentar guardar comigo as coisas boas que aprendi, e gravar a melhor imagem sua que eu achar em minha memória. Preciso esquecer o quadro aterrorizante que foi encontrar você tão decaído naquela enfermaria, com hematomas e barba de sobra, lucidez e peso faltando à beça. 

Eu queria ao menos ter a certeza de que apesar de você não ter falado nada, quando você segurou minha mão e beijou, você soube que era importante pra mim, tão importante quanto eu e minha irmã fomos pra você, e isso estava explícito também na camisa que você estava usando, com a foto de nós duas. Enfim, daria tudo para saber se você está bem agora, se você realmente “descansou”, como dizem. Espero que sim. Espero que você tenha seguido seu caminho em paz... Com certeza vai ser lembrado sempre por suas histórias, suas piadas, seus momentos de lucidez e prestatividade, todos que conheceram seu lado bom acreditavam que você algum dia voltaria a ser sempre essa pessoa, que você sairia dessa. 

 Ainda tá doendo, Deus sempre aturou meus “por quês” e “pra quês”, mas hoje só quero pedir a Ele forças, a todos nós, e paz pra mente, pra alma. Também O agradeço demais por tê-lo visto uma última vez antes de partir, isso foi importante. E assim é a vida. Inesperada. Você marcou a vida de tantas pessoas, e a maioria delas queria te ver bem, te ver recuperado. Tenho uma fé pequena, mas ela era suficiente para eu alimentar esperanças de que você cairia na real antes de ter que partir assim... Mais uma vez, eu estava errada. Mais uma vez a vida mostra que não temos controle algum sobre ela. Queria ter a certeza que você sabia dessas coisas. Fica com Deus, pai ("Chicão", "Edinho"... como todos te conheciam). Descansa, enfim, nos braços Dele.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

A hora mais escura

Eu temo a hora mais escura do dia. Sim, eu temo. Tenho tanto medo da solidão que vem de repente, como uma mão que aperta, espreme o coração até conseguir trazer lágrimas consigo.
Eu temo porque sei que todos os dias ela sempre vem, eu tenho um medo desesperador de ser arrebentada mais que o normal, mais que o necessário estando assim, tão vulnerável.
Tenho medo mais ainda porque sei que no meu dia há a probabilidade de ter várias horas escuras... Esse céu nublado ameaçando de vem em quando a luz de meus dias, até quando?
A hora mais escura é aquela onde tenho uma falsa certeza de que ninguém pode me ver... A hora em que eu perco o foco, a vista, o ar, e só me entrego ao choro silencioso das noites, pois não há mais forças para soluços, o desgaste antes emocional afeta o físico e assim me permito morrer imóvel em minha cama, meu travesseiro, meu quarto escuro e quente...
Na manhã seguinte, renasço. Sou forte, sou dura. Sou de aço. Nunca chorei, nunca me entreguei à dor, e me sinto quase pronta para cair em mais uma batalha diária. Quase. À noite, eu sei, um pouco mais de dor e precipício. 
A hora mais escura chega. E me mostra o quanto de fraqueza e covardia tenho. Passada a autocomiseração, estou prontíssima para me juntar à multidão dos incontentes que ignoram suas incoerências e escondem o desespero medonho que suas dores lhes trazem.


segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Palavras perigosas

Era pior que o silêncio, de fato. Depois de algum tempo discutindo sobre coisas desnecessárias que foram ouvidas e suas inevitáveis consequências, ela aprendeu que o pior não era o tal silêncio que sempre a deixava se sentindo ignorada.... O pior mesmo, eram as palavras erradas. Inadequadas. Gentis. Ditas de maneira calma, racional, sem deixar equívocos. Sem deixar esperanças. Quase sujas, pervertidas aos seus sentimentos, desejava nesta hora ouvir os piores palavrões do mundo em lugar das palavras erradas tão bem pensadas e colocadas pelo outro. Após tantas brigas ela aprendeu de verdade que o silêncio oportuno é uma dádiva...
Teve medo de conversar. Desejou possuir alguma deficiência, de repente, pra não ter que ouvir e guardar mais amarguras. Eram palavras que despertavam em si tudo o que tinha de pior, seu lado mesquinho queria sair e responder à altura da baixeza, mesmo que isto não valesse a pena. Seria golpe baixo, baixíssimo. Rasteira total em suas convicções. Mas dane-se, uma hora isso passou a não importar mais.

Ela disse sim, querendo dizer não.
E ele gritou um não, silenciando seu sim.
Seus olhos dialogaram inesperadamente e algumas lágrimas foram contidas.
Ninguém se entendeu.
Novamente.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Soneto de Separação

De repente do riso fez-se o pranto 
Silencioso e branco como a bruma 
E das bocas unidas fez-se a espuma 
E das mãos espalmadas fez-se o espanto. 

De repente da calma fez-se o vento 
Que dos olhos desfez a última chama 
E da paixão fez-se o pressentimento 
E do momento imóvel fez-se o drama. 

De repente, não mais que de repente 
Fez-se de triste o que se fez amante 
E de sozinho o que se fez contente. 

Fez-se do amigo próximo o distante 
Fez-se da vida uma aventura errante 
De repente, não mais que de repente.


Vinícius de Moraes



quinta-feira, 27 de junho de 2013

- Palavreando

Escrevendo pra não enlouquecer de tanto ter que escrever!
Escrevendo dessa vez para lembrar que as palavras que vão ficar, são aquelas canalizadas diretamente do coração, aquelas que deixo sair pelos olhos, pelos soluços, pelo tremor da risada, pela quietude dos olhos, essas palavras me imploram para serem escritas. Reescritas. Editadas. Externadas de alguma maneira.
É que preciso lembrar todos os dias que nem mesmo estas são eternas e minha agonia diária vai passar. Tudo é passageiro, por que eu, logo eu, quero ser motorista? É barra. Das forte. Todos os dias um bolo se forma em minha garganta, e eu não sei discernir as vontades. Grito? Choro? Tanto faz. TCC? Apenas uma parte muito, muito pequena dessa colcha de retalhos meio tristes, meio rasgados. Atualmente, poderia tranquilamente estar embrulhando um mendigo qualquer no chão frio do centro da cidade.
Olá, mundo. Você continua assustador como sempre.
Oi, gente. Eu preciso de vocês, como sempre. E sempre, sempre, sempre do mesmo jeitinho calmo e confortante. Ando apavorada com palavras, com a necessidade de ter que escrevê-las, na verdade. E o pouco intervalo de tempo entre uma e outra para respirar. Porém ouvi-las de vocês continua tendo o mesmo efeito terapêutico. Da mesma forma que escrever aqui, acolá, em uma folha separada do caderno, em uma das milhares de agenda.
Oi, Deus. Estou devendo milhares de coisas, mas principalmente palavras. No silêncio eu também aprendo, mas sei que precisamos conversar.
Tô chegando...

sábado, 4 de maio de 2013



"De todos os loucos do mundo eu quis você
Porque eu tava cansada de ser louca assim sozinha
De todos os loucos do mundo eu quis você
Porque a sua loucura parece um pouco com a minha..."

Se fôssemos normais, teríamos tanto tempo a perder com coisas tão banais? ♥