quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Já teve um tempo em que considerei Sixpence None The Richer minha banda favorita. Hoje eu enchi os olhos de lágrimas só de pensar que fazia tempo que não ouvia, e isso não foi uma hipérbole. Não vamos considerar os hormônios que atacam uma vez por mês, vamos apenas pensar no sentimento de ternura que eu tive na hora quando começou a tocar aquelas melodias conhecidas na rádio. Lembrei de tanta coisa. Lembrei de como por acaso descobri essa banda. Lembrei das vezes em que eu fiquei sozinha com meu notebook no quarto, ouvindo até dormir. Lembrei de como fiquei feliz em descobrir que as letras das músicas eram lindas e algumas confusas, do tipo que eu sempre escrevi em meus cadernos. Era uma coisa que parecia tão linda e tão minha, eu mostrava pra um amigo ou outro, mas nunca parecia tocá-los da mesma forma. E eu só conseguia achar que essa banda era uma das coisas mais preciosas que eu tinha descoberto. Mas não via com olhos cegos de idolatria, era mais como um conforto, uma oração. Algo pessoal mesmo. Inofensivo a minha fé e à vida religiosa que eu levava. Vim pensando no que mudou em minha vida daquele tempo pra cá. Quanto tempo faz que eu não reservo uns minutos de meu dia pra me conectar. A Deus. A mim mesma. À paz. Quanto tempo eu não me tranco em meu mundo somente para perguntar, em meio às agonias: como você realmente está? E em seguida começar a escrever... Sem saber como comecei, sem ter ideia de onde pararei, só aquela velha terapia de pôr todas as coisas necessárias num papel que pode ser que não faça nenhum sentido futuramente. Que saudades de ouvir Sixpence. Que saudades de chorar ouvindo música. Me sentir vulnerável nem que seja um pouquinho na presença de ninguém mais e ninguém menos que eu mesma. E Ele. Sempre Ele.

Eu não me dei conta do quanto senti falta desses momentos até um dia desses acordar com as mágoas transbordando pelos olhos no meio da noite. Um desespero aparentemente inexplicável e silencioso. Eram tantas coisas em minha mente naquele momento, mas eu sentia como se não fossem nada, de verdade. Como se fosse um choro sem motivo, em minha cama, e enquanto gasto tempo escrevendo estas palavras eu penso que talvez, apenas talvez, fosse minha alma silenciosamente me implorando por atenção. Na hora quis culpar meu emprego, ou as grandes perdas da vida, as frustrações, o juntar de coisas que teimosamente sempre faço aqui dentro. Mas não. Não era isso. Pelo menos, não somente isso. O que eu preciso é voltar àqueles momentos ouvindo "I'm Here" ou "Too far gone", no silêncio acolhedor de meu quarto. Não aquele silêncio frio, no qual muito se tem a dizer, mas pouco se solta devido a um acordo maquiavélico das palavras em não se deixarem perceber nem por mim mesma. Me escondendo de mim mesma... A que ponto eu cheguei. 

domingo, 22 de novembro de 2015

Existir não basta.
Mas o que é viver, afinal?
Só sei de histórias, estórias, registros de um mero mortal que não vão alterar em nada o futuro do planeta... Por que eu deveria me apegar a minha própria vida desta maneira? É uma falta de foco e de sentido, se a gente olha o mundo daqui de dentro. Através dessas janelas que estão cada vez mais cinzentas. Não sei se de poeira ou da tempestade que se aproxima a cada dia que se passa. Sinto ela chegando enquanto sobrevivo como uma mera mortal em sua vida medíocre de pedir e agradecer a Deus por estar respirando.
Respirar não basta.
Mas o que eu deveria fazer? 
Tem dias em que nada faz sentido. 
Hoje fui tentar consolar uma amiga que perdeu um ente querido. Não foi pessoalmente, ou ligação telefônica mas, ainda assim, me peguei sem palavras que expressassem de maneira genuína o que eu queria que ela soubesse. Mandei algumas poucas frases que expressavam meu apoio, e pedi que ela fosse forte nesse momento e que depois, eu prometi, a dor passaria mais. E só então comecei a refletir sobre o quão hipócrita isso soou. Só então refleti sobre o quão divergentes são meus pensamentos e minhas ações, era isso mesmo que eu queria dizer a ela? Ou simplesmente disse aquilo que julgava ser certo? Opção dois. Sempre a opção dois.

