quinta-feira, 25 de abril de 2019

Creature Comfort

As coisas estão caóticas, tanto na micro quanto na macroestrutura. Nunca estiveram calmas na verdade, o caos é o núcleo, ao que parece. Me incomoda perceber que eu sei demais sobre coisas consideradas doentias, de acordo com o julgamento alheio. E me incomoda achar que eu sei demais sobre mim quando que em certas situações me pego desprevenida. As notícias são desesperadoras. De todos os mundos. Aqui dentro, meu universo subjetivo tem gritado clemência, ignorei por não saber o que fazer. Um passo após o outro em direção ao fogo, então eu sento e busco direcionamento. Dessa vez eu posso me queimar de verdade. Dessa vez há sentimentos conflitantes em xeque. Há o medo da perda, há o desconhecido, há o receio pela exposição e o anseio por ser desnuda. Às vezes penso que a minha vida é mesmo uma grande piada sem graça do universo.

Quem me conhece sabe que essa mente nunca está descansando. Ela dorme por exaustão. Basta puxar um único gatilho e ela acorda agitada, como um bebê barulhento que tem sono leve. Com o que contar nessas horas? O cheiro da madrugada já não ajuda mais. As ruas silenciosas e a falta de iluminação perde um pouco de seu encanto quando há prazos e obrigações em jogo. E eles suplicam para que você amanheça brilhando mais forte. Essa chama quase se apaga.

Dizem que a ansiedade é o mal do século. Sempre gosto de lembrar e repetir: acredito que ela é o que mata a fé. Não creio que  esteja num nível clínico, porém não posso deixar de refletir sobre até onde os maus pensamentos podem me levar. Lembranças pesadas. Lágrimas quentes e constantes. Falta de ar. Tremor público nas mãos, se estendendo até o corpo num banheiro pequeno. Deitada no chão desse mesmo banheiro. Banhos demorados. Tentativas de esfregar a pele, o rosto, o cabelo, até se desfazer de mim. Estômago sentindo as agulhas. Mais lágrimas. Unhas e dedos sangrando. Cabelo caindo. Cabelo arrancado. Lábios feridos. Sangue.

Por que as pessoas se ferem? O que há de tão atrativo em provocar dor física em si mesmo?

Creio que por motivos diferentes, obviamente. Nem todo mundo é por causa de autoaversão, ou culpa, ou medo. Eu não posso falar com propriedade sobre algo que nunca pratiquei. Porém, de alguma maneira estranha, posso dizer que entendo. Me solidarizo até. Acho que compreendo parte da lógica de quem tem uma mente afobada e busca meios ilícitos de se aliviar. Essa "lógica" é fundamentada no desespero. Quem tem uma mente claustrofóbica sabe o quão longe ela pode ir, e quando os mecanismos de defesa falham, você quer se apegar ao que de concreto existir em sua frente. Você quer fugir dos labirintos subjetivos, e muitas vezes o jeito é provocar um "choque", que nem sempre é saudável.

Quantas vezes eu já não estive perdida na névoa mental e quis uma prova de que o mundo real, físico, presente, estava ali, apesar de tudo? Quis uma prova física dos pés no chão, sustentando essa estrutura toda, da pele, do osso, do sangue que existem e estão funcionando coordenados apesar do inconsciente? Imagino o desespero de alguém que corta, fere, queima a própria pele, somente para se sentir vivo... Pois a mente está te levando embora arrastada para manter cativa em algum tipo de inferno particular. Você induz uma ferida física com o objetivo de que a dor o faça colocar nela o seu foco, e assim esquecer aquele desespero mental. Como se cortar um membro pudesse te fazer ser solta e cair pelo caminho. É claro que é uma ilusão. Porém parece ser a solução temporária perfeita. Sentir dor a tal ponto de não conseguir mais pensar. Limítrofe. Intenso. Covardia ou coragem, depende do ponto de vista. Estupidez.
Sempre o desespero.

Desespero esse que faz o sujeito buscar por soluções cada vez mais rápidas para o alívio. O uso de substâncias ilícitas é algo que pode levar à morte, mas nem todos as escolhem pensando nessa alternativa logo de primeira. É sempre uma fuga. É sempre a questão de escolher o que puder tirar o foco mais rápido da agonia. Como julgar alguém que há tempos está sob o mesmo sol e então chegou ao limite a este ponto? Elx só quer dormir. Só quer que a sua mente pare, na verdade, o mais importante é calar as inquietações de tal forma que você não consiga acordar, ainda que isso prejudique o corpo de alguma forma. É complicado avaliar essas questões sob a dicotomia alegria/tristeza, o ser humano é uma infinidade de anseios, medos, sonhos, uma eterna busca pela satisfação em todas as áreas da vida.

Às vezes eu simplesmente agradeço por minha covardia. Porque o desespero traz consigo várias urgências, eu preciso me orgulhar em não ter cedido a nenhuma. São falsas. Falsas necessidades. Falsas soluções. Minha mente já passeou por vários lugares antes de chegar a estas conclusões e criar empatia por quem é visto simplesmente como perturbado ou suicida, há uma pessoa cada vez mais próxima da morte a cada vez que é estigmatizada.

Eu sei lá como cheguei aqui. Aposto que são as notícias de tragédias no geral, em especial as perdas de vidas miseráveis. Sendo a minha própria uma delas, estou sempre trazendo a tona os motivos pelos quais permaneço. Confesso que as respostas nem sempre me dão orgulho, porem ao menos garantem que eu esteja e seja. Por um bom tempo. E assim tem sido. Mesmo que eu imagine coisas que eu nunca (espero estar certa) irei concretizar, reconheço que preciso mudar os rumos de meus pensamentos. Não confiar demais nessas estruturas cheias de fraquezas e debilidades. Especialmente nessa que fica pedindo em coro, frequentemente: 
"Make it painless, just make it painless"

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pega leve.
sou sensível.