quarta-feira, 15 de novembro de 2023

à espera do fim

como foi que a minha vida se tornou essa coisa claustrofóbica eu não sei dizer

às vezes acordo sem ar. e faz muito calor. 

a temperatura tem aumentado catastroficamente. a da cidade, do país, do planeta. acordo envolvida pelo vento morno de um ventilador em estado terminal.

estou cercada de fotos.

outrora um mural de lembranças sobre dias felizes, me lembrando de sonhar e sorrir, me lembrando que posso ansiar por mais

hoje um memorial fúnebre

por mais que anseie, não há caminho feliz a percorrer que me leve até o desejado, no final

todas as promessas que fiz ao sorriso convertido em lágrimas, nenhuma delas, consegui cumprir.

no fundo sempre soube que não estava ao meu alcance mas quis fingir um pouco de controle para ter a calma que só uma situação de falsa segurança trás. o meu falso sorriso mascarou nossa tristeza para ela dormir em paz

foi tudo passageiro, como previ. o sorriso trêmulo que dei, as palavras vazias de promessas impossíveis, as lágrimas que silenciaram, agora para sempre

a única eternidade que resta é a da sua ausência, da saudade, da partida precoce aos meus olhos, dos arrependimentos mil

a eternidade dessas lágrimas que nunca vão embora realmente, sendo às vezes minhas únicas companheiras no calor de meu quarto

já dentro do peito há uma aridez, um vazio, algo que foi queimado violentamente e nunca mais se recuperou. ainda não soube como habitar esse oco, pois não sou boa em ressignificar ou fazer nascer, mal sou boa em manter.

no ápice da crise, grito em meio a um eco, tentando ouvir algo de volta, um sinal de qualquer coisa que me convença de que há algo substancial por vir

mas tudo que tenho no momento é uma voz trêmula e as centelhas da tragédia ainda em meu rosto

dia após dia sangro mais um pouco, às vezes muito, às vezes estanca, às vezes o sangue corre livremente só para lembrar da vivacidade que restou. às vezes a lágrima também estanca e é nesse momento que me viro e me reviro, desisto de combater a agonia e abraço a crise.

ansiedade? não. saudade.

quando ela se foi, levou consigo parte de minhas motivações, e não pude fazer nada para substituir a tempo. ela, que só via as partes espinhosas e as vezes florescidas dos galhos, jamais iria entender o quão profundas eram essas raízes agora mortas

ela se foi e eu fiquei, mas fiquei sem direção e sem pilares fortes o bastante para querer ficar e reconstruir

sobrou a letargia, as faíscas de raiva, o conformismo, e a espera do fim

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

02/11/2023

Não quero ser obrigada a pensar em você só porque hoje é dia de finados. Se estivéssemos no universo de "Viva, a vida é uma festa", com certeza eu acenderia velas, faria um altar, tudo certinho como deveria ser. Isso tudo pra dizer que não preciso de um feriado, de um dia dos mortos, pra que você esteja em meus pensamentos.

Durante tanto tempo te imaginei como uma coisa certa, mãe, sem me atentar que todos somos passageiros, sem ideia de quando é o nosso voo de volta. E como eu costumava pensar que você sempre estaria aqui... Pelo menos até bons anos. Eu só queria mesmo era que tudo voltasse a ser como era antes, mesmo nos nossos anos mais difíceis, nada era tão ruim como a sua ausência. Você faz falta demais. 

Não consigo aceitar o fato de que foi melhor assim, de que a solução para toda a dor foi o descanso eterno. Nem sei se tomo isso como verdade, é mais como aquelas coisas que repetimos até nos convencermos, para tentar lidar com a dor. Para não perder a cabeça frente ao "nunca mais". Para tentar seguir em frente "apesar de", tentando negociar razão e emoção, em vez de simplesmente desistir e se entregar à melancolia e à depressão. 

Eu continuo achando que você merecia ainda viver e ver tantas coisas, mesmo com todas as rusgas em nossa relação e a convivência manchada pelas discussões às vezes desnecessárias, a gente sonhava juntas. Lembra? "Um dia a gente vai conhecer esse lugar..." "Eu, tu e Duda, a gente podia fazer sabe o que, um dia?" Você contava seus planos pro futuro, e era tão cheia de vida, apesar dos tantos problemas... Como conseguia? Até hoje não me conformo que tudo se apagou assim, foi pouco a pouco mas pareceu que foi de um segundo pra outro. 

Sempre me lembro do seu jeito vivo, engraçado, enérgico... A palavra "vida" lhe caía tão bem! Deve ser por isso também que me recuso a te associar à morte, a finados, a luto... Embora seja tudo que eu tenha hoje. Sua ausência. E como dói olhar pras memórias felizes e saber que elas foram as últimas. 

