terça-feira, 16 de agosto de 2011

Carne viva




Bem à flor da pele. Em carne viva. Intensidade que reflete, despela, me despe de toda auto-proteção e a realidade penetra como um sal, na ferida. Dói. Arde. Fere. E como fere. Tente convencer que o sol vai raiar outra vez, e ganhe uma agressão gratuita. É assim que funciona. Não exatamente como teria que ser, mas é assim que é. Há uma criatura deitada na cama da noite, envolta pelo lençol da solidão e parece haver uma grande ferida sobre ela. Ela treme de frio, segura as próprias pernas e os dentes, sente-se despelar. E a pele que vai é suja e velha, feia mesmo. E a nova ainda não está madura o suficiente para aparecer, sangra, o próprio oxigênio funciona como uma agressão. Alguém puxou rápido demais essa pele.
Hoje não queria falar de mim. Não pretendia cair nas frases e clichês baratos, no fim das contas eu sempre suplico por coisas que sequer fazem sentido. Meu coração será invadido pela mais genuína gratidão quando souber direcionar as petições, as súplicas, ao lugar correto. Por enquanto me enquadro nesse retrato mágico, se movendo lentamente, aos que conseguem enxergar, mudando de cenário e voltando à mesma cama. Respirando o que me resta de ar, escondendo as fraquezas com a mesma habilidade de sempre, com a diferença de um manifesto silencioso nas pequenas coisas. A velha falta de sentido nas pequeninas, a revolta das borboletas.
Nunca esperei uma revolta silenciosa, talvez devesse ter me preparado para tal. Um grande erro de cálculo esperar uma explosão barulhenta e doida, coisa de fazer voar os pedaços e as peles. Melhor seria ter preparado as pomadas para um despelar lento... Doloroso... Como se alguém tivesse cortado o casulo querendo apressar a metamorfose, e assim conseguir aleijar de vez a borboleta. 
Carne viva. Graças a Deus, viva. Até demais. Viva em pequenas feridas que doem, ardem, em arranhões recém-feitos, em cicatrizes passadas e que foram levadas de mau jeito. A gente não pode mais colocar remédio e esperar que elas sarem de maneira diferente, a única coisa que desejo é levá-las sem incômodo e um sorriso no rosto cada vez que as lembranças vierem à tona, pois ainda conseguirei ver o grande agir e ensinar em tudo isso. 
Recorro a este espaço como num desabafo, necessidade de olhar para mim mesma, alimentar o egocentrismo, querer julgar algumas coisas ilícitas. No mundo real não há espaço para egocentrismo, em meu lugar, sempre. Mas não pense que isso é o que me direciona a agir como ajo, é o que você não consegue entender. Nada é tão institucionalizado e simples como parece, meu manual de instruções em braile e num idioma desconhecido. Deixo essa parte pra o dono da máquina fazer, minha função é apenas agir e saber em qual parafuso devo folgar ou apertar. Difícil. Louco. Essa coisa de intensidade um dia vai acabar me matando. (se assim eu deixar)
Inveja dos que não sentem, dos que não vêem. Dos que nunca se confrontam. Num momento insano, às vezes teorizo que os tolos sofrem menos. Afinal, tudo é tolice. (e essa é uma das minhas).

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sou sensível.