quinta-feira, 3 de novembro de 2011

De minhas conversas com o amor... (PARTE 1)



- Você está bem? 
Ignorei.
- Sabe que não.
- E você sabe?
- Não sei? Mesmo que não admita.
- Você é confuso.
Então o amor sorriu. Aquele sorriso de gente que sabe o que provoca no outro. Achei presunçoso. Sorriso de quem sabe de tudo, sabe do melhor. Sabe que sabe. Mas não é orgulhoso, arrogante. Ele simplesmente sabe. Simplesmente é. Às vezes provoca despropositalmente a raiva, mas isso é coisa de quem não está preparado para uma conversa séria, livre de máscaras. Irritei-me.
- Eu não gosto quando você vem sem avisar. - enfim, falei. Na real, foi mais um desabafo.
Amor olhou paciente para mim, e começou falar...
- Eu estou em tudo. Pequenas e grandes coisas. Eu não chego, eu estou. O que muda é a sua percepção.
- Eu sou muito pessimista, então.
- E egocêntrica.
Engoli seco. Egocentrismo é um pecado bastante difícil para mim.
- Você poderia me livrar de tudo isso se quisesse! - apontei, cuspindo acusações.
- Você está certa. Mas só costumo ocupar lugares vagos. Seu lugar está tão preenchido por você mesma... - completou antes que eu pudesse protestar. Cometi o erro de esquecer que Amor também é Verdade. Nunca deveria.
- Me deixe tomar conta de você. - falou de uma maneira carinhosa, característica... Soava doce, tão doce... E eu ainda sentia a coragem ir embora. Queria evitar aquela conversa, fazia tempo que eu tentava me preparar para ela, mas não conseguia. Não daquele jeito, tão de repente.
- Eu tenho medo, agora. - sentia minha voz fraquinha, fraquinha... Queria correr dali, sumir. Esquecer um pouco a realidade. Fantasiar que sou uma pessoa sem marcas, como sempre. Fingir auto-controle, reerguer a muralha impenetrável. De repente só me restou realidade, para respirar.
Minha respiração, ainda controlada, segurava um choro que, eu sabia, seria longo...
- Você precisa de mim. Mas tem medo de minhas formas. Deixe-me contar um segredo: eu sou maior que os seus traumas. Eu sou tudo o que você precisa.
- Dói... - sussurrei, num fio de voz.
- Eu sei que dói. E sei que você sabe que pode contar comigo. A decisão está com você, apenas.
- Vá embora. - minha voz é que estava partindo, e eu não podia mais continuar segurando as coisas. Amor era tão verdadeiro em suas palavras que eu me sentia sem defesas nenhuma.
- Não posso. - apesar de mim, Amor mantinha a voz calma, confiante... Paciente.
- Eu faço parte de você.
- FAZ COISA NENHUMA! - meu coração estava descompassado, surpreso com minha própria ira.
- Faço parte de seu porão. Há quanto tempo você não o limpa?
- Eu...
- Você precisa de uma visita e de uma faxina.
Desarmada. Senti as pernas vacilantes e por dentro um temor incomum.
Cedi às lágrimas que tanto quis segurar. Lembro-me de praticamente cair sentada, morta de vergonha, escondi o rosto nas mãos e apoiei os cotovelos na perna. Não sabia ao certo qual a última vez que me sentira tão vulnerável assim.
- Eu posso te ajudar. - Amor se aproximou de mim com um lenço em mãos. Enxuguei uma última lágrima com uma mão e a estendi, para aceitar a ajuda.
- Só preciso que você confie em mim. - ignorando a minha mão, ele mesmo secou meu rosto. Num gesto muito terno, porém firme. Permiti. As palavras que ele usava eram tão fáceis de entender. E difíceis de lidar. Ele sabia tudo sobre mim e eu a parte que precisava dele, porém as coisas que me impediam ter um diálogo mais fácil eram como um pano que secou sobre uma ferida aberta. E ele sabia disso.
Não havia mais nada coerente que eu pudesse falar. Portanto, apenas ouvi.
- Posso cuidar de todas essas coisas para você. Posso transformar seu interior por completo, trazer luz a seu porão. Eu posso. Independentemente do quanto você acredite nisso. É só em mim que você vai encontrar aquilo que precisa.
E, sim, eu sempre soube... Além de Verdade, ele também é o único Caminho.
Então eu sorri. Timidamente, tremulamente... Olhei para suas mãos estendidas. Esqueci por um momento aquilo que me impedia de tocá-las e o abracei seguramente.
Seja o que Deus quiser.

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sou sensível.