Eu não tenho medo de esquecer teu cheiro, tua risada, teu jeito, porque até do teu choro eu me lembro. Eu estava lá. Eu estava lutando contigo e sonhando com o dia que tudo iria passar. Querendo de volta somente a normalidade de dias caóticos, porém saudáveis.

Quando paro e penso em nós... Vejo que você foi meu relacionamento mais antigo, a primeira referência de como me relacionar com o mundo e as pessoas ao redor. Nunca foi fácil, mas sempre foi muito única essa nossa relação. Sinto que teus últimos anos foram muito intensos, e sinto que nós duas estávamos já em outro patamar, um até então desconhecido, mas bom. Muito do que alimentávamos em relação ao passado mudou o sentido e, juntas, passamos a almejar e sonhar coisas leves e bonitas pro futuro. Que pena que não deu tempo. Que pena que você se foi dessa forma.

Espero que um dia eu ainda possa te encontrar, nem que seja por alguns minutos, segundos, qualquer tempinho que seja, em qualquer plano espiritual, somente pra uma última vez, sabe? Somente pra te ver e saber que está tudo bem, sabe?

Não, você não sabe. Você não está aqui. Este é mais um monólogo sem uma conclusão satisfatória. A satisfação nesse caso viria de coisas impossíveis. 

sábado, 16 de setembro de 2023

O quão difícil é não pautar a sua vida a partir de um grande acontecimento ruim?

Eu antes de julho do ano passado era quem? Sonhava com o que? A pandemia me tirou um pouco de identidade de sonhos e objetivos também, e aí... E veio o câncer dela, certo? Aí então fui a filha de uma mulher lutando contra o câncer e contra a lógica maniqueísta de um convênio de saúde.

Antes disso, quem era eu? A assistente social tentando migrar de área, cujo curso de licenciatura foi trancado pelos problemas mencionados, não é a mesma profissional de hoje. 

Eu era feliz? Uma pessoa em busca, mais uma vez, de felicidade a dois, se arriscando em mais um contexto incerto e suas ramificações, e, mais uma vez, aprendendo que quase nada sei e que muito me falta saber sobre limites e afeto.

Quem era eu? quem sou eu hoje?

Sou uma profissional de saúde sobrevivente do período de pandemia. Não morri. O covid também não pegou os meus. Outras coisas, sim, mas o covid não. Importante ressaltar o tipo de governo genocida, estúpido e fascista à frente do país nessa época. Sobreviver foi o que nos restou. Foi o que me restou.

Agora me sinto como uma sobrevivente do luto. Isso realmente é algo? 

Sigo tentando sobreviver à perda da minha mãe. Ela sobreviveu à pandemia, ao covid, mas não sobreviveu ao câncer. E eu sigo me arrastando tentando viver apesar disso. Tentando não ruir a cada vez que a sua ausência se faz palpável, mesmo nas mínimas e até ontem insignificantes coisas. Tentando seguir em frente e achar motivos.

É estranho saber que não é todo mundo que pensa em desistir. Embora me digam que estranho mesmo seria pensar em ir, não importa a frequência, somente o pensamento da partida já seria um sinal vermelho. Achei que fosse um amarelo, se você diminui a frequência de "todo dia" para "três vezes na semana", e então passa a ser "uma vez na semana" quando as coisas começam a melhorar. Mas, ei, tudo é sobre subidas e descidas, é uma montanha russa imprevisível, por que os pensamentos não seriam também? 

Achava que o amarelo desse mês de setembro fosse referente àquele ponto em que exige nossa atenção antes do vermelho ou do verde. O sinal vermelho é a sentença final. O sinal verde significa que você conseguiu seguir "apesar de". Não é assim que funciona a pigmentação desse mês. Mas bem que poderia.

Quais meus sonhos hoje em dia? Por que eu me autossaboto diariamente? Por que eu estou presa em viver em decorrência de acontecimentos ruins? Sinto mente e corpo adoecidos como numa sentença funesta e quase que irreversível, embora a racionalidade sinalize que não é bem assim. Que eu posso ser ao menos um pouco diferente e começar a fazer algo que não seja escrever, desabafar, chorar e me sentir mal por tê-lo feito, e por não tê-lo também. Que eu posso respirar fundo sem o medo à espreita. Sem inseguranças. Somente... respirar. Sem contração no estômago ou fraqueza e formigamento nos membros. Meu corpo pede por cuidados. Minha mente implora por descanso e distração. Meu coração bombeia querendo sentir boas vibrações, sei que no fundo quer sair da apatia às coisas boas. E eu, faço o quê?

