Cheguei aos 24.
São mais de duas décadas vividas... Eu consegui chegar aqui. Sempre me pareceu óbvio que eu fosse conseguir, como qualquer pessoa normal, envelhecer, crescer, viver até os 90 anos. O que nunca me ficou muito claro foi o caminho que eu teria que percorrer nem onde eu estaria quando eu chegasse a essa idade. Cheguei aqui como um gato assustado que veio driblando todas as confusões da rua, colecionando marcas e cicatrizes pra lembrar de não voltar em certos lugares. Com medo de qualquer pessoa que venha e ofereça abrigo, comida, proteção. Cheguei um tanto inquieta, atrás de mudanças, mas ao mesmo tempo tão cansada. Fiquei por aqui, me escorei num canto, durmo, acordo, me alimento, e todo dia agradeço por ainda estar aqui, por estar viva, por nada ter me atingido. Estou tão ocupada sobrevivendo que não me sobra tempo pra curtir o momento ou fazer planos pra um futuro melhor.
Parece horrível, eu sei. Mas quando eu olho pra trás, eu percebo que foi uma espécie de milagre que tenha feito esse gato assustado chegar até aqui. Sempre tive instintos de autoproteção muito fortes, mas nem isso pode impedir que a gente se machuque durante o caminho, há coisas inevitáveis. Esse gato tem tanto medo do maltrato dos seres humanos, dos carros que não vêem e passam por cima e daqueles que vêem mas passam mesmo assim, que aprendeu a atacar antes de ser atacado. Mas, se puder passar silencioso e desapercebido, ainda prefere. E foge. Pra sobreviver. Foge antes mesmo de identificar se o terreno está seguro ou não, passa correndo antes mesmo de haver motivos, para que assim possa se proteger, seja lá do que for que está por vir, seja lá se realmente algo está vindo em sua direção.
Sei que a analogia do gato assustado não é das melhores, mas é a primeira que veio à cabeça, e pensando bem, agora se encaixa perfeitamente com o misto de sensações que ficaram aqui dentro ao trazer a tona tantas coisas relacionadas a essa data.
Esse gato precisa de um lar. E com isso eu quero dizer segurança, abrigo, carinho, comida, proteção. Porém, não há coragem o suficiente para deixar de lado os traumas e os medos que ficaram dos outros lares e das ruas. Das brigas com os outros gatos, das pessoas que não sabiam o que queriam e fizeram dele, com o perdão do trocadilho pobre, de gato e sapato. No fundo ele é e sente que sempre será somente um gato medroso, que envelhece sem muitas perspectivas, e tem como objetivo principal de vida sobreviver.