Por que é que a gente alimenta essa ideia de que é preciso se mostrar forte, inabalável, inatingível, emocionalmente estável? Porque pessoas assim são saudáveis. Porque o ideal é que a droga do equilíbrio exista em nossas vidas para que possamos viver da melhor maneira possível. E isso é verdade, obviamente. Porém, o que esquecem de te dizer, ou de considerar antes de te cobrar uma postura equilibrada, é  que isso não é algo que se consegue de uma hora pra outra, muito menos é uma coisa de nascença. Vem devagar, vem com os baques, os erros, o meter os pés pelas mãos, vem com as reflexões, as experiências. Mas, pra isso, a gente não pode ter medo de nossas vulnerabilidades. E eu ainda não sou muito boa nessa coisa de demonstrar fraquezas. Porém, não me parece justo querer ensinar às pessoas que elas sejam assim.

O que eu deveria ter dito a minha amiga hoje era algo como:

"Desculpa, eu não sei lidar muito bem com essa coisa de luto ainda, mas eu sei bem como você se sente. E das vezes que senti eu somente quis que parasse, mas na hora engoli tudo. Me fiz forte quando julguei que deveria, chorei pouco, chorei "na hora certa", fui bem, eu acho, pra quem tava olhando de fora. Mas a verdade é que eu estava destruída por dentro, eu queria fazer qualquer coisa para que aquela dor parasse, eu queria chorar histericamente como se a minha própria vida estivesse prestes a acabar, eu queria jogar coisas, quebrar tudo, fazer algo insano, extremo. Não para que alguém notasse, mas somente para extravasar! Eu não fiz. Eu não explodi quando deveria, eu não desmoronei, eu não fui fiel aos meus sentimentos. E hoje eu vivo com uma dor, uma coisa feita de pedacinhos que, eu tenho certeza, é fruto dessas explosões contidas e mal administradas. Por favor, não faça isso também. Seja fiel aos seus sentimentos, chore histericamente sempre que sentir vontade, saiba que a saudade vai apertar pra caramba, chore todas as vezes que isso doer. Abrace as pessoas, acolha tudo o que lhe oferecerem, de verdade, você vai precisar de suporte nessa hora. Coloque seu orgulho pra debaixo do tapete, procure ajuda se sentir que precisa. Não se preocupe com o que vão pensar de você ou se vão te julgar imatura, ou escandalosa, ou emocionalmente instável. Sua dor é só sua e você tem todo o direito de expressá-la. Desejo que você fique bem, de verdade. Estou orando por você."

E que ela tenha uma aceitação melhor que a minha, um coração mais tranquilo que o meu.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Quão triste foi o último texto. Quão triste é admitir que de lá pra cá nenhuma inspiração foi tão importante a ponto de me render alguma reflexão. Significa que não tive essa súbita vontade de escrever? Não. Significa que mais uma vez eu estive ocupada me escondendo entre os universos, ocupando a mente e o coração com coisas que me distanciam da realidade. É uma pena que nada se mova dentro desta prisão, é cruel e insensato, pois ele ainda está lá. O mundo real. As expectativas, os papéis, as lutas, continuam fortes como nunca. E a vontade de escrever naquela fase chata, na qual não sabe se organizar, não sabe se idealiza, não sabe se relata, não sabe se papel e lápis, não sabe se computador, não sabe nada. Ou apenas sabe. Só não faz nada a respeito disso.

Tenho andado sem esperança, é verdade, mas nada fora do normal. Nada desesperador a ponto de me surpreender. É só mesmo aquela vontade de fechar os olhos e abrir num lugar totalmente diferente. As coisas não mudam. Nem vão mudar. As mudanças exigem atitudes que eu não estou disposta a tomar, então, sinto muito, mas as coisas vão permanecer assim por muito tempo. Inclusive tenho conseguido me perceber envelhecendo em frente a este mesmo computador, ou acordando na mesma cama, desligando o mesmo despertador, por muito mais anos, é uma cena que imagino com um realismo tão surpreendente que me obrigo a olhar no espelho e perceber que não, eu não cheguei aos 30 neste estágio de fracasso em que me encontro.

