Uma coisa mexeu comigo. Continua mexendo. Não sei se posso chamar de "conflito interno", essas coisas de sempre dessa minha bagunça, mas foi estranho. É uma coisa dessas partes minhas que ficam soltas por aí, em tudo e em todos que adentram minha redoma, são milhares de partículas contendo experiências, relações, afeição, tensão e carinho, mas vamos resumir como "metade", que é pra situar melhor os diálogos e as reflexões. Como sempre, tento organizar pra facilitar essa bagunça.
Uma das minhas metades me disse: posso te fazer uma confissão?
Meio fanha, nariz entupido, respondi como as condições me permitiram: Sim.
Do outro lado do telefone ouvi uma das minhas metades dizer: Eu não te imagino chorando.
Mas como assim, metade minha, se você já viu meu nariz vermelho em outras situações, se entre conversas da alma, outrora, eu te confessei que essa é uma das minhas facetas interiores mais comuns?
Me limitei a sorrir, ainda triste, e respondi com a melhor voz que pude: É sério isso? Mas é tão comum...
E metade confirmou: Sim, não combina contigo.
E eu não sei se fui triste ou feliz naquele momento. O que essa metade minha quis dizer? Que não me conhece, contradizendo tudo o que sempre achei sobre nosso elo, ou que eu não mereço chorar tanto, porque no fundo não combina comigo. Com quão forte sou, quão aguentei/aguento.
Outra metade minha já me disse/diz, várias vezes: Você é muito sensível, eu não tinha ideia do quanto.
E eu rebato: Como não, querida metade? Eu que sempre fiz questão de não esconder nada de você. Logo eu que não tive reservas e sempre abri meu coração sobre as coisas da vida e do mundo.
E ela insiste: É, mas eu achava que podia dar conta, talvez eu não possa.
Rapidamente me entristeço, essa metade sempre me compreendeu e ouviu pacientemente, mas agora dá sinais de cansaço.
E eu sei que naquele momento fui triste, mas também fui feliz só porque tive razão: aquela primeira metade estava errada, eu sou sensível mesmo. Nível manteiga derretida será?
E quando eu penso que as coisas não estão entrelaçadamente confusas o suficiente, vem a terceira metade, aquela que, apesar de sincera, sempre se comunica cheia de dedos e pergunta: Você está bem? Quer conversar?
Às vezes realmente quero, mas não era o caso. Então me limitei apenas a responder que não.
Casualmente essa metade me dá nos nervos, porque ela sempre me lembra do quão sou sensível, e do quão os outros (não ela) são insensíveis a meu jeito sensível. Mas essa metade não me conhece plenamente. Ela acha que a minha cara feia é somente uma defesa, mas nem sempre sabe interpretar.
Essa metade acha bonito quase tudo que eu faço ou digo, e eu me pergunto se não é porque eu me omito algumas vezes em dizer: Para, por favor. Não sou uma dama de ferro, mas também não sou florzinha. Sei ser intolerante e indiferente.
Essa última metade não tem culpa, pois eu já lhe mostrei(e mostro) meu lado sensível, mas ela não entende que eu sou feita de mais que isso. E a prova mais concreta é de que eu fico muito irritada com tamanho cuidado, que coisa mais chata, me machuca, por favor, pra eu saber que a vida é real!
E será que dessa forma não concordo eu com a primeira metade?
Ou não consigo aceitar minha sensibilidade tão exacerbada como diz a segunda, e segundo a qual, me trata a terceira?
Quem é insensível na verdade, a primeira ou a segunda metade? E a terceira, por quê me deixa com ânsia de vômito (o que confirma parte da teoria da primeira)?
Me ocorreu que talvez o problema seja nas minhas formas multifacetadas de me mostrar e me distribuir por aí. Não tenho conclusões, não sei o que fazer (nem se devo fazer algo), o que sei é que todas essas metades são partes muito bem quistas, muito bem trabalhadas e alimentadas, elas que falem por si só de qual lado meu conseguiram extrair o melhor.
Me ocorreu que todas as partes não me conhecem igual, cada uma guarda um pedaço muito forte, muito marcante de quando me conheceu, e estão sempre me lembrando quantas faces, quantos fragmentos sentimentais tenho, quantas lembranças diferenciadas, o quanto eu posso ser. Posso me desmanchar em lágrimas e agir impiedosamente no mesmo segundo.
Me ocorreu que eu estou sempre apostando que não há nada para se orgulhar em mim. Se for excesso de sensibilidade é ridículo. Se for ausência, é mesquinho, escroto. A impressão que tenho é que ninguém me conhece, verdadeiramente, porque eu sempre guardo o que não convém pra mim. Seja doce, ou seja porre. Depende da metade... Depende do quanto eu ganho em ser com ela, em ser dela.
Esse texto ficou uma porcaria, mas é uma bela porcaria colecionável em meio ao meu caos.
Foi marcante parir essa porcaria.
Gostei de parir essa porcaria.
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pega leve.
sou sensível.