Será que você sabia?
Eu olho as fotos desse tempo e lembro o quanto e como você foi. Lembro bem, lembro de alguns detalhes importantes, engraçados, lembro das partes boas. Faz muito tempo... Fico pensando exatamente em que momento você começou a se desfazer ou se realmente foi uma perda gradual. Fico me perguntando se eu poderia ter feito alguma coisa pra impedir, além de todos os pedidos de “não beba”, “não fume”, “vai ao médico” que eu aprendi a fazer desde cedo, ao ver, assustada, seus descontroles. Além de minhas infinitas orações...
Eu me pergunto se você sabia que eu tinha mais saudades de você que gostava de admitir, e tive muita raiva quando você saiu de casa por conta de seu “pequeno probleminha”, razão de toda separação. Tive raiva porque eu sabia que você tinha ciência de seus problemas mas mesmo assim se omitiu. Eu me pergunto o que eu poderia ter feito para que você procurasse ajuda ao invés de adoecer cada vez mais e se afundar num buraco construído por você mesmo.
Eu me pergunto em que momento as coisas foram ficando cada vez mais distantes, mais estranhas, mais difíceis de superar, como se isso agora pudesse fazer alguma diferença. Mas a pergunta mais recorrente é a que mais machuca também: será que você sabia que eu te amava e que todo o meu estresse e minha cobrança era somente por causa disso? Que eu te queria bem, te queria perto, te queria de volta, será que você sabia que eu me importava e por isso mesmo tinha receio de te procurar e te encontrar cada vez pior?
Mas que diferença isso tudo faz, agora? Eu não sequer sei se você me reconheceu no Hospital, o que sei é que percebi tarde demais que deveria estar apenas por perto. Eu nunca te dei um abraço e nunca disse que eu te amo e que eu quero te ajudar. Você também não. Somos parecidos demais, até. Palavras não funcionam, somente ações. E quando você parou aos poucos de agir foi quando a mágoa falou mais alto que o amor, e eu percebi tarde demais que o amor deve sempre falar mais alto. Eu queria ter dito tanta coisa... Mas não sei se isso realmente teria feito diferença, teria mudado suas escolhas. Eu fiz o que pude, dentro das minhas limitações, das minhas mágoas, de suas grandes ausências. Seu presente de dia dos pais ficou em meu guarda-roupas e agora faz todo o sentido o porquê de você não ter retornado minhas últimas ligações.
Desde ontem o espaço que era preenchido pela mágoa causada por suas palavras e atitudes duras, por sua indiferença, pela expectativa de que você mudasse por mim (por nós, na verdade), foi preenchido por compaixão e vontade de estar apenas com você, ajudando no que puder. Mas foi tarde, em menos de 24 horas sua hora chegou e eu não sei se aquelas horas na UPA foram suficientes pra você perceber meu amor por você e que você não era um fracassado, mas acima de tudo meu pai.
Você sempre foi tão duro consigo mesmo, nunca chorou na minha frente, nunca admitiu fraquezas, sempre achou que deveria se portar assim. Sempre respeitei seu jeito, sou semelhante, mas hoje tô cansada de esconder minhas dores... Falo pra você, sabendo que você não vai me ouvir. E isso dói, mas dói de uma maneira que faz eu me sentir mais impotente que de fato sou. Onde você estiver, espero que esteja bem. Vou tentar guardar comigo as coisas boas que aprendi, e gravar a melhor imagem sua que eu achar em minha memória. Preciso esquecer o quadro aterrorizante que foi encontrar você tão decaído naquela enfermaria, com hematomas e barba de sobra, lucidez e peso faltando à beça.
Eu queria ao menos ter a certeza de que apesar de você não ter falado nada, quando você segurou minha mão e beijou, você soube que era importante pra mim, tão importante quanto eu e minha irmã fomos pra você, e isso estava explícito também na camisa que você estava usando, com a foto de nós duas. Enfim, daria tudo para saber se você está bem agora, se você realmente “descansou”, como dizem. Espero que sim. Espero que você tenha seguido seu caminho em paz...
Com certeza vai ser lembrado sempre por suas histórias, suas piadas, seus momentos de lucidez e prestatividade, todos que conheceram seu lado bom acreditavam que você algum dia voltaria a ser sempre essa pessoa, que você sairia dessa.
Ainda tá doendo, Deus sempre aturou meus “por quês” e “pra quês”, mas hoje só quero pedir a Ele forças, a todos nós, e paz pra mente, pra alma. Também O agradeço demais por tê-lo visto uma última vez antes de partir, isso foi importante. E assim é a vida. Inesperada. Você marcou a vida de tantas pessoas, e a maioria delas queria te ver bem, te ver recuperado. Tenho uma fé pequena, mas ela era suficiente para eu alimentar esperanças de que você cairia na real antes de ter que partir assim... Mais uma vez, eu estava errada. Mais uma vez a vida mostra que não temos controle algum sobre ela. Queria ter a certeza que você sabia dessas coisas. Fica com Deus, pai ("Chicão", "Edinho"... como todos te conheciam). Descansa, enfim, nos braços Dele.