O fracasso é como aquele velho amigo que por mais que você não o veja todo dia, sempre manda uma mensagem, dizendo: tô aqui, não esquece de mim, sempre lembro de você. E quando você menos espera, ele aparece, faz uma visitinha inconveniente, e depois vai embora, mas não totalmente. Ele nunca deixa de manter contato. Nunca. Há pessoas me dizendo que eu inconscientemente o escolho, quando fecho as portas pras tentativas, quando eu decido não fazer algo por ter a certeza de que não trará bons resultados. Eu chamo prudência, outros chamam medo, e no fundo eu sei que todos temos razão. Nunca haverá uma oportunidade suficientemente boa para eu sair dessa zona de conforto. E, pela primeira vez, eu espero estar errada sobre várias coisas em minha vida. Minhas entranhas contorcem com essa possibilidade de eu estar errada, e um flash de lucidez aparece para silenciar o desespero lento que é imaginar coisas ruins, e então eu só consigo pensar que seria realmente muito bom ser só um pouquinho otimista. Uma vez na vida. Nem que seja como mecanismo de defesa.

domingo, 9 de agosto de 2015

Palavra com p (parte 3) [recapitulando, porque nunca será suficiente]

Pai, sempre quis falar muita coisa pro senhor que eu não tive coragem. Tinha medo, receio, de como o senhor iria recebê-las e qual dano seria causado a nossa relação que com o passar dos anos se tornou tão frágil. O que aconteceu foi que eu fui guardando palavras que deveriam terem saído há muito tempo e hoje elas não fazem mais sentido.

Mas eu esperava tanto, pai, pelo dia que o senhor fosse perceber que já estava sendo negligente há muito tempo com suas filhas e que a sua vida estava indo pro ralo. Há muito tempo o senhor foi meu herói. Era somente contigo que eu gostava de mergulhar fundo no mar cheio de ondas, e passar na rua de mãos dadas praqueles meninos não abusarem mais comigo, e era pro senhor que eu pedia ajuda quando achava tudo difícil em matemática, era somente com você que eu gostava de ir à locadora escolher os desenhos Disney ou Jurassic Park. Parece que isso foi há um século... Parece que essas lembranças são de um alguém que não sou mais eu. Há uma parte bem pequena de mim que resguardou a vivacidade daquele tempo pro hoje.

Mas pai, eu não podia mais viver de passado. Não era suficiente. Eu virei adolescente e de repente todas as ausências foram ficando pesadas de carregar. O senhor não nos visitava mais e cada vez rara que a gente se via era como se um pedaço seu tivesse indo embora. Eu pensava que o senhor não tinha o direito de privar suas filhas de ter um pai, como pôde fazer isso com a gente? Como pôde se deixar dominar por uma coisa tão podre, tão cruel como o álcool, ao ponto de destruir um casamento, negligenciar as filhas e a própria saúde? A gente te avisou tanto... Você não sabe e nunca vai saber como eu senti a sua falta durante todos esses anos.

Eu não vou mentir que fiquei um pouco aliviada quando o senhor saiu de casa, pois eu não aguentava mais sofrer com minha mãe o que a sua convivência nos trazia. Era medo, receio, insegurança, violência... Tudo ao contrário do que costumava ser um dia. Eu tinha oito anos, pai, eu achava que eu deveria me comportar, ser uma boa moça e agir como os adultos queriam. Quando o senhor chegou em casa e viu que suas coisas ja estavam prontas, eu lembro que o senhor me disse, pegando em meu rosto, com a mão pesada, que aquilo não ia mudar o que o senhor era pra mim e que o amor continuaria o mesmo por mim e por minha irmã. Ainda consigo lembrar de suas mãos calejadas em minha bochecha, o hálito de álcool, as tapinhas sem jeito em minha cabeça. Eu apenas suspirei, cansada, pensando se dali pra frente minha mãe seria mais feliz. Fui uma mocinha madura.

