segunda-feira, 14 de março de 2016

Respira fundo que uma hora passa, eles disseram. Disseram também pra eu me acostumar, que é uma coisa que todo mundo sente de vez em quando. Disseram que era normal, mas eu não conseguia aceitar como comum. Não parecia certo aquilo ser normal, entende? Não parecia certo ter que engolir tanta coisa. Pediram pra eu falar baixo, pois não queriam preocupar ninguém. Quando eu estava quase sussurrando, então pediram para eu parar de falar. Fiz uma última pergunta, já não suportando tantas reprimendas, então me mandaram fingir. Não responderam. Me mandaram fingir. E sabe qual o pior? Eu tentei... E consegui. E me acostumei a falar sobre coisas de uma maneira que eu não acreditava. Depois percebi que era exatamente o que as pessoas queriam ouvir. Me perguntaram qual o segredo e eu não soube responder. Disse apenas que era o certo, cabeças acenaram concordando. Por dentro continuei a negar tudo e depois pensei bastante sobre o dia, antes de dormir. Mas não tive nenhuma resposta. Nem sono.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Eu carrego culpas que não deveriam ser minhas. Mas elas estão aqui. Elas nunca se vão de verdade, ficam adormecidas pra depois acordar como uma besta sangrenta, perigosa, faminta, disposta a levar tudo e todos que vê pela frente. A minha sorte é que é no silêncio das minhas madrugadas que a besta acorda na maioria das vezes. É quando eu paro pra prestar atenção ao que estou sentindo, sobretudo as faltas, os anseios, os pedaços de meu coração que foram remendados mas de vez em quando arrebentam. E lá vou eu costurar de novo antes que alguém veja.
A culpa é um monstro que eu não deveria criar. Mas não sei como faz pra abrir a porta, colocar ele na rua e ignorar sua existência. Eu não consigo esquecer. Todos os dias quando acordo e fico dividida entre agradecer a Deus por mais um dia ou resmungar sob o efeito depressivo da manhã sobre como eu odeio fazer isso, percebo que a culpa ela está secretamente regendo minhas ações. A culpa me faz pensar cada vez mais que eu me estimo cada vez menos. Estou sempre me culpando por coisas que não fiz, pessoas que não salvei, projetos que abandonei, quando na verdade deveria estar enxergando as vezes em que eu fui abandonada. Estou sempre me cobrando as melhores posturas, as atitudes mais sóbrias, e me sinto cada vez mais só quando percebo que ninguém percebe o meu esforço. Eu faço isso pra os outros ou pra mim mesma, afinal? Se fosse pra mim, eu não deveria estar com a consciência livre de culpas desnecessárias? Quando eu começarei a fazer as coisas por mim, em primeiro lugar? Sim, a culpa disso é toda minha também.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Já teve um tempo em que considerei Sixpence None The Richer minha banda favorita. Hoje eu enchi os olhos de lágrimas só de pensar que fazia tempo que não ouvia, e isso não foi uma hipérbole. Não vamos considerar os hormônios que atacam uma vez por mês, vamos apenas pensar no sentimento de ternura que eu tive na hora quando começou a tocar aquelas melodias conhecidas na rádio. Lembrei de tanta coisa. Lembrei de como por acaso descobri essa banda. Lembrei das vezes em que eu fiquei sozinha com meu notebook no quarto, ouvindo até dormir. Lembrei de como fiquei feliz em descobrir que as letras das músicas eram lindas e algumas confusas, do tipo que eu sempre escrevi em meus cadernos. Era uma coisa que parecia tão linda e tão minha, eu mostrava pra um amigo ou outro, mas nunca parecia tocá-los da mesma forma. E eu só conseguia achar que essa banda era uma das coisas mais preciosas que eu tinha descoberto. Mas não via com olhos cegos de idolatria, era mais como um conforto, uma oração. Algo pessoal mesmo. Inofensivo a minha fé e à vida religiosa que eu levava. Vim pensando no que mudou em minha vida daquele tempo pra cá. Quanto tempo faz que eu não reservo uns minutos de meu dia pra me conectar. A Deus. A mim mesma. À paz. Quanto tempo eu não me tranco em meu mundo somente para perguntar, em meio às agonias: como você realmente está? E em seguida começar a escrever... Sem saber como comecei, sem ter ideia de onde pararei, só aquela velha terapia de pôr todas as coisas necessárias num papel que pode ser que não faça nenhum sentido futuramente. Que saudades de ouvir Sixpence. Que saudades de chorar ouvindo música. Me sentir vulnerável nem que seja um pouquinho na presença de ninguém mais e ninguém menos que eu mesma. E Ele. Sempre Ele.

