segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Continua sendo tarde demais

Hoje faz exatamente um ano que eu recebi uma notícia que - até hoje - foi a mais triste de minha vida. Um ano que eu acordei e me deparei com essa "bomba" que não explodiu de vez, mas cada dia, a cada lembrança de esperança jogada fora, explode um pouquinho e me deixa sem ar. Sem saber como proceder e, como toda capricorniana convicta, eu odeio perder o controle das coisas. Também detesto essa coisa de não superar rápido, como acontece normalmente com outras grandes tristezas de minha vida. Eu já pensei várias vezes, já gastei várias horas tentando achar explicações por meio de pessoas, análises, autoanálises, estudos, orações, qualquer coisa do gênero e somente cheguei à conclusão de que o luto não é algo racional. Simplesmente não é. Posso dizer, com convicção, de que naquela manhã de Domingo, foi-se embora não só o meu pai, mas uma série de esperanças que foram criadas e alimentadas secretamente em meu íntimo, durante anos, de que dias bons voltariam e de que, algum dia, ele se renderia à necessidade óbvia de se tratar e voltar a ser um alguém (ou pelo menos parte dele) que tinha sido. A duras penas, descobri que perder de vez suas esperanças é uma das coisas mais irreparáveis, no sentido mais humano, que existe.
Hoje faz um ano que chegou ao fim aquela grande saga que envolvia afeto, mágoa, preocupação, amor, rancor e tudo o que de mais humano e complicado pode existir em um relacionamento. Escrever sobre isso tem se tornado uma das maneiras mais simples que consigo fazer para organizar as coisas em minha mente, eu que sou tão pragmática e gostaria de separar em gavetinhas meus pensamentos e sentimentos. Mas infelizmente, tem me deixado vulnerável demais, de modo que me vejo obrigada a escrever para não enlouquecer, não mais como um ato de prazer e satisfação, mas como uma obrigação necessária a minha sanidade emocional. Não tem funcionado muito, mas é até onde minha covardia permite que eu vá. Escrever sobre isso é, acima de tudo, perturbador. Sempre bate aquela agonia de saber que não importa quantas palavras eu junte, ou o quanto eu consigo organizar aqui dentro. Ele não sabe. Ele não saberá. Ele nunca soube. Sempre vai ser tarde demais para qualquer palavras escritas ou compartilhadas, após aquela manhã de Domingo.
Sempre será tarde para as cartas vencidas, ou "eu te amo" não ditos, a dor que dói mais.

"Trancar o dedo numa porta dói. Bater o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, doem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu."
 (Martha Medeiros - A dor que dói mais)

♥ 15.09.2014† 

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