Mas na verdade, com o passar dos dias, mesmo que antes o senhor já estivesse ausente em nossa rotina, eu sentia sua falta. Especialmente nos nossos fins de semana. As vezes eu deitava na cama da minha mãe e sentia o cheiro de seus sabonetes que aquele quarto ainda tinha. E eu sabia que alguma coisa ia ficar muito diferente. Nos sábados e domingos não havia mais você pra cozinhar pra gente as pizzas e lasanhas, ou levar pra andar de bicicleta na pracinha do bairro. As manhãs do fim de semana não começavam mais com os discos de Fagner, Barão Vermelho, Legião Urbana, que o senhor colocava na radiola. O senhor nos visitava nos fins de semana, pai, mas era pouco. O senhor não vinha nos ver em todos os aniversários. Nem aparecia ao menos no fim da festa. O senhor mentiu pra gente. Muita coisa mudou. Eu não me sentia mais especial sendo sua filha. Eu achava que o senhor tinha mentido pra gente porque estava bêbado naquele dia que o senhor foi embora.

Eu queria tanto que o senhor tivesse me escutado quando eu tentava conversar limpo com o senhor. Sobre suas fraquezas, sobre a principal delas, na verdade. E o senhor nunca me ouviu. Nossos momentos eram cada vez mais traumatizantes. O senhor estava sóbrio cada vez por menos tempo. Pouco nos restava pra conversar ou viver um momento que não fosse a mesa de um bar. Eu fui ficando cada vez mais frustrada de ver o senhor. Não me ouvia, piorava da saúde, queria me arrastar pra ver o senhor beber até chegar num estado em que eu não gosto nem de lembrar. Falava besteira pra mim e pra minha irmã, xingava minha mãe. E outras coisas que não gosto de detalhar. A culpa era dele, pai. Do álcool. Do vício. Pena que o senhor não viu a tempo. 

Nosso relacionamento ficou preso numa caixinha minha, intitulada "coisas que preciso resolver mas não sei como", e cada vez que a gente se via, mais eu empurrava pra debaixo da cama essa caixa. A gente não conversava mais... Lhe faltava vida. Uma vez por mês eu ia lhe ver por conta de suas obrigações e ter que ouvir as mesmas histórias, ser constrangida pelas mesmas piadas e ações, foi me fazendo muito mal. Aquela pessoa era apenas uma sombra do que eu sabia que o senhor era. Meu mecanismo de defesa estava alto, eu não sabia mais o que fazer pra baixar a guarda. Pedia a Deus por sua vida, chorava dores do passado, do presente e do temido futuro. 

Te via mostrar as feridas na pele, falar da saúde caótica, sentia o nó na garganta quando pensava que o senhor não tinha mais jeito. Falava palavras brutas, diretas, mordazes. Uma coisa que aprendi com o senhor. Quando que no fundo eu queria abraçá-lo e chorar no seu ombro, pedindo que pelo amor de Deus se cuidasse, que aceitasse se tratar e que depois tudo ia ficar bem, a gente ia começar do zero e o senhor ia voltar a ir lá em casa, pegar a gente pra ir a praia, passear no Horto, cantar A Pequena Sereia junto comigo, me ensinar sobre o que o senhor leu nos livros sobre A Reforma Protestante e quis compartilhar comigo, porque sou evangélica. Queria ter te dito tudo isso, pai. Mas não sabia como. Só me esforçava pra não chorar na sua frente e na de seus colegas de trabalho que o senhor jurava serem seus amigos mas, sabemos, em sua maioria, eram mera platéia de seus espetáculos nos quais nós, filhas, éramos troféus exibidos.

Eu devia ter feito de outro jeito, pai. Devia ter parado de me concentrar no que o senhor não fez e assumir meu papel de cuidadora, já que o contrário não funcionava muito tempo. Fui covarde. Por não tomar o primeiro passo de te perdoar e te procurar e insistir. Não há um só dia em que eu não pense no que eu deveria ter feito pro senhor e não fiz. No último dia dos pais  que minha irmã acordou tarde e perdemos o ônibus, eu fiquei com raiva por saber que iríamos ter que voltar de carona com meu tio, com quem o senhor não falava, e acabamos não indo. Ela insistiu pra ir, mas eu achei que não valia o esforço, afinal, seria a mesma coisa de sempre: o senhor passaria meia hora sóbrio, depois cairia de bêbado e nos deixaria sós, de novo, desconfortáveis, na casa da nossa avó, conversando com todos os tios sobre como o senhor andava de mal a pior. E ela sempre me lembra que nós não o vimos e não o entregamos teu presente por minha causa. Porque não quis me esforçar. Liguei pro senhor esse dia e percebi que o senhor também não fazia questão. Mas hoje vejo que a questão era mais profunda que julgava.

