Ele a observou caminhar despreocupadamente até o sofá, sentando-se serenamente a seu lado... Seria possível que nada a atingisse?
- O que foi? – perguntou, um tanto aérea, fazendo-o perder um pouco de sua preciosa paciência.
- Nada. – resmungou, bruto, mostrando uma falsa insensibilidade, enraivecido por ser um alguém tão fraco aos encantos de um alguém tão frio.
- Aconteceu alguma coisa. – ela constatou, após observar por uns 2 minutos o comportamento infantil dele.
Era mais que óbvio que algo tinha acontecido... Aliás, algo sempre aconteceu. Mas ele se descobriu um bom ator, e ótimo covarde também. Sua covardia estava lhe matando, e ele tinha de encarar esse fato. E encarava como podia. Com amargura.
- Você acha mesmo? – irônico. Numa imitação perfeita dela.
Ela estava impassível, como sempre. Preocupada, como revelava, mas ainda assim, seca. Como podia alguém ser tão paradoxal? E como podia ele ter se apaixonado de verdade, e por um alguém tão complicado de ler? Logo ele... Logo ele! Que odiava entrelinhas e coisas complexas. Que mergulhava sempre de cabeça em tudo, sem pensar, tendo uma forte tendência a inclinar-se ao mais fácil, ao mais acessível. Era loucura querer desvendá-la, e era ainda mais insano não fazê-lo. Acabaria por enlouquecer se não o fizesse.
- Você nem imagina, Julia... – ele soltou, ainda com os cotovelos apoiados na coxa e a cabeça enterrada nas mãos. Covarde. Covarde. Covarde. Sequer conseguia encarar os olhos castanhos que faziam parte da maioria de seus sonhos desde então. Os olhos que diminuíam e faziam dobrinhas, a cada vez que ela sorria. Queria beijar cada uma daquelas curvinhas. Todos os dias. Seria pedir muito? O nó que se formava em sua garganta não era como o de um choro contido... Era como se cada palavra que precisasse sair estivesse judiando de sua covardia em fazê-lo, querendo obrigá-lo de toda maneira. Pressionando. Poderia começar a narrar o começo de tudo aquilo... Mas, como começou mesmo? Nem ele mesmo sabia. Envolvido por seus mistérios, por sua personalidade tão intrigante, passou a se escravizar num vício de observar suas manias, suas ausências, sua frieza e seus pensamentos subentendidos. E quando caiu em si, estava irreversivelmente e irremediavelmente apaixonado. Pela primeira vez sabia o que era o amor. Uma necessidade estranha de estar com ela, nem que seja como agora, em silêncio, apenas para ouvir sua respiração leve, solta e quase inaudível. Sentir seu cheiro tão seu. A boca que sempre esboçava um sorriso torto de puro sarcasmo, a boca que já chegou a lhe revelar tantas coisas incomuns... A boca que escondia uma gargalhada gostosa e contagiante, a qual ele teve o privilégio de presenciar algumas vezes. A boca de lábios fartos que queria tanto beijar e sentir a textura num instante infinito, imortalizar cada sensação, cada curva... Isso nunca iria acontecer. Ela era boa demais para ele. Inteligente demais, linda demais, única demais, mulher demais. Precisava arriscar tudo, precisava sentir que nada estava perdido... Nada pior que aquela falsa esperança que brotava dentro de si, e que precisava logo esclarescer, de uma vez por todas!
- Pedro... – ela começa, sem dar um sinal sequer de mudança em seu semblante.
- Desculpe.
- ...
Talvez devesse explicá-la o quanto a queria, ou o quanto lhe custou falar isso, finalmente. Mas... Isso realmente importaria para ela? Não, não importa. Suspirou, com uma estranha sensação de alívio e derrota. Maldita falsa esperança. Maldita coragem inoportuna. Maldito amor.
Ele olhou mais uma vez em seus olhos... Suplicante por respostas. Ela parecia querer torturá-lo com suas poucas palavras. Ele preferia seu silêncio a toda aquela indiferença. Ele começou a desejar nunca ter dito nada. E simplesmente deixar levar até quem sabe esquecer. Levantou-se lentamente e abusando de todo seu auto-controle deu-lhe um beijo na bochecha, querendo não concentrar-se na textura de sua pele e nem no cheiro convidativo que emanava dela. Ele a sentiu recuar um pouco. “É, ela tem sentimentos, afinal.” Pensou com amargor frente à reação que interpretou como repúdio, da parte dela. E dirigindo-se porta afora decidiu que era hora de se isolar um pouco e esquecer mais uma vez quem era. Hora da concha. Hora de recolher toda a sua insignificância.
Antes de bater a porta pôde ouvir um alto e claro "sinto muito" de uma Julia cabisbaixa e pensativa, com os olhos fixos nos próprios joelhos. Em seguida saiu porta afora.
Já no asfalto e com o fone de ouvido no último volume, pensava que talvez nunca tivesse a resposta para aquele mistério chamado Julia. E talvez nunca desistisse de solucioná-lo.