Eu não me dei conta do quanto senti falta desses momentos até um dia desses acordar com as mágoas transbordando pelos olhos no meio da noite. Um desespero aparentemente inexplicável e silencioso. Eram tantas coisas em minha mente naquele momento, mas eu sentia como se não fossem nada, de verdade. Como se fosse um choro sem motivo, em minha cama, e enquanto gasto tempo escrevendo estas palavras eu penso que talvez, apenas talvez, fosse minha alma silenciosamente me implorando por atenção. Na hora quis culpar meu emprego, ou as grandes perdas da vida, as frustrações, o juntar de coisas que teimosamente sempre faço aqui dentro. Mas não. Não era isso. Pelo menos, não somente isso. O que eu preciso é voltar àqueles momentos ouvindo "I'm Here" ou "Too far gone", no silêncio acolhedor de meu quarto. Não aquele silêncio frio, no qual muito se tem a dizer, mas pouco se solta devido a um acordo maquiavélico das palavras em não se deixarem perceber nem por mim mesma. Me escondendo de mim mesma... A que ponto eu cheguei. 

domingo, 22 de novembro de 2015

Existir não basta.
Mas o que é viver, afinal?
Só sei de histórias, estórias, registros de um mero mortal que não vão alterar em nada o futuro do planeta... Por que eu deveria me apegar a minha própria vida desta maneira? É uma falta de foco e de sentido, se a gente olha o mundo daqui de dentro. Através dessas janelas que estão cada vez mais cinzentas. Não sei se de poeira ou da tempestade que se aproxima a cada dia que se passa. Sinto ela chegando enquanto sobrevivo como uma mera mortal em sua vida medíocre de pedir e agradecer a Deus por estar respirando.
Respirar não basta.
Mas o que eu deveria fazer? 
Tem dias em que nada faz sentido. 
Hoje fui tentar consolar uma amiga que perdeu um ente querido. Não foi pessoalmente, ou ligação telefônica mas, ainda assim, me peguei sem palavras que expressassem de maneira genuína o que eu queria que ela soubesse. Mandei algumas poucas frases que expressavam meu apoio, e pedi que ela fosse forte nesse momento e que depois, eu prometi, a dor passaria mais. E só então comecei a refletir sobre o quão hipócrita isso soou. Só então refleti sobre o quão divergentes são meus pensamentos e minhas ações, era isso mesmo que eu queria dizer a ela? Ou simplesmente disse aquilo que julgava ser certo? Opção dois. Sempre a opção dois.

Por que é que a gente alimenta essa ideia de que é preciso se mostrar forte, inabalável, inatingível, emocionalmente estável? Porque pessoas assim são saudáveis. Porque o ideal é que a droga do equilíbrio exista em nossas vidas para que possamos viver da melhor maneira possível. E isso é verdade, obviamente. Porém, o que esquecem de te dizer, ou de considerar antes de te cobrar uma postura equilibrada, é  que isso não é algo que se consegue de uma hora pra outra, muito menos é uma coisa de nascença. Vem devagar, vem com os baques, os erros, o meter os pés pelas mãos, vem com as reflexões, as experiências. Mas, pra isso, a gente não pode ter medo de nossas vulnerabilidades. E eu ainda não sou muito boa nessa coisa de demonstrar fraquezas. Porém, não me parece justo querer ensinar às pessoas que elas sejam assim.