O senhor estava em depressão. Eu não soube ver. A sua única alegria de viver era o álcool, e a sua galega e a sua caçula não te proporcionavam mais riso e satisfação. O senhor não retornou minhas últimas ligações. Eu achei normal, dentro de seu contexto. Ninguém me avisou que uma semana antes do senhor partir, o senhor tinha desistido de viver. Hoje eu sei que teria largado tudo pra tentar salvar o senhor desse abismo, mais uma vez. Hoje eu sei que o senhor não queria nos ver pois tinha vergonha de quem era, e eu só queria que o senhor soubesse que, apesar de tudo, o senhor era meu pai. E eu quis te salvar minha vida toda. Achei que as coisas melhorariam depois que o senhor voltou com a visão ampliada depois daquele cursilho da igreja episcopal. Mais uma vez, estava errada.

Se por um lado o senhor nunca soube o quanto senti sua falta, eu nunca vou saber como o senhor vinha se sentindo. Logo o senhor que tinha uma mente muito boa, perspicaz, quando estava "bom". Só não demonstrava, em vez disso, repelia. Até nisso puxei ao senhor. E, se realmente somos tão parecidos, posso imaginar como o senhor estava se sentindo uma merda em saber de todos os anos que foram jogados no lixo em nossa relação. Eu consegui entender o senhor muito, muito tarde. Um dia antes de sua partida eu caí em mim e prometi que ia quebrar meus protocolos e minhas barreiras de gelo e ia correr pra cuidar do senhor. E fazer o senhor entender que eu não abri mão de ser sua filha. Ai então veio aquela manhã de domingo que me levou toda a esperança e mandou pra debaixo do tapete o gelo derretido de minhas lembranças. Precisei ser forte de novo, pai. Pra consolar minha irmã, minha mãe, minha vó(sua mãe), que foi quem mais cuidou do senhor. Pra ver o corpo que foi teu num caixão, pra resolver documentação, pra não parecer tão mal pras amigas, pra não reprovar umas disciplinas na faculdade, pra continuar fazendo visitas domiciliares no estágio. O senhor não sabe como eu tive que me segurar e ser de pedra. Ou melhor, acho que o senhor sabia o que é fazer isso, sim. Não herdei esse lado da minha mãe, sabe, que é sempre tão transparente e explosiva.

Apesar de tudo, pai, agradeço a Deus, o meu outro Pai, por ter nos permitido uma despedida. É fato que foi melodramática, bastante, na verdade,em meio àquele cenário e o senhor usando aquele figurino... Queria saber o quanto do senhor estava ali dentro daquele corpo deitado na enfermaria... O quanto de mim o senhor lembra quando me olhou com aqueles olhos perdidos? Porque eu sei que o senhor me viu. Quando me aproximei, peguei em sua mão. Não quis chorar na frente do senhor, mesmo achando que estava um pouco fora do ar, e mesmo que houvesse muita vontade minha. Mas o senhor segurou minha mão e levou aos lábios. O senhor sabia que era eu. O senhor beijou minha mão. Alisei seu  cabelo, talvez pela primeira vez na vida, após crescer, e foi a última. Devia ter dito que eu te amava pai. E amo. Talvez assim o senhor tivesse sentido motivo para viver. É uma tolice pensar assim, pois a culpa não foi sua, foi da enfermidade que o edema trouxe... Foi tudo tarde demais.

O dia de hoje acabou se tornando nostálgico pra mim, as vezes pesado. Inundada por lembranças e sentimentos, não me resta alternativas senão escrever. Parece injusto ter tanto de alguém que já se foi... Ficar lembrando sempre de algo que não terei mais. Saber que tenho seu humor, a estupidez e grosseria que minha mãe tanto fala, seu andar engraçado, e até o jeito das sobrancelhas, uma hora me conforta e em outra me traz à tona intensidades que eu não queria mais sentir uma hora dessas. Se o senhor não foi um bom pai não importa mais. Só sinto que não fui uma boa filha. E é tarde pra reparar isso. Pior ainda: sinto que se tivesse sido melhor, nesses últimos anos, o senhor poderia ter saído dessa. Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura. Parei de bater quando não deveria. 