Agora, nesse exato momento, instante, segundo, eu penso que gostaria muito de alguém me dizendo o que fazer. Quem ser. Como seguir. O que me faz feliz. Como ser.

As ideações são cada vez mais frequentes em minha rotina, dentro de minha mente claustrofóbica. Carrego dentro de mim esse ambiente escuro, cujas frestas me permitem ver a luz com uma certa frequência, ou receber visitas breves, mas no fim do dia é para ele que eu me recolho. E algo me diz que é assim que vai ser por um bom tempo.


domingo, 6 de agosto de 2023

Ressignificar continua sendo difícil

É mesmo possível lembrar de cada pedaço dela e realocar para uma lembrança dolorida, mas feliz e afetiva? Sentir um calorzinho no coração maior que a agonia da perda e do "nunca mais"?

A voz. O cheiro. As piadas. A risada. O choro. O toque. A pele. O abraço. Os olhos. 

Que saudades da minha mãe. Nunca foi perfeita, estava longe de alcançar o cruel padrão imposto e idealizado, mas era tão única. No bom e no ruim, que mulher inesquecível. Comprovo diariamente em meu dia a dia, não há um sequer no qual ela não esteja em meus pensamentos.  

Queria que ela estivesse aqui. Mas bem. Qualidades, defeitos, falhas, tudo misturado e pulsando naquele coração enorme dela, que mais parecia uma bomba relógio às vezes. Saudades até dos seus exageros sem fim, no ser, no falar, no estar, no pensar.

Daqui a onze dias seria seu aniversário. A morte te roubou isso também. Tento pensar que ela na verdade levou toda dor e sofrimento embora, mas é impossível aceitar essa ruptura como solução. 

Penso em você todos os dias. Queria que você pudesse ver como o nosso sol está incrível em seus três anos e meio. Você ficaria abismada com a esperteza, com o carinho, com a aparência... Você merecia estar por perto e ser bajulada como a melhor avó do mundo. Como consequência de fazer dele o neto mais amado do mundo. Ele também perdeu. Todos nós perdemos.

Que tristeza o mundo não poder mais testemunhar esse amor e essa presença. Gostaria de crer em outros mundos, realidades, universos, somente para ter a esperança de um reencontro. Sei que minha paz não pode depender disso, tampouco minha fé, mas no momento você ainda é a ausência mais frequente de minha vida, e tenho o pressentimento que isso se perpetuará até o fim dela.

Sinto sua falta nas mínimas coisas.

terça-feira, 30 de maio de 2023

A minha vez

Um fato talvez irônico sobre mim: tenho dificuldades de concluir coisas (curso de inglês, graduação de letras, cursinho pra concurso, academia, dieta, etc, geralmente tudo que começo porque preciso ou quero muito no momento), contudo, em se tratando de relacionamentos, tenho dificuldades em deixar ir. Geralmente eu vou até o ponto de desgaste, aquele no qual eu me encontro em frangalhos, já sem forças até pra manter a civilidade. Porém, venho tentando aprender a enxergar quando o "não" parece ser mais saudável que o "sim". E, para ser justa, o ponto final de minhas últimas relações partiu de mim.

Olhando em retrospecto, percebo que em todas tinha algo em comum: a dificuldade em ser enxergada. Digo isso do ponto de vista de quem se viu tentando mudar quem era, se ajustar ao outro em vários aspectos, para no fim ouvir e perceber que o esforço foi inútil. No fundo, a aceitação total é um mito, e sempre um lado mais fraco do arranjo vai ser aquele que se ajusta, que absorve, que se anula em função de manter o equilíbrio da relação. Isso vai acontecendo de forma tão sutil, em coisas tão pequenas, até ter o poder de se tornar apocalíptico. 

Quantas queixas silenciadas... Pela "falta de sentido". O sentido que na hora deveria ter sido o tato alheio. Não teve, apenas uma pseudoaceitação. As particularidades se colidindo, sem conversa, sem encaixe. E como machuca fazer de tudo para mudar pontos até então cruciais, e ainda assim não conseguir diminuir as queixas recorrentes sobre algo que você não concorda, mas, ainda assim, está tentando. Não é tudo sobre tentar? Costumava ser. Até chegar a um ponto em que você não consegue mais ignorar os sinais de alerta apontado o início do fim. Se as peças não se encaixam, eu deveria parar de forçar, de cortar e remendar numa gambiarra.

Ando lembrando muito um comportamento patológico da minha infância, que diz respeito a ter guardado sempre todos os conflitos aqui dentro por não encontrar em meus cuidadores o apoio e a compreensão necessária. Ou estava sempre errada, ou não sabia o que estava dizendo. Eu precisava ter mais idade, mais maturidade, mais eloquência para convencê-los de que havia razão para estar machucada, eles não conseguiam ver as feridas recém abertas. Adentrei à adolescência sendo a falsa imagem da pessoa com o mínimo de problemas e conflitos, sendo que me acostumei a resolvê-los chorando sozinha e escrevendo cartas e textos para ninguém. Tudo em mim gritava e grita que preciso ser vista, amada, respeitada, cuidada... Eu não tinha nem dez por cento de minhas convicções de hoje. Tudo que eu tinha era a ciência de que eu deveria tentar conseguir a aprovação do externo para ser internamente validada. Até hoje luto contra isso.

Percebo o porquê de gostar muito de começos. Principalmente se tratando de relações. As coisas são sempre tão novas, o frio na barriga, as borboletas no estômago, as expectativas, as primeiras descobertas juntos, o construir do coletivo, a disponibilidade para mudar... O encantamento que você é capaz de causar no outro, nas mínimas coisas. E geralmente fico tão abobada que acabo esquecendo de observar sinais importantes. Via de regra, eles já estão lá. São coisas que no momento parecem pequenas, diante da grande emoção que é estar começando uma relação a dois (sim, sou emocionada), mas após os primeiros desentendimentos, as primeiras brigas, se você voltar ao início vai perceber que os sinais já estavam lá. As bandeiras vermelhas são tingidas de branco pela paixão, pela atração, pela emoção.

Por onde andava a parte encantada? Desencantou-se com a rotina. A parte apaixonada? Precisava de um quarto escuro e uma hora propícia para se revelar. Onde estavam as palavras e os toques outrora costumeiros, foram substituídos por repúdio ou mornidão? Quis voltar a ser como no começo, mas já era de conhecimento geral toda a minha atmosfera, os cheiros, toques, timbres, e nada que eu fizesse poderia trazer novamente o encanto da novidade, de como eram bons aqueles dias. Talvez eu não sirva para o costume, para o ordinário. Talvez eu seja extraordinária no começo e, como todas as novidades, perca a graça quando menos se espera.

Por que eu sempre me envolvo com pessoas de difícil acesso emocional, cuja aprovação passa a ser meu maior objetivo? Por que eu insisto mais do que deveria em busca dessa aprovação? Porque é tudo um reflexo do que sou. De minha falta de senso de proteção. De minha falta de respeito a mim mesma. Isso e outras coisas que ainda serão elaboradas com ajuda profissional, tenho ciência de.

Os momentos felizes simplesmente acabam não sendo o suficiente para sustentar uma relação na qual estou sempre buscando agradar e ser validada - um erro crasso, pois não deveria depender de ninguém para ter isso. Talvez meus problemas de autoestima me façam persistir na mesma medida em que me frustro ao perceber que aquilo que preciso nunca vai vir do outro. As queixas se repetem, voltamos sempre aos mesmos pontos de choque, de conflito. O ponto de partida e o ponto final sempre acabam aqui dentro. Meu universo particular de colisão.

E no fim das contas, seria uma repetição de cena? Seria eu a autora que usa a mesma fórmula em todas as obras, caminhando inevitavelmente para o mesmo final? 

Eu estou cansada. Exausta, na verdade. Chego a um ponto em que até escrever me cansa. Sim, esse gesto que parece simplório mas que funcionava como um cano de escape. Tenho tentado as sessões de terapia semanais, exercícios de respiração, escapismo pesado com a ficção, mas, não adianta, o sufoco sempre aparece. Só me sinto carregando tanto no momento, e olhe que já tirei algumas coisas da mochila. Eu queria me livrar mesmo era dessa sensação de que preciso me justificar. De que eu devo palavras, conversas, raciocínios, já me bastam os diálogos internos. E as tentativas fracassadas de diálogos externos.

Estou exausta de ter que desfazer as armadilhas mentais e emocionais, apontando que eu nunca, jamais terei ou serei aquilo que quero. De que eu não mereço mais, nunca conseguirei alcançar a paz que almejo, sozinha ou acompanhada, eu queria esganar essa voz. Eu queria esganar o amor. Eu queria matar com minhas próprias mãos todas as lembranças das vezes que me senti insuficiente somente porque não tive suporte ou aprovação. Eu queria poder assassinar as vontades que me cerceiam, pois estão cada vez mais distantes das condições materiais para realizá-las.