O que eu deveria ter dito a minha amiga hoje era algo como:

"Desculpa, eu não sei lidar muito bem com essa coisa de luto ainda, mas eu sei bem como você se sente. E das vezes que senti eu somente quis que parasse, mas na hora engoli tudo. Me fiz forte quando julguei que deveria, chorei pouco, chorei "na hora certa", fui bem, eu acho, pra quem tava olhando de fora. Mas a verdade é que eu estava destruída por dentro, eu queria fazer qualquer coisa para que aquela dor parasse, eu queria chorar histericamente como se a minha própria vida estivesse prestes a acabar, eu queria jogar coisas, quebrar tudo, fazer algo insano, extremo. Não para que alguém notasse, mas somente para extravasar! Eu não fiz. Eu não explodi quando deveria, eu não desmoronei, eu não fui fiel aos meus sentimentos. E hoje eu vivo com uma dor, uma coisa feita de pedacinhos que, eu tenho certeza, é fruto dessas explosões contidas e mal administradas. Por favor, não faça isso também. Seja fiel aos seus sentimentos, chore histericamente sempre que sentir vontade, saiba que a saudade vai apertar pra caramba, chore todas as vezes que isso doer. Abrace as pessoas, acolha tudo o que lhe oferecerem, de verdade, você vai precisar de suporte nessa hora. Coloque seu orgulho pra debaixo do tapete, procure ajuda se sentir que precisa. Não se preocupe com o que vão pensar de você ou se vão te julgar imatura, ou escandalosa, ou emocionalmente instável. Sua dor é só sua e você tem todo o direito de expressá-la. Desejo que você fique bem, de verdade. Estou orando por você."

E que ela tenha uma aceitação melhor que a minha, um coração mais tranquilo que o meu.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Quão triste foi o último texto. Quão triste é admitir que de lá pra cá nenhuma inspiração foi tão importante a ponto de me render alguma reflexão. Significa que não tive essa súbita vontade de escrever? Não. Significa que mais uma vez eu estive ocupada me escondendo entre os universos, ocupando a mente e o coração com coisas que me distanciam da realidade. É uma pena que nada se mova dentro desta prisão, é cruel e insensato, pois ele ainda está lá. O mundo real. As expectativas, os papéis, as lutas, continuam fortes como nunca. E a vontade de escrever naquela fase chata, na qual não sabe se organizar, não sabe se idealiza, não sabe se relata, não sabe se papel e lápis, não sabe se computador, não sabe nada. Ou apenas sabe. Só não faz nada a respeito disso.

Tenho andado sem esperança, é verdade, mas nada fora do normal. Nada desesperador a ponto de me surpreender. É só mesmo aquela vontade de fechar os olhos e abrir num lugar totalmente diferente. As coisas não mudam. Nem vão mudar. As mudanças exigem atitudes que eu não estou disposta a tomar, então, sinto muito, mas as coisas vão permanecer assim por muito tempo. Inclusive tenho conseguido me perceber envelhecendo em frente a este mesmo computador, ou acordando na mesma cama, desligando o mesmo despertador, por muito mais anos, é uma cena que imagino com um realismo tão surpreendente que me obrigo a olhar no espelho e perceber que não, eu não cheguei aos 30 neste estágio de fracasso em que me encontro.

O fracasso é como aquele velho amigo que por mais que você não o veja todo dia, sempre manda uma mensagem, dizendo: tô aqui, não esquece de mim, sempre lembro de você. E quando você menos espera, ele aparece, faz uma visitinha inconveniente, e depois vai embora, mas não totalmente. Ele nunca deixa de manter contato. Nunca. Há pessoas me dizendo que eu inconscientemente o escolho, quando fecho as portas pras tentativas, quando eu decido não fazer algo por ter a certeza de que não trará bons resultados. Eu chamo prudência, outros chamam medo, e no fundo eu sei que todos temos razão. Nunca haverá uma oportunidade suficientemente boa para eu sair dessa zona de conforto. E, pela primeira vez, eu espero estar errada sobre várias coisas em minha vida. Minhas entranhas contorcem com essa possibilidade de eu estar errada, e um flash de lucidez aparece para silenciar o desespero lento que é imaginar coisas ruins, e então eu só consigo pensar que seria realmente muito bom ser só um pouquinho otimista. Uma vez na vida. Nem que seja como mecanismo de defesa.