Eu queria que o senhor me perdoasse. Não queria que as coisas terminassem assim. Nunca quis. Mas agora não importa mais. O senhor virou a lembrança de algo que perdi e nao terei mais. O senhor virou a maior prova de minha covardia emocional e outras coisas podres. Te perdoei tarde, pai, e não mereço perdão. Pior de tudo é saber que essas palavras são jogadas ao vento, o senhor nunca vai saber. Nunca mais vou te ver. Só me restam os sonhos que de vez em quando Deus manda pra consolar essa filha chorona. Queria ter a certeza que o senhor descansou nos braços Dele.

Senti vontade de não terminar assim, triste de novo. Embora minhas lágrimas protestem, eu queria só me permitir lembrar das coisas boas que o senhor deixou pra mim. Obrigada pelos gostos musicais, o senhor era o melhor nesse quesito. Obrigada também por ter me ensinado tanta coisa quando era pequena, por ter gastado tanto tempo lendo comigo o Almanaque Abril, me ensinando a pesquisar assuntos ali e me fazendo conhecer as bandeiras dos países. Por ter deixado boas revistas e livros em casa, por comprar a coleção de VHS do Castelo Rá-Tim-Bum. Por comprar os gibis da turma da Monica e ler comigo, se interessar por esse universo. Por ficar debaixo do sol comigo na praça, todo fim de semana, enquanto eu andava na minha bicicleta roxa. Por tentar fazer maria-chiquinhas em mim e não contar a minha mãe que eu ia calçando as "sandálias de sair" quando eu ia pra casa de vó. Por assistir Jurassic Park e os documentários da TV Cultura comigo sobre a natureza. Por assistir os Clássicos Disney e me fazer rir cantando junto comigo as músicas dos desenhos. Por ter me incentivado a estudar, e ser "doutora", dizendo que nessa vida o estudo era a coisa mais importante. Por sempre querer me proteger de qualquer um que pensasse em me desrespeitar em sua frente. Pelo dinheiro pra eu e minha irmã comprarmos tantas porcaria sempre que a gente saía com o senhor na rua. Por ter me ensinado a nadar e a amar o mar e a praia, por catar conchinhas na areia comigo, fazer castelinhos e fazer piscininhas pra me colocar dentro. Por nunca ter encostado um dedo em mim, nunca ter sequer apertado meu braço. Por ter me emprestado teus genes e teu jeito, ficou muito do senhor em mim. Por tantas outras lembranças boas... E principalmente por nos amar mais do que tudo, apesar das limitações de seus vícios, de suas fraquezas. E é por isso que hoje ainda ouço de seus amigos: "você era a vida dele. Tudo o que ele tinha". Eu prometo pro senhor, pai, que eu vou continuar lhe dando orgulho... Vou me esforçar pra fazer uma boa carreira, vou casar com alguém que mereça de verdade a sua filha, e se eu tiver filhos vou contar tudo sobre o avô que eles não onhecerão. Eu te amo, pai. Sinto falta até de dizer essa palavra. Pai. É mesmo um amor que nunca morre, essa tal saudade. Queria que o senhor pudesse me ver e ouvir agora.

sábado, 1 de agosto de 2015

Primeiros e permanentes erros

Como foi que a criança rodeada de elogios a sua beleza e inteligência ficou tão insegura? Porque em vez daqueles elogios, daquelas palavras positivas, trazerem ousadia e confiança àquela criança, só contribuíam para que ela crescesse com cada vez mais medo de errar?