Tenho achado falar de amor algo patético, mas meio vicioso. Talvez pela banalização não se torne nada demais. A convicção de que só amor não basta sempre me parece crua e cruel. Mas essa é a realidade, longe e oposta aos ideais românticos e perigosos. Só amor não basta, é preciso que as linguagens de amor se conversem entre si. Só amor não basta, é preciso respeito e admiração ao jeito de outrem. Só amor não basta, o que sustenta é a forma de se relacionar. Se o outro te oferece amor, mas você permanece com o sentimento da solidão e da carência, ou você é uma criatura desprezivelmente inalcançável, ou talvez o que o outro chame de amor, não o seja, de fato. Talvez o trem do amor partiu da estação há um tempo e vocês entraram em um outro, cujo nome ainda não sabem, meio semelhante, mas insuficiente para continuar. Se vida é essa coisa cheia de estradas, entradas, saídas, curvas, labirintos, te guiando a respostas contraditórias, irônicas, agridoces, então o amor não pode realmente ser muito melhor que isso. 



segunda-feira, 24 de abril de 2023

Eu pulei do trem

A vontade de pular apareceu quando ele ainda estava em movimento, mas só tive coragem de fazê-lo depois de uma colisão. Mais uma colisão. Os danos? Foram poucos. Na realidade, a forma como fui jogada apenas magoou algumas feridas não tão recentes. Aquelas que não conseguiram cicatrizar, pois sempre havia uma batida, um acidente, algo no meio do caminho para reabrir. Desci meio confusa no meio dos trilhos, ainda cambaleando, pensando sobre a direção para a qual seguir. Apenas uma certeza em mente: esse trem eu não pego mais.

Andei sozinha por um tempo, me desfazendo daqueles nós e daquelas amarras que costumava usar para amaciar as quedas e os solavancos do trem. Pensando em como eu me esforcei pra ser vista, em vez de esmagada, e no quão eu mesma passei por cima de mim para tentar me adequar àqueles trechos difíceis. O que eu estava pensando? Onde eu iria parar? Definitivamente esse ritmo não é para mim. Meu mecanismo interno está cada vez mais perto de falhar, de parar, de estancar no meio do caminho. Pulei antes que fosse tarde demais. Pulei antes que alguém me empurrasse desse vagão (como aconteceu pouco tempo atrás e eu ainda me lembro).

Se alguém percebeu a minha falta no vagão, não demonstrou. Achei feliz que ninguém veio atrás de mim, isso tornaria as decisões muito mais fáceis de aceitar. 

Por muito tempo achei que eu fosse uma passageira do vagão. Mas comecei a perceber que, na realidade, eu sou uma mala. Sabe aquelas bagagens cheias de coisas dentro, muitas das quais você não pode se livrar, pesada, sem rodinhas, com necessidade de atenção e um peso desagradável? Eu estava sendo essa mala. Eu achei que estava lá para curtir a viagem, de igual para igual, mas, no fim das contas, eu deveria ter descido em outra estação. Eu tinha um prazo de validade, "você deve seguir com este bilhete até essa estação, daqui em diante, você não pode avançar" - um bilheteiro tentou me alertar, certa vez, mas eu ignorei, e somente... Fui. Afinal, eu gostava do balanço desse trem.

Agora preciso recalcular minha rota. Em certo ponto dessa viagem eu me perdi de mim. Eu repeti comportamentos que desencadearam um retorno desagradável ao passado, justamente quando eu tinha prometido a todos, e especialmente a mim, que não deixaria mais acontecer. Mas assim fui. Perdendo umas peças pelo caminho, enquanto ouvia que estava fazendo e entendendo tudo errado, o trem chacoalhava e eu ria achando que era uma espécie de aventura. Não era. Não havia aventura para mim. Havia um itinerário pré-estabelecido o qual pude seguir até certo ponto, e então depois eu quis forçar a continuar acompanhando, até quase ser tarde demais. Passada toda a adrenalina, esfriando a carne, o sangue, o suor, então consigo perceber que inevitavelmente me machuquei. Ao menos imagino que não tenha sido privilégio meu.

Mas, vamos lá. Avancemos. A minha mochila continua cheia. Tenho muito o que carregar e despejar por aí. As coisas que aprendi estando à bordo deste trem ficarão pra sempre dentro dessa bagagem. E serão úteis algum dia, tenho certeza que sim. Por enquanto, quero caminhar. Redescobrir. Correr. Respirar. No momento o sentimento de que eu devo evitar viagens de trem parece ser eterno, ainda que eu não descarte a possibilidade de me ver no futuro buscando passagens para outros itinerários, em outras estações.