"Não deixe que o medo de errar te impeça de jogar." Essa frase me assombrou boa parte da adolescência, logo após assistir a um daqueles filmes teens clichês (tks, Hillary Duff). Foi a única coisa que me impactou, de verdade, naquele romance água com açúcar sobre uma nova cinderela. De lá pra cá a vida me exigiu os mais variados desafios, e eu, como um peixe morto, apenas me deixei levar pelas correntes das mudanças, me adequando a elas, me fazendo forte quando eu deveria ter respeitado minhas fraquezas. Agindo conforme o que eu achava ser certo e adequado, ainda que isso me custassem algumas lágrimas de arrependimento. Ainda bem que eu não possuo a contabilidade das tantas coisas que perdi devido ao medo de jogar, de arriscar. Saber de algumas já é assombroso o suficiente.

Desde criança eu dou demasiada importâncias às "coisas que as pessoas acham/falam/esperam de mim", e isso é algo que sempre cortou minhas asas. Não eram sempre coisas ruins, porém, a cada vez que eu pensava em decepcionar aquelas pessoas que verbalizavam sua fé em mim, meu estômago se contraía, minhas pernas vacilavam e, infelizmente, aprendi a usar um mecanismo de defesa muito cruel: inventar desculpas para me sabotar e, assim, não ter que fazer tal coisas. E isso funcionava desde fingir uma doença para faltar a uma prova importante (ok, isso nunca funcionou de verdade. Mas, se a minha nota não fosse a esperada, eu tentaria justificar pra mim mesma de alguma maneira doentia que era porque eu estava doente) a convencer todo mundo por meio de ações ou fatos relatados de que eu não era capaz.

Hoje muitas dessas coisas trazem um sentido que a minha mente infantil não tinha na época, mas, no fundo eu sabia que, ou havia algo de errado na forma que eu encarava a vida ou o mundo era mesmo um lugar cruel onde só sobreviviam os mais fortes e mais capazes. E adivinha a opção que eu escolhi acreditar, naquele tempo? O resultado disso? Um mente desconfiada, bloqueadora de empatia pelo próximo, temerosa pelo presente, futuro e pesarosa pelo passado (do qual só me recordava as derrotas). Muito peso para uma criança carregar na mente. Eu deveria ter sido ensinada que errar faz parte da vida. E é uma coisa inevitável. Mas não. Todos erravam e eu fui ficando cada vez mais crítica e exigente. Com os outros e, principalmente, comigo. Pois, pensava que os outros não tinham muita consciência de que "não errar" era uma meta, portanto, eu deveria acertar muito mais que eles. Preciso dizer quantas vezes quebrei a cara com isso? E quantas vezes guardei rancores por aqueles, especialmente os mais próximos, que erraram comigo e não reconheceram ou não se importaram?

Um dia alguém bem próximo me perguntou algo como: "quem te fez acreditar que você é tão ruim assim? Quem foi que deturpou tua imagem?" Em seguida começamos a conversar sobre a minha infância e mesmo nos episódios mais traumatizantes, eu não tive respostas. Porque meus pais sempre disseram pra todo mundo que a filha deles era a mais bonita e a mais inteligente de todas. Demorei a perceber que isso foi um fardo muito pesado para carregar, ainda mais na fase em que seus pais são as pessoas que você mais quer acreditar acredita no mundo. Daí você vai crescendo, percebendo que papai e mamãe mentem e exageram, e isso não traz alívio. Não. Na verdade você chega a um ponto em que não sabe mais outra forma de ser/agir ou ver o mundo, e o fardo continua pesado. Seu perfeccionismo não é uma bênção, sua ansiedade suga sua paz, e o medo de errar te machuca e te rouba as oportunidades que a vida vem te oferecendo sucessivamente.

O medo de errar fecha as mais variadas e incríveis oportunidades na vida de uma pessoa. Crescer com o medo de falhar e desapontar os outros foi uma das piores coisas que aconteceu comigo e, até hoje, não sei como me livrar dessa coisa e de seus efeitos sobre minha vida. Não consigo ver de outra forma. Não consigo fazer escolhas sem considerar a melhor forma de agradar ao outro que estiver ligado a ela, não a mim. Quero errar e não enrubescer, quero errar e apenas voltar a caminhar, de onde caí, de onde errei. Quero ignorar os risos, muitas vezes imaginários, sobre a minha sucessão de falhas. Quero esquecer as expectativas alheias e parar eu mesma de fazer expectativas sobre a vida. Muito quero, e muito sei. Mas o pouco que não sei é justamente o que importa: